Blog da Liz de Sá Cavalcante

Dentro

O amor separa a morte dentro dela dando-se separada de si mesma. Nada existe. Isso é o tempo. O espírito morreu pela compreensão de amor. Escuto os passos do espírito, é o momento que respiro, ilumino o Sol, as estrelas. As estrelas confundem espaço, amor com meu ser: estrelas não dançam, se escutam dançar. Melhor que dançar, ser só. Se calam até no vento, onde termina o amanhecer. Dançam dentro de mim até escapar o vento e o vento ser uma estrela que nunca falte em mim, no céu. Dividimos as mesmas estrelas, os mesmos sonhos, eu e o amor. O amor tem que vencer tudo, sempre amor, força imensa que vai além da dança, do sofrer. Meus olhos dançam como nuvens, amparam toda a dor. Tudo dança amor até eu dormir.

Pertencer é sofrer

A morte vale a pena como o sumiço do nada. A morte se busca, se encontra, mas não me encontra. Esse desencontro não morre. Me encontro na poesia e na falta dela. Faço da falta de poesia uma poesia. Tudo em mim fica. O que não fica em mim é sem amor. Por isso, tenho o amor da poesia que é eterno. A poesia vai morrer comigo. Minhas palavras, o vento sopra como uma resposta à minha morte>: eu não disse adeus, digo amo, fico.

O que resta?

Soltar as mãos da poesia, encontrar outra maneira de ser alma, talvez na minha incerteza. Olhar é a vida, é o que pertenço. Eu percebo que olhar é adeus. Ajudo quem me ajuda? As minhas mãos, mesmo sem escrever, é amor. E, se não houver mais amor, a vida vem me tocar com minhas mãos. Sorrio e me sinto tão tocada, emocionada. É como escrever. Logo a vida vai desaparecer no meu amor. Ficar só como eu. Demonstrar amor, certeza de nascer. Nascer sendo a mágoa da vida. Sou responsável por sofrer? A culpa é de quem me faz sofrer. Eu preciso respirar. Me deixem respirar. A falta do respirar também sente, ama. O que já respirei, amei. Sempre fará parte de mim como mágoa, decepção. Nunca pude ser amada, nem sonho mais com isso. Fim, acabou, escrevendo sem nunca falar. Lágrima desbota a vida, não deixa a flor da esperança nascer. Tudo precisa nascer e morrer. Ninguém percebe que falar é a minha única eternidade, mesmo longe do tempo, da lembrança. Sempre posso falar, mesmo sendo a chorar. É melhor que morrer. Consigo viver se for falando, amando. Me espere para respirar comigo. Meu último respirar, teu adeus na falta de tua presença. O que meu amor não resolve está dentro de mim na forma de Deus. Deus não resolve. Fico com o seu olhar de amor. Lembrança de minha alegria, da fé. Tornou-se desistir? Não posso. Tenho que ter forças como um céu depois do céu. A imagem, miragem de uma saudade que é o que fica do tempo. É o que resta em amar?

Adiante

Ver acolhe no espírito da alma com a suavidade do respirar. Continua na poesia, nas flores, no meu amor, na ausência, no fim. Fim seduz. Pensar me faz amar. Acreditar no meu olhar é respirar as flores da alma. A morte é permanência de Deus. O fim é o conseguir que nunca desaparece, não morre, aparece como uma porta sempre aberta para dormir como a rosa dos sonhos e me abrir em flor. Desvendar a rosa é poesia que tem, em Deus, a confiança eterna, que termina a poesia em Deus, na sutileza de perfumar a flor, esquecer a dor, ir sempre adiante, nunca me esquecer, desistir. Retribuir ao espírito com minha luz própria. O que tem demais em amar? Amo. Isso é tudo.

Cuido de mim

Tenho o privilégio de ver a solidão sem me partir ao meio. Tudo nasce de ser só. Nascer, me separar como uma entrega à vida, como mãos que se tocam no sempre. Sempre e o tocar são como estar em mim. Onde vou sem mim? Chorar é poder ter o que me faz morrer: eu.

A fala do fim

O amor vai até o fim, até o amor acabar. O fim me respira num único sorrir. O fim fala do meu amor. Sossega a alma, me abençoa de solidão. O que é ser e o que é solidão? Ser é vazio, solidão é solidariedade da alma, entra dentro de mim, povoa-me, habita-me sendo minha pele: banho de luz. Confio no ver que não me vê. Morrer é refazer a consciência da vida. Com fim sem fim. Gosto da vida e apago a luz.

Repartir

Não repartir minha dor nem com a morte. Vou morrer longe da minha pele para não sentir que amo demais. Sofrer é a única realidade tocada de verdade. O que eu sinto é solidão no meu amor. Tudo atravessa só. Vou conseguir. Quando morri, vi o quanto valeu a pena amar. Para mim, o passado existe: o que existe no passado são pessoas que amo. Me relaciono com a tristeza. A tristeza me faz respirar tão viva que não respiro.

Surpreender

A vida fora da alma não existe. O que não existe é o que devia existir: saudade. Às vezes, penso que a saudade existe apenas em mim, que apenas eu amo. É ver além do amor. Colocar o amor no amor é surpreender o amor com mais amor, destruir as impossibilidades na vida do viver, não na vida do ser. Eu amo as minhas mãos. Nada as faz parar. Nada existe sem mãos. Nada existe. As mãos dão vida a tudo. Mãos calejadas do amor. Sentir falta da vida é ver minha fragilidade como uma nova vida, um novo suspiro, onde nunca há adeus. Tudo se transforma, um novo suspiro, um novo amanhecer para minhas mãos atentas de amor. Entre tantos recomeços, mãos de alma emendadas na poesia. Poesia é o ar, é Deus a respirar no meu partir, na minha solidão para me amar.

Eu e o existir

Existir vem da alma, do absoluto, da lembrança da alma. Eu não sou o fim do existir. Meu existir é sonhar com palavras que não existem, mas, para mim, existem, como um Sol depois do Sol. Existir sem o existir sou eu.

Sensibilidade

A sensibilidade é o morrer da alma. Querer ser sensível não é ser sensível. Tudo inunda mesmo sem sensibilidade. Sensibilidade é morrer de alma na velocidade do meu amor. Sonho e possuo também a sensibilidade do meu sonho na minha pele, que é tua vida. Tudo para mim é sensível, até a morte. A insegurança, o cansaço, o esquecer tem a sensibilidade de Deus. Toda sensibilidade é divina, como uma poesia sem fim. Cansei, não de amar quem me ama. Lembrar parece Deus. Deus são minhas lembranças, minha eternidade de amar pela minha única espontaneidade. Ser sensível, amar demais, viver demais é assustador. Amar em total sensibilidade é como morrer. Essa sensibilidade é o que tenho a oferecer com palavras de alma. Me empresta tua vida? Eu sou amor. Nunca deixo de sentir, quero sentir até minha morte. Todo sentir é feliz, é conversar com o céu, com o amanhecer. Abraço essa sensibilidade como se fosse o último amanhecer. Não preciso de uma sombra, meu ser é tudo por ter sensibilidade. A pele chora, mamando meu amor, e tudo se torna especial em mim numa pele que resiste ao tempo, ao depois, pela minha sensibilidade. A pele me protege, nós nos amamos na eternidade de nós.