Blog da Liz de Sá Cavalcante

O soluço do mar

Por nada existir, existe ser, e eu, longe do meu ser, o sinto como se estivesse aqui, agora. As ondas do mar em mim e o sossego em pele no reversível de mim. A angústia do não eu. O que sei sobre mim? O rosto não é um reconhecer. Me reconheço no outro, onde o mar se esconde, em mim. Sou fim do mar e começo do sonho. Sonho por causa do mar. Nasci como mar e vou morrer como mar. Sonhar vibra, idolatrar-me num mar que busca, fala em mim, da minha finitude e a ameniza. A finitude é um barco, afunda se eu quiser. O que se pede em angústia é o amor de ontem que não volta. Mas o amor de hoje pode ser melhor. Cada um acredita no amor, mas o amor não é igual, se vê no outro de maneira inigualável. É fácil surgir, difícil é surgir no não surgir. Surgir acaba em angústia, em fim. Fim. Nasci vendo o meu fim. Fim esclarece a dor. A dor é a morte da dor. Relaxo-me como quem dita a vida e renuncia a morte. Isto sou eu, isto é mar.

Ouvir

Tirada dos escombros de mim para me sentir viva no meu sonho, onde não quero morrer. Escrevo para não ouvir. Ouvir é mar.

Ilusão

Nada existe. Existe apenas o ser, o resto é ilusão do ser. O refazer se refaz. Só o imperceptível se percebe no nada, no sorrir de partir entre tantas coisas. Partir de mim torna-se especial. Se eu fosse tão útil quanto partir, viveria eternamente. O raio de sol dando luz ao sol, ao céu.

Paz

Saber mais do que a vida. O não saber influi no saber, na vida que fica isento de mim, plumas de morte. O desespero tem raiva de mim. O vento é o abstrato do desespero. O maior desespero é o dia. Dia após dia. O desespero fala comigo com a voz do amor. Não me desespera, insisto em voltar para minha realidade, que não é a do desespero. Minha realidade é apenas uma luz. E essa luz não depende do amanhecer. Ela sou eu. Isso é tudo que sei. Mesmo assim, sei mais que a vida. Sei de mim. Isso nem a vida, nem a realidade, nem o sonho, nem o despertar podem me tirar a paz.

O nada e a vida

Viver se pensar é não ter vazio, é me elevar na diferença do nada. É ser melhor que a realidade. É desaparecer o desaparecer: viver.

O ser se entende

O difícil é não. O ser se entende noutro ser até não querer entender mais nada. O difícil é não entender. Quero que os outros sejam eu. Mas sendo ou não sendo um ser, sou completa, inteira, plena como um fio de luz colado na realidade fria e isso me aquece, me faz viver.

Seguir

O inatingível é de uma sensibilidade que ri, chora, sonha, só não morre. Morre no não sofrer. Não sofrer é o maior martírio ao ser. É não poder afundar as lágrimas que não chorei. Fumaças de dor espantam o dia, o céu. É tão forte viver o que sofri. Foi o tempo que passou sem se comunicar comigo sem ver o céu pela última vez.

Existe ou existir

Existe verdade sem o ser? A rejeição do existe é o existir. Estimular o existe a ser o existir é como afundar nesta compatibilidade de pele e sorrir, como se estivesse sonhando.

Por nada

As lembranças fantasiam o nada. O nada é alma eterna. A morte me mata apenas num espaço infinito, inovador. A fé é a morte como espetáculo da fé. Fé triste a de morrer.

Alma impedida

Alma impedida de amar vive o amor dos outros. Sofre mais quem não sofre. O fim das palavras é o expressar da vida. Quem me acorda me desperta de mim, são as minhas poesias. Deu um fim à morte. Fez Deus existir para mim.