Blog da Liz de Sá Cavalcante

Luz

Qual luz me fará morrer? De todas as luzes, resta o pertencimento do adeus. Não há sentido no amor. Entre o tempo e o amor, não sei o que escolher. Medo é o bem da cautela. No medo, há vazio? Estrelar no não é permitido ser. Botar vírgulas na vida. Eu vivi o não vivido e senti eternidade de espinhos. Fura-me eternamente em mim, que nada mais vai me perseguir, pois a vida é a luz de um instante. Nada há a fazer em um instante. Por isso sorrio.

Antes

O ser nasce antes de nascer. Meu ser anterior é decepção. Arde a alma em mim. Luzes voam no meu olhar como renascer em mim. Não sou luz, mas sou este renascer de mim. Eu amo como um pássaro sem asas. Eu vivo de me dar amor. Nada fica, tudo é. Eu tenho que repor a alma com a alma. Confiança é um chão que não pisa. O mar dissolve a alma. Teu colo, vida, é minha alma, meu porto seguro. Tua ausência é a minha fala. Para que amar? O destino de ser só é saber amar. O fim e o começo é o amor. Nem o amor precisa ser. O fim é infinito com amor. Eu morri com amor para viver, amar.

Insubstituível

O para si de mim mesma é o não nascer de mim, mas do eu que existe em mim. O nascer são fragmentos do não nascer. Se o nascer de mim na tristeza divina fosse a vida, a vida seria melhor, teria o céu. Ter contato com o real é como entrar numa areia movediça. O céu são as sobras da vida de Deus. O teu amor é o meu? Sem o céu, tudo são estrelas, estrelas do fim. Tudo é seguro nas estrelas, mesmo sem o céu. Teu olhar é o fim do meu olhar. Eu rondei o nada. Sei onde eu sou eu. Me identifico com a alma. Somos uma só. A prontidão é amor. Sorrir devolve-me a mim. O amor é nos excluir. É abandono. É não poder me sacrificar. É me esquecer na solidão de estar viva.

Âmago

Saber que é fim. A medula é a morte, é o âmago, é o nada. A vida é o espelho da alma em brumas no amor. Nada se perde se eu não possuir. O  amanhecer escapa do amor que sinto. A alma é o que se vê na vida: pela segurança de um adeus. Estou feliz, ainda sinto minhas mãos vivas. Escrevo até no céu. Não escrevo no teu adeus, no teu abandono.

No auge

No auge da fala, o silêncio destaca a pureza irreal na natureza. A sombra das lágrimas é a vida enlouquecendo. Esta é a vergonha da morte. Seu ar fresco como cristal na transparência da morte, no adeus de sempre. O adeus de sempre me resseca de alma. Dar adeus ao nada ressuscita o invisível nos fantasmas da mente. Assim ele não pode partir. É o mesmo adeus, o mesmo ser, o mesmo nada. Atravesso o nada como poeira. Situar o ver na vida é florescer o vazio. Tenho a alma no amor, no tédio. Ver é falar. Parar o tempo com uma flor, sem o controle de Deus. A visão da alma é o mistério em náuseas de ver. Sonho tanto para ferir a alma na preocupação de derrotar algo que nunca vai deixar de existir em mim. Resistir a dor é desaguar num céu imperfeito de mortes, de martírio, no auge do nada.

Discordância

Em todo canto, encrespar a morte com amor. Não aceitar a morte me faz viver. Amar-te não é a falta de mim, é a minha presença. Tudo pode ser se houver presença. Não sou sempre a mesma presença. A vida não é onipresença. Seu lugar é a fraqueza humana, é a urgência de amar. É o não ser, só isolar a solidão, como impregná-la na morte da vida. Eu idealizo sonhos em mortes, sem vidas. Nem a vida socorre a morte de ter uma grandeza de partir, salvando a tua alma de ti. Morte, sossegue, não terá fim. Será sempre o começo do meu corpo, de mim, na minha alma, na tua alma. Eu confio na tua alma que não tem no teu amor, no teu desespero. Nunca vai me proteger. Te dou vida com minhas poesias. Escrevo forçada pelo amor para que ninguém morra como eu morri. O desfazer de mim é sem morte. Como amparar o que me atinge? A morte. Tenho a gratidão por morrer. Este é meu amor, a prova que amo da imensidade de meu amor, que me fará ter a morte apenas por uma lágrima que derramo, sem saber como acolhê-la, amá-la. Tudo na minha vida se baseia na minha lágrima, mas não termina numa lágrima, continuo a chorar mesmo morta. Meu sentir ao morrer aumenta o meu amor.

Empolgação

O quer o nada? A empolgação de viver inspira a alma, aspira o ar no amor, aspira a reflexão gigante, infinita de ser, alardear o amor. Me entusiasmo com minha voz, é tudo. Se ouve desde então. Ela sou eu, o meu amor, minha emoção, minha alma, sonhos, desejos. Mesmo assim sou reduzida a nada. Quero me esfarelar com a minha pele como eu a me esfarelar de amor, por amor. Não tenho mais medo de amar, é o que quero.

Insustentável

Meu não se sustenta. O porvir talvez seja insustentável para mim, o meu corpo incorpóreo. Fez-me ver que sou nada neste corpo, nesta alma me fará ser e sou sempre indigente da minha plenitude de Deus. Vibrar de amor, emoção.

Eternidade

Minha alma é um penhasco despido pelo amor. A putrificação é a força do meu corpo que anda, flutua em mim. Medo de ter um corpo, de ser o ar, não respirar é morte, vive dentro de mim. É interessante morrer cantando. Nós em nós mesmos e nunca nós vamos nos deixar: isto é tão inesquecível em um corpo, por isso eu não o possuo. O ar volta como sendo meu corpo inflexível, duro na imobilidade das águas, que voam no meu olhar, pousam em mim como uma carícia que depende de mim. Ajudo a me remover das carícias, preciso do fim. Meu olhar não desaparece na morte, enfrenta sua escuridão na sua morte. Ver é pedir, ficar mais morta que a morte. Sorrir é ir no fundo de um abismo para parar de sorrir e me entregar. Me faço de alma, parece que a alma morreu, e eu fui eterna na minha morte.

Ser

Eu estou a sofrer, procurar um abraço na minha alegria. Não percebe que é por ser feliz que necessito de ti assim, mais que a vida, que o sol. Não quero essa saudade de mim e de você. Quero viver com você, sonhar com você, sonhar comigo em você. O fim da saudade é ser só, como a noite cai dos meus olhos e entristeço-me sem entristecer a vida. Tristeza viva pelos meus olhos. Me diga porque me fez triste, te farei feliz como ser alma, espírito, grandeza. Eu tenho a paz da fala. Quem escuta? Quem pode saber o que sinto? Preciso sentir até pelos que  não sentem. Quero estar na vida como desfolhar a minha vulnerabilidade para acordar na vida para dizer adeus com amor, com o que o adeus sabe me dar.