Blog da Liz de Sá Cavalcante

Alvorecer

O impossível do amor é o ser. Ser nunca é para ser, é um estado temporário de Deus. É quando Deus encosta no nada e sente sombras. Existe Deus. Tudo na sombra da inexistência revela Deus. Isto é alvorecer.

Escamas

As escamas da morte podem ser a pele que falta em mim. Acredito na fé da morte. Fé é não ver. Conversar é a loucura santa. Escrever, conversar com Deus são ausências verdadeiras sem sentir a ausência. Sou mais ausente que a cruz da morte. Mãos da morte me fazem presente. Toca-me, morte. Sou presença do tempo, sou o amor inabalável como minha voz dentro de mim. Vazia no som que lhe falta. Existem duas solidões: a pele ou a loucura. O que adormece é o amor sem o ser, mas, em mim, vivi o que não se vive. Viver é insistir no céu. O que é deixa-se em lua. Sou tua presença para a vontade de amar. Vontade não se tira, nem se perde. Não se morre em morrer.

Sopro de vida

O fim dos meus olhos é poesia. Olhos sem poesia são apenas generosidade. Minhas mãos são minha falta e presença. Desenterrar o corpo das mãos, o céu do ser. Nada pode faltar a morte. Morrer é concretizar sonhos que podem ser apenas névoa. Tocar escuta minhas mãos no indizível. Mas, no silêncio, não escuta. Tudo é num sopro de vida. Transformar vida em vida, pedra em pedra, impossível. É fácil tornar alma em alma.

Sentir o real

Sentir o real

25/06/2026

A ausência é o que ultrapassa o real. Ela sente o real nas suas entranhas. Ventre desnasce no amor que já tenho por ele. Sem a sombra, o ser não existe. O ser é minha sombra. A luz do sol enterrada no passado.

Como evitar?

Escrever é conseguir sair de mim, não voltar. Ser dada como morta. Morte é inexplicável. Me dou a morte. Me dar como quem consome a vida. Meu corpo tem morte que puxa a pele até ela sair. Não existe um único instante sem morte. O olhar trai a morte sem a dureza de existir. Fui abençoada com a morte. Fui acreditar que sou até morrer.

Sobreviver à vida

Sobreviver à beleza das flores, ao meu cheiro no cheiro da vida a escrever onde nada se lê. O dia chega, obriga a viver. Preenchimento se preenche em toda morte, todo adeus, e deixa-me, onde me leva a poesia na falta do amanhecer. E assim, nem sorrir adianta. A alegria está explícita como um raio de sol.

Amar para cuidar

Unir o que sinto, e o que sinto é experiência de amar. Amor sugere a dificuldade de ser. Deixar-me ser como uma ponte entre o ser e o nada. O nada e o ser é um meio forçado de atingir Deus. Deus criou apenas o ser. Descobrir Deus, como Deus é raro. Sentir Deus é para poucos. O ser é pausa entre mundo e céu. O fim também é uma pausa. O movimento é a sorte da ausência. Misturar o mundo e o céu é descobrir a poesia.

Um dia para o dia

O dia, tão ocupado conosco, não tem tempo para si. A vida não tem condição de ser para um único dia. O dia é mais que a vida. A alma morre nos seus movimentos que duram a tempestade de amar e de desamar. A alma movimenta os meus olhos além, na confiança de Deus.

Escuridão

A escuridão desaparece sem faltas, sem perdas. O que existe desaparece. Escuridão é amor. A luz dança escuridão na voz de Deus. Renúncias da alma são ternura. Abranda a luz da escuridão. Sonhos impedem meu eu de viver. A vida é dependente da morte para ser vida. Vida é nada ter de ser. Excluir o amor da morte é entender o tempo pela morte. Respirar a falta da falta. O outro não existe em mim como existe nele. Restos da escuridão me fazem feliz. Imaginem a minha alegria em total escuridão. Vivo meu ser mais do que minha alegria. Vivo o que perdi em mim. Sonhos duram o que durou um dia.

Ênfase na morte

Escuto aprisionada de morte a minha poesia. Forte, densa e nada a arranca de mim, prisioneira de mim ou da poesia? Barulhos estranhos latejam e cessam no silêncio da morte. Cascatas de vida sobrevivem à minha poesia. Poesia é ter o que respirar. Poesia vai além de estar viva de palavras. Poesia é morrer sem sentir.