Concretude é desanuviar o abraço da alma. Não viver de alma. O que sinto é pela alma. Escrever é não entrar em mim, é uma escuta interior que é um sonho dentro do sonho. Fico cega e surda de tanto sentir no florescer do amor. Dar à alma o que é da alma. Não é renúncia, é o amor dentro da realidade. Não sei se escrever é para mim ou é para a vida. Nunca me esqueço da solidão. Apenas o que é esquecido vive em mim, como dor infinita. Ter o que foi, esquecer como uma pausa entre mim e eu: saudade. O silêncio apavora o que sou para mim. Mas quem sou eu fora de mim? Posso inventar poesia do que sou, mergulhar em mim, como subir, respirar candura de fel. A antítese, companhia que não se aprofunda em mim. Mesmo assim deixa marcas na pele, na alma, no amor, que não consigo tirar. O vento mata a alma em córregos onde o espírito cuida da morte. Não cuido da alma, invisto o céu nas estrelas, como se isso fosse a vida insustentável: o olhar do nada. Encontrar, no ser, o olhar do nada. É reconhecer que há vida na ausência, é perda do olhar do nada. Convalescer num tempo eterno para sorrir. Apenas o tempo sabe parar com meu imenso mar num desaparecer que torna tudo essencial. Nada há de ti em mim, mas, em mim, sofrer é sagrado. Desaparecer é ter luz própria. Não há vantagem em ser. O ser deduz a si, mas divaga no olhar, no fundo do nada, onde vejo o não sentir. Olho apenas o nada, como querendo agradar o céu com epifanias, desenhos de alma. Pedir aos momentos para verem o meu ser, mesmo sem estar neles. Insisto em ser feliz. Encruada, sem motivo, apago-me para não morrer, pois não posso morrer com todos os meus poemas. Totalidade é o nada num caminho de eternidade. Desengatar a liberdade num túmulo dos mortos. Nada vive de ser.