Blog da Liz de Sá Cavalcante

Descansar para respirar

O encanto apareceu como um respirar no respirar nas águas do mar. O silêncio do mar é a voz do respirar, respiro sonâmbula de ar. O sentir é apenas respirar. Apenas respirar é a pausa de ser eu. É tudo esfriar numa tempestade de amor para que o descanso seja maior que a vida, que o dormir. Me abrace sem eu ter braços. Dormindo eu tenho braços para abraçar o céu.

Perda de mim

O ser existe quando nada existe mais. Nem o momento da perda de mim. Eu me perdi para mim mesma. Meu ser não é o mesmo ser que perdi. A perda é o costume de ficar só, onde não há tempo nem realidade. Há apenas eu comigo, onde apenas a morte pode me tornar eu.

Saudade viva

Procuro minha alma dentro de ti, como um soluço abafado de saudade. A saudade dá conta de tudo. A saudade viva, que sangra sem doer. Se a ausência falasse, algo entraria em mim mesma, mesmo sendo apenas palavras. Por isso, sei que não morri.

Sou apenas pele

Pele que se solta pregando-se em si. O sentir é falta de pele na pele. A pele existe na minha morte. A inexistência da pele é a vida. O corpo é um obstáculo na pele. A pele, diluída na saudade do nada, na sinceridade de Deus. Deus é a pele de todas as peles. Me cobre com o infinito. Peles costuram a vida com seu sangue, sua eternidade. Costurar é remendar minha inexistência. E a vida se descostura no costurar eterno. Devo à minha alma a essência interior: o não morrer. A morte é um desafogar que não existe. É inevitável não perceber que todo lugar é cheio de alma. É uma purificação que me batiza de vida, que esconde o que é apenas pretexto: ter alma.

O vê na adoração da alma

O existir vê o ser, o vê-se vê na adoração da alma. O nada é vê sempre. Sempre é a permanência que será um mundo, um dia. O exterior é o fim do mundo na permanência do ser. O vê assusta a vida. Nada se resolve com dor, nem sem dor nada se resolve. O corpo, partindo-se em almas, dilacera o mundo. O infinito atenta ao olhar que falta ao mundo. Vou escrevendo no meu desaparecer e faço desaparecer o desaparecer, e tenho a lucidez de um sonho. Sonhar se conhece; o ser nada é, mesmo se conhecesse o sonho é como esquecer. A pele dentro da alma é sorrir, mesmo no adeus.

O adeus é a importância da vida: renunciar ao que não sou. Assim, renuncio também ao que sou. O sentir, o amor, o partir da alma para o triste, para a coerência. A coerência do fim é um começo de vida. Minha alma encruzada é a vertigem da vida. Desacostumada a viver, não tenho vertigem: tenho amor. Estes são impactos a remover em cinzas, para amar na morte e criar uma pele para Deus, unindo a pele divina à pele estragada por amor. Eu uni meu corpo à alma. Fiquei sem pele dentro de um adeus alheio na pele. Apenas um suspiro fundo de quem aceita o adeus como uma segunda pele.

Como caber dentro de mim?

A simbiose entre o morrer e uma lágrima de vida. Vida, o que te fez vida? Te sinto tão pequena, uma criança dentro de mim que não consigo fazer nascer. Os braços não se seguram em ser nada para viver. O meu desassossego trouxe a paz ao meu coração. Nada supera o olhar de Deus. Nem a vida, nem ninguém sabe o que sou. E vem do nada. Fico na expectativa de que o nada transcenda na minha morte como um tempo que existe, mas nunca quis o nada. E hoje não há tempo para o nada, que absorve os momentos com palavras. A função do nada é tornar palavra amor. Palavra não é o que se diz. O sonho não é o que eu sonho, e sim o que faço. O sim cessa o nada, mesmo que no fundo queira dizer não, ser negativa ao nada. Saber e não saber é a mesma dor, não é o que se diz. O que sinto e o que não sinto é o suspiro do vento, na morte do amanhecer. Num amor de quem ama, num leve adeus. Parece um abraço, não é nada.

A partir do mundo no fim da vida

Será que o mundo esquece a vida, como eu a esqueci no meu amor, amando? Fiz do fim da vida, o teu desamor, o meu começo. Nem que seja começo de nada, algo virá dos meus braços abertos. Como a lua e o sol, a vida me abraça tão forte que me sufoca de amor. Sem precisar nem de mim para amar, sei que vou ser feliz.

Estremecer

Estremeço sem morrer; isso é privilégio de ser poesia. Ser poesia é desistir de tudo, menos do amor. O sonho vem como amor reprimido, onde os abraços são sonhos que nunca existiram concretamente. Nada quero de mim. O inesquecível é esse estremecer infinito, que traz o céu para perto. E o destino sou eu, por uma janela imaginária, a me defender do mundo: o meu amor.

O sonho é o sofrer de Deus

Em cada sonho fica um pouco do ser agora destroçado, mesmo que Deus não conheça meus sonhos de morrer. Estou viva, presa no anzol da dor, vivendo de dor. Meus sonhos continuam sem mim; não me conformo em lutar. Dentro de mim, a alma nasce só, vive só, morre só. E o sol nasce como lua, como semente que não germinou. Minha alma se separa do sol. Eu não consigo. O descontrole do amanhã se pune pelo amor do anoitecer, que dura mais do que a eternidade, com que todos veem e convivem.

A espera de ver já é ver

Ver o inexplorado da alma não é desvendar a alma, é deixar minha alma para Deus. Assim, me sentirei forte em fogo do céu. O céu não é suficiente para Deus. O céu é apenas confiança em Deus, não é Deus. Escrever é observar Deus. Dentro de Deus nada precisa tanto quanto preciso de Deus. Deus é meus olhos e meu amor por mim. Posso ser feliz apenas em Deus. Por Deus, mesmo no fim do céu, a saudade é apenas consciência.