Blog da Liz de Sá Cavalcante

Distância

A alma, insegurança de Deus, deixa-o distante, sem nós. Vigio a distância como se tivesse soterrada nos meus olhos para eu conseguir falar, ver como a fala depende do olhar dos meus olhos, escombros de mim, que foram o meu Sol, luz inalcançável. É tanto sofrer. Sofrer que não se para pra ver. O Sol, a luz dos escombros aparece, é eterna. Outra luz, sem os escombros de mim, é se afundar na ilusão e morrer por gratidão, a solidão.

Violar a morte

Sentir o não é exaltação num amor sublime, morrer sublime. A morte dançar com os olhos, o não sentir. Deixar o corpo fluir, imóvel. A morte traz de volta os movimentos do meu corpo. É como me recuperar de mim, de ser só. O corpo é alheamento da vida, morte em Deus. É como se o infinito fosse conquistar Deus e eu sem o infinito, sem Deus. Sem nada. Não sou só: esta é a existência de Deus em mim, sem mim. Siga em paz.

Consciência de mim

A consciência é como eu me parecer comigo. Minha consciência é o outro sem mim. Não pareço com a consciência por ter consciência da consciência. Amar é a falta dentro de mim que me faz viver, como se a morte fosse a falta de Deus. Onde começa o amor? Numa falta? Numa agonia? Amor é conseguir pensar na distância que separa o real do sonho e me emocionar. A falta é a demora do tempo numa vida que tem pressa. Nenhuma consciência tem vida no meu amor. Meu amor é tanto que a consciência perde a si mesma. Sem ter consciência, o que sou? Há um desnível de mim até na consciência. Momentos sou toda eu, momentos sou ninguém. É mais fácil amar o nada que me amar. O nada pode ser o que quiserem. Eu oscilo em mim, afundando no amor eternizado. Eternidade é calma em sofrer. Nem a eternidade me faz ser ou não ser. É algo que apenas eu posso fazer, mesmo com minha ausência absoluta. Para mim, luz e escuridão não se misturam, se tocam, sendo a mesma coisa. O contrário do ser é alma. Não há o contrário do adeus. Não consigo me despir do adeus do meu corpo, mas me despir da falta de mim é impossível. Me despi da falta de Deus. Deus nasceu em mim. Me vesti da minha alma para ser eu. Acredito que a vida é boa até na minha morte, pois existe Deus. Mas alguém sabe o que é a existência de Deus? Ninguém sabe. Talvez nem Deus saiba.

Nascer

O futuro é o nascer. Nunca nascemos concretamente. O meio ser será um ser, mas apenas um será indefinido. Talvez o ser vai nascer completamente quando não puder mais nascer. O ser nunca nasce, é encantamento.

Fôlego

Posso ser agora, que tudo eu respiro e tudo me respira, como se respirar fosse no céu? Respirar não é o meu ser. O que sinto em mim é apenas um respirar sem céu. Nada é mais constante, mais companhia em mim que respirar. Eu escrevo o respirar em fragmentos de alma que me dá mais fôlego para morrer.

Inebriar

Inebriar o amor de Deus. Sofri acoplada no sentir não sentido. Vivi o suficiente para saber o que é a vida por mim: testar a realidade na sombra do adeus. Sombra é um corpo debilitado pela vida. Pensar é se conter. Ninguém esconde as verdades do Sol. Sem lágrimas, o mar seca em mim e em mim congela. Inebria o Sol e a sombra do ar não tem a minha ausência. Quer ter as minhas vísceras, minha profundidade, para torná-las apenas um pulmão, que puxa o ar como se fosse a vida.

Semântica

Isolar o que já é isolado é unir a vida com a solidão. A solidão mutilada pelo amor comove-se com o amor. Devolvo-me a mim me isolando da solidão. O isolar-se da alma é viver. Unir as solidões é eternidade sem deixar um fio de esperança para mim. A dispersão é o meu ser na vida, na alma, na vida, na morte. A atenção é o vazio, o nada. Amo o não ser em mim. Me desprezar do ser, ficar no não ser. Não dependo de mim, nem do não ser. Dependo do depender, sem a circunstância, nem saudade de independência. Vale tudo por morrer. A falta de morrer é pior do que morrer. A morte desmaia em mim. Vencer a morte com a vida é não ter olhos para a imensidão da morte. A morte é uma realização cega no ver da irrealização do ver. Ver como se eu fosse a visão do mundo no real vivendo em mim. O suporte de ser é morrer. O suporte do não ser é eternidade. A eternidade não age sem mim. O agir em não agir, definição do mundo. Sonhos de sombras escapam em arvoredo de papel em almas de papel. Esvoaçar como se eu me rasgasse como folhas ao vento apenas para ver o Sol como clandestina. Foi o melhor erro. Criei a autenticidade de ver o amor na minha incapacidade de ser. A rigidez do meu corpo é a vida em expectativas de estrelas. Meu remanso é minha correnteza de céu. Sentir além do céu subterrâneo. Por isso é fácil ter o céu no amor. O Sol é apenas uma ponte que me leva ao céu. Quando o amor sobe, a alma desce como o Sol na margem da minha complacência. Mas o Sol é a única luz da minha vida. Se fosse outra luz, preferia ficar cega na minha semântica de viver onde a palavra é o que sobra da minha semântica. Ser ou não ser depende da semântica do azul do céu, do meu despertar.

Sentimentalidade

O céu sensibiliza o céu sem nenhuma dor, medo, apenas céu. O céu é o mesmo céu do amanhã? Falta no céu a vida, esse jeito humano de se dar como céu. Não se parece com morte, e sim eternidade, que foge do destino como ar que respira só pelo amor de se dar como alma. E eu admiro me dar ao outro. Renova-se o amor nas mesmas conversas, nos mesmos gestos, mesmo olhar, como uma nova surpresa. Tudo é o sentir do mundo. O que não sente até a extremidade para poder ser um ser é o destino. O melhor de mim é o destino, que é indiferente a mim, como se um raio de Sol pousasse nele, para não lhe dizer adeus no momento de um adeus. Isto é superar o inesquecível.

Percepção da morte

A morte é a percepção da morte na neutralidade do viver. O ser simplifica a morte no ombro de Deus. O renascer da alma é o ser. Renascer é a paz de Deus. Nada é inseparável na minha angústia, onde os meus olhos falam. Como falar com alguém perto dos meus olhos? Olhar não são olhos, é de onde nasce os olhos. Demorar a falar para falar pela eternidade.

Podia ser alma

É minha voz na minha voz. É o juramento de escrever. Podia ser alma no falar, no escrever. É apenas eu que pego na caneta, esquecendo minhas mãos onde escrevi. Precisa de quantas canetas para falar de amor? Mesmo sem usar a caneta, ela é minha, pois a perdi como alma. Me conformei em ser feliz nas frágeis asas de uma borboleta de sonho e mágoa. Ser é dúvida ao que sonho. Reinvento-me sem mim. Ajudo a poesia mesmo sem escrever. Descrever o escrever é mais difícil que descrever o meu amor.