Blog da Liz de Sá Cavalcante

O agora

O agora é um instante perdido no amor, apenas a alma recupera. O agora pode ser fala, ouvir desde que meu amor me escute no esquecer da alma. Sublima, toca o amor pelo esquecimento na minha paz perdida. Que Deus a abençoe em mim. Paz não é rasura, nem escrita, é uma realidade de estrelas. Elas cativam Deus. Brilham e oscilam o céu em infinitos sóis para ter-me. Sorrir e chorar é ter-me, consolo de Deus, do infinito, desconsolada num sono profundo de realidade. Falta eu em mim.

Lágrimas cortantes

Enterrar-me é me sentir respirar como um pássaro, como Deus, numa liberdade, onde falo ao respirar, numa lágrima cortante, eterna, pelo rio que corre com o meu amor e sempre sou amor. É apenas isso que sei ser. Questiono a Deus em minhas ausências. O vivo não se desgasta em morte. Ele é a solidão da morte em sedas de amargura. Nada quero do meu corpo, nem ferir minha pele. Quero apenas a presença de ser enterrada com amor numa vida contemplada como realidade além do mundo, além do fim que carrego.

Sangue do amor

Tocar-me, reconhecer é morrer, como uma rosa a chorar. Então me reconheço em rosas cobertas do sangue do amor. Minha presença para a vida desaparecer. Fluir, afundando no mar para sentir o mar.

O fim poético

Porque tenho que amar sem alma, vida, poesias? Poesias, ninguém as vê, ama ou lê. Será a eternidade, o fim da poesia? Esse acolhimento que me dou na alma. Será isso a vida?

Despossuir

Escrevendo me despossuo. O que sentia na alma é o meu despossuir. Agora nem posso despossuir, posso mais. Me despossuo até na alma. Morrer é amar.

O dom da vida

A lembrança da vida não é a mesma minha num céu desamparado. A morte é o bem de Deus. Adoro quando o continuar seja o que fui, submersa no amor, no que trouxe de mim no meu ser anterior. Eu posso acabar com a vida, como uma poesia.

Defesa

Presença é impossível no meu corpo. Ando como se engatilhasse a lentidão. Agonia meu corpo. A alma escapa pelo corpo defendê-la. O corpo adoece sem o ser. Eu sou apenas corpo, nem pele tenho, mas, mesmo assim, algo mais se foi: a liberdade de ser eu.

Apaziguamento

Nunca serei o meu futuro. Não há morte, há o apaziguamento do nada na leveza desse instante. O que o nada me diz nenhum ser consegue me dizer. O falar não tem idade. Falar vem de um útero sem vida. Nascer, sempre um desespero, mesmo adulta. E o amanhecer é minha sombra, meu cobertor, minha falta de poesia. O diagnóstico para a vida respirar é ter contato com a alma. A vida precisa respirar na minha morte, e eu me sinto viva apenas assim, me sinto viva como se tudo necessitasse de mim, mais que de uma oração. Como crucificar a alma em sua mudez? Apenas tampando a vida na mudez do seu desprezo. Parei de chorar. Se não posso falar, nada se perde nos braços.

O nada em luz

O nada tem luz própria, se cansa da vida, cada vez mais, pela sua dor eternamente. Ele não pode morrer. É muito ele, muito nada na imensidão. Feliz de mim se eu puder ter o nada. O nada em luz é o definitivo do meu ser.

Água

Seguro a vida, desabamos juntas, não caímos, mas desabamos. Não sei quais lágrimas são de quem dorme na morte dos mortos. Sonho ver a alma para tudo vir a ser, seguindo o meu amor. A morte é a falta dos olhos dentro do meu ventre no azul do céu, céus de ventre na minha dor. Entre águas e sonhos, permaneci.