A penúria do corpo é a insanidade de ser, é a minha única pele. Pele salvadora numa dor que inexiste para os outros e é a minha pele.
Penúria do corpo |
Penúria do corpoA penúria do corpo é a insanidade de ser, é a minha única pele. Pele salvadora numa dor que inexiste para os outros e é a minha pele. |
SaudadeÉ difícil admitir que a alma é diferente de mim. É um renascer que não quero, quero apenas desnudar a vida para sentir meu corpo. O que releva a saudade amando é pura alma, puro ser, onde o céu é o céu para perto de Deus. Onde eu me sinto tão feliz que falo por Deus, falo amor. |
Talento de serA diferença da consciência em mim e em si mesma é o que não passa. O ser é anterior ao espírito, condena o próprio ser, mergulhando no ser, no talento de ser. Tudo é dom até respirar. O que atinge o respirar é o ser. Nada é capaz de ser, de sustentar seu ser no respirar, no espírito. Flamejar o ser é o espírito. |
ImprestávelMeu corpo não presta na vida. Tudo desaba sem a vida. Corpo é putrefação. O que quer dizer amor sem o corpo? É a morte bem-vinda. |
Ver com os olhosA ilusão se dá na inteireza do ser. É mansa, compreensiva com meus sonhos. O recomeço é um vazio de estrelas. Nada acende os olhos de estátua em mim. Nada é pior que ter olhos de estátua sem estar estátua nos olhos de estátua, apenas estagnação. A estagnação da alma é a calma num deserto de palavras onde me encaixo no meu quebra-cabeças. O que quero de mim? Não ser eu? Ser o que escorre da chuva das minhas mãos. Nada ter nas mãos, nem o ar, nem o vento é pertencimento, ser inferior ao vento. Carícias de vento é o fim da saudade, é renascer no fim. Saudade, alento de morrer além da alma. Deixa meus olhos brilhantes, mais vazios de tanto amor. Deixa vir mais saudade, amor além do que posso sentir, que posso fazer. Por isso mantenho meus olhos de estátua. |
O simbólico, o imaginário no serO simbólico é imaginação. O dever é imaginação. O ser é imaginário. O amor é real como um alfinete. Por isso tudo desliza como se faltasse chão, um sustentáculo para manter algo. E, assim, o vazio não é o fim. Nada precisa de um final, necessitamos ser. |
ÚteroO útero seco é amor. O amor, a verdade. Útero mata, não há de nascer. Há a glória de morrer quando o engano de ser se torna certeza. É morrer. O que nasce e é imortal é a escuridão que desafunda o corpo da luz. Nem a morte é eterna. Sorrir é o fim. Fim sou eu em ti. Fim é o luto da saudade. Tudo é eternamente vivo pela ausência. Não é pela ausência do corpo, alma de mim, do nada. É como saber viver na desigualdade de ser mais do que da vida. E a vida brilhar, ser mais que eu em seu amor. Morrer é alívio, é cavar o corpo da alma. O inesquecível é uma forma de esquecer para tudo ser inesquecível. Orgulho é viver. A alegria é a falta de vontade. Eu não decidi ser, mas sou entre parênteses. Nada salva a alma dos passos do silêncio. O vulto do nada é meu ser nos meus passos. O agora é a alma do passado. O coração trincado no chão. Sonhos evitam devaneios. Ser é um devaneio infinito. Flores expandem a vida nos meus olhos. Último adeus é o primeiro adeus. Não há sombra no adeus. O adeus é um corpo que não morre, morre na dor. A alegria é o espírito de Deus. Ressuscitar a morte no desejo de ser feliz. O amor não espera nascer o ser. Ele o ama antes de nascer. O útero é o nada de costas para não sentir o desnascer. Sinto o desnascer no amanhecer. Sonhar é nascer em tudo. Sou um instrumento da morte no amor. Chorar o riso que ninguém chora. O ventre da morte chora o riso. |
Quem sabe?Solidão não serve na ausência. A ausência necessita do ser mais do que água, alimento. Nada fica bem sem ausência. É uma maneira de provar que existo. Fazer nascer a minha existência. Quem sabe assim a vida aparece. |
Lembrança morre?A lembrança deve ficar em mim de quem morre, senão morro. O conhecer é a relação solitária de mim comigo, mais solitário que eu sem mim. Nada se faz, constrói sem solidão. nada torna a ausência. O ser é uma falta sem ausência que permite Deus vir a mim, como um sol de estrelas. O tempo é a discórdia entre ser e Deus. Tudo pode faltar a Deus. Deus não se incomoda. nada pode faltar ao ser, mas o ser morre e tudo se permite olhar sem o ser. Isso mostra que o ser não é seu olhar. Será mais que olhar. |
CedoÉ cedo o nascer como se o nascer fosse sol. O olhar é cedo para a alma. A alma é o fisiológico do olhar. É natural perder o olhar, como quem chama por alguém. E se meu olhar for esse alguém? Amar é lutar. Prolongar-se sem a vida. Viver o que a vida não vive, sentir o sabor que a vida não vive. Algo a mais é objeto do meu ser: a morte. A morte é mínima. Por isso dá medo. Sem a morte não há a luta. Morte é se desdobrar sendo duas pessoas: a que ama e a que sofre. Sofrer é aptidão para ser. Ser é multiplicar-me mais que o universo. É ser particularmente minha nos outros sem me perder. Isto é ser. Ficar no céu é nunca viver. Vivências excluem o ser no céu. Maravilhas são palavras de amor no coração em quem não pode ouvir, nem com um abraço. Memórias são o vento. O vento se comporta como alma, mas não é alma. Amar não é comportamento, é sentir e transformar o amor em dar a vida às pessoas, o que elas merecem: isso é amor. A necessidade de amar é irreversível. A vida é reversível onde o céu se esconde. Deixa vir na volta de Deus. A vida pode ser um sonho, ou eu a sofrer. Tudo significa tudo. A ambivalência é Deus. Mostro a vida, o Deus que existe no meu amor, inseparável da morte. Para cortar o cordão umbilical do meu amor, apenas me matando. Tenho muita vida a viver, mas vou morrer. Como um sonho no talvez de mim. Vibram os meus ossos para não quebrar de amor. Os ossos vão além do corpo sem revelar nada. Nada é falível, nem a morte. O silêncio é o monstro de um olhar. É assustador o nada. Sensatez é morrer como uma gota de água na escuridão do finito. É desmembrar o amor. Amar pelo menos até o amanhecer no chão. Ruir o mar para ter mar num equilíbrio ausente, que é equilíbrio de paz, como nada perturba a morte. Morte é paz, sobreviver. A vida é um louvor à morte, um adeus que ninguém compreende, mas é um bem. |