Blog da Liz de Sá Cavalcante

Difícil

Ninguém cuida, ninguém é. O eco é solidão da vida, ninguém entende, nem a minha voz a pedir amor. É difícil dar a voz no silêncio.

Sou demais para o céu

Flagelar-me por falta de ruína. Quando tudo é ruína, é amor. Sem me flagelar, morri, como se eu revisse o meu ser no teu ser. Almas evaporam, mas o silêncio não cessa. O silêncio é não me ver. Conhecer o mar, as estrelas, o Sol, a imensidão, o céu, as poesias, pois ninguém me conhece e essa compreensão do Sol, das estrelas, da imensidão, do céu é melhor do que ser conhecida. Tudo sou para o céu. Não nasci, mas a poesia nasce de mim: somos de alguma maneira a lembrança que nos falta. Assim, vi, não preciso de lembranças e sim de poesia.

O nada nas mãos

O nada das mãos me dá a vida. Há muitas vidas num único nada: apenas para amar a beleza de amar como um prego no coração. Aumenta o amor na dor. Nenhum amor vê quem o ama, não vê a si. Toco na realidade, levo um choque. Nem a realidade, nem sonho podem me tirar das minhas mãos, que são minhas poesias.

Dar ao céu

Espreme-me, abre a minha alma sem céu e terei autonomia. Minha voz vai nascer como Sol, vida. E estarei viva como se estivesse viva, como se alguém, me ouvisse para nada acontecer. Vou pedir pelo meu corpo como sua morte. Meus olhos clamam pelo corpo como corpo, até se debater no corpo. O corpo do olhar é alma, amor, vida. É no corpo que a alma se dobra, se prostra em mim, em minha pele, me faz dormir.

O amor fora de si

O sentido de ver é escuridão. O que não se fala não se vê. A desumanidade fragiliza. Queria me curar com a dor, é melhor que amar. As decepções me tornam viva, tão viva que não quero viver dentro de mim. Estou viva. Distancio a morte, ela se aproxima. Ignoro a morte para me ignorar e meu passado ser novas poesias, onde, correndo como criança, sinto a liberdade de estar distante de mim. Algo me ajuda, meu corpo, minha alma me acariciam na pele para me amar, ser mais que eu, ser amor sozinha.

O que me tornaram?

Não sinto prazer com nada, nem em escrever, nem com o vazio. Nem em viver, nem em morrer. O que, antes, existia era ilusão. Ao menos, tenho as palavras, que me escutam, não vão partir palavras, senão enlouqueço de solidão, e morro sem ti. Não basta pensar nas palavras. tenho que lhes dar vida para ter vida. Apenas poesias não me deixam nunca, nem na morte. Sejam onde todos estiverem, não existe fidelidade como a poesia. Não estou só, tenho poesia. Sonhos que ninguém tem. O que posso dizer a minha dor? Que ela viva por mim? Minha vida é apenas eu. As pessoas me tornaram minha morte por me deixarem só.

Cura

O excremento do amor saindo, sarando a alma como o inverso de ser, saindo na saudade, num fim de solidão, onde tudo é incomunicável, como pele, adeus.

Ar

União é ar, confiança. Nasce da desconfiança. Ouvir é uma vela apagada na luz do amor? Nascer, perda do ar, da vida, do amor, um vazio. Quero dá-lo com amor: impossível. A vida não pode esperar o nascer inexistente. O meu desaparecer é tudo que tenho. Minhas mãos se costuram só de falta, apego. Por isso não resta palavras. É melhor sufocar que ter palavras.

Decrepitude do ser

Pelo fim, faço do fim uma possibilidade. Sou deficiente por amar? Amor nunca viveria, repenso em mim. O amor não existe, existe a inexistência no amor, a morte. Falar corretamente o que sinto, amo, o vazio é a minha extrema unção. Mata ser feliz só sem poesia. Morrer é dar um significado à vida. As flores separam minha alma na tua.

Fluir

Lágrimas mergulham na dor. No infundado, no fluir do mar, defino o nada como importância sem vida. Seu valor é escrito nas estrelas. Nada sei das estrelas, sei que o saber é ausência. Às vezes, imensidão. A ausência da alma é o extremo. Viver é apenas acreditar sem haver o que acreditar. Acreditar existe apenas no vazio. Não fluir é como evoluir no nada. Tratar a alma como lua e tudo é perfeito na alma sem a dor: suplício total.