Blog da Liz de Sá Cavalcante

O berço da alma

O berço da alma balança só olhando o amor das mãos, que a separa do ser. Continua a dormir como se algo a balançasse além da vida. O berço da alma faz da alma o limite de ser, alcançar montanhas sem exaustão, é o nascer da alma. A vergonha de ser na alma é o nada. A verdade é o absoluto de mim, espírito das mãos que não balançaram a alma no berço. Olhando o nascer da alma, esqueci as mãos no que já perdi. Mas o que escrevo é o bastante para agradecer ter visto o nascer da alma. Foi mais intenso que minhas poesias, é eternidade pura, como um raio de Sol. O nascer da alma fez Deus se curvar para a eternidade e, assim, a alegria que, antes, não existia, existe agora em abundância. E assim nasce o amor divino de Deus.

Um único ser

Capturar o corpo num pensamento hostil. Meu corpo nunca foi meu. Eu ainda sou eu. Lembro-me da falta do meu corpo, uma tortura. Sou a incompletude, por isso sou um ser. Apenas meu olhar me consola. Sem a vida, sem o vazio da completude. Meu corpo, mesmo morto, vivo. Um ser morto vale mais que um ser vivo. Hostilidade do corpo é a fragilidade da alma. Agir é a falta da alma. Consigo ficar de pé na alma e sustentá-la e o universo. Viver é sentir, dar ao céu o céu. A exclusão do nada faz desmoronar o vazio de vida que era de um amor que se escreve só, sublime, mas faria de tudo para que um ser, um único ser que não amasse por ele mesmo, mas que amasse o amor como se fosse ele.

Cruz

Não sabia que a vida era esse instante, que fui luz. Não precisava ser luz, nem na minha morte, e não sabia. Ressurgindo algo melhor do que a vida. A escuridão que é mais preciosa que o amor que sinto. Mas o ranger da alma nunca escuta a solidão do amor, que é abandonada pela escuridão, que nem tem esse vazio no olhar. Se ao menos ela tivesse esse olhar, minha vida seria salva. Minha vida é uma cruz. Penso ser essa cruz. Meu corpo, minha alma, fico leve, mole. Percebo que carrego a minha morte com alegria enorme. Nada me faltou, nem minha morte, nem amor, nem minha cruz.

Fidelidade

A infidelidade da alma não me faz fiel, é mais fácil morrer que ser fiel à alma. Não sei como não morri. Acho que foi pela necessidade da poesia em mim.

Exclusão

Ficar afasta o meu ser. Fico com as palavras e o mundo inteiro em mim. O resto apenas fica.

Transe

Viver isola o ser como a alma no transe do amor. Almas gêmeas são o fim de Deus. Ficam perdidas entre o ser e o nada. O que atravessa a alma é o espírito como fim da morte. Ninguém julga o espírito, nem a imortalidade, mas julgam Deus por seu amor. Ficou apenas Deus e o seu amor, e a eternidade se foi.

Neve

Eu posso formar uma morte, nunca uma personalidade. Corações de areia derretem no mar como uma lembrança do corpo, que abastece o Sol na neve, e isso me deixa leve. São poesias. Poesias são como rezas. O ser no pensar não é ele mesmo, é apenas um pensamento, sem essência, o pior da morte em mim. Conversar com a morte é solidão. Nada é melhor do que a solidão dos meus olhos, sem ver, sentir, sem saber o que escrevo. Escrever não é triste, é lutar contra a solidão, os sonhos. É encontrar a realidade de viver. A morte é o que pertence à outra morte, sem o destino. Arrancar a morte de mim é me arrancar de mim. Luz não é esperança. Luz é o ser. Ser é luz, é a vida de outro ser, que deixa o ser sem luz. Se a luz é sempre clandestina, a escuridão é de todos, totalidade da vida. Arranho o céu de tanto amor. Real é o que resta do ser ao morrer. Sempre resta algo, até do que não existe. O que existe é escuridão, sempre neve sem a poesia, que tornou tudo real, e agora é apenas um passado sem saudade, sem sofrer. Mais estranho que a escuridão

Comunicando pelo abismo

As palavras e a fala se comunicam e nascem por um abismo. São carícias da alma. É maravilhoso, extraordinário viver num abismo e catar, procurar algo como se fosse a vida. O mar pode levar a vida. O importante é saber que houve uma vida. Podem passar séculos. Não a conheci, mas já a amo.

O que continua sem ser eterno

A ausência continua sem a eternidade. É sua eternidade ausente. Presença é o que restou da ausência. Parecer é falta de ausência, onde nada diminui o olhar vazio sem dor, numa memória que nunca diz adeus. Memória faz viver o nada que não se vive em mim. Sonhos aperfeiçoam o nada. Aprende a nada dizer, nem pelo infinito. O infinito são sobras da vida.

Apenas o céu tem fim

Tudo é aparência de ser, nada existe, existe apenas o céu que também acabou no amor de Deus. O esmorecer esmorece. Só não há nada que possa ser triste ou feliz. Tudo foi um sonho eterno.