Blog da Liz de Sá Cavalcante

A espera de ver já é ver

Ver o inexplorado da alma não é desvendar a alma, é deixar minha alma para Deus. Assim, me sentirei forte em fogo do céu. O céu não é suficiente para Deus. O céu é apenas confiança em Deus, não é Deus. Escrever é observar Deus. Dentro de Deus nada precisa tanto quanto preciso de Deus. Deus é meus olhos e meu amor por mim. Posso ser feliz apenas em Deus. Por Deus, mesmo no fim do céu, a saudade é apenas consciência.

Antes de viver

Antes de viver, quero ser eu para me desfazer do amor. Tudo que tive foi a minha inexistência, como a secura do mar mesmo cheio. O tempo tem fim no amor, como resposta ao silêncio de Deus nas minhas poesias. Não existe enxerto para o amor, para a alma. Para o meu ser, existe a sublimação de um silêncio de morte que nunca será meu amor. O tempo de escrever é antes e depois de mim. O amor precisa de palavras. Depois de mim, haverá novas palavras e ficarei só, como o nascer da vida.

Desprezo

O ser que falta na minha própria vida é o meu ser. Nem teu desprezo me fez ser. Ser é uma decepção. Não há nada no ser nem lembrança. Como enganar o amor que ama? Eu amo até o fim. O que sabe do meu amor? Nada! Ver o que ninguém vê. É o absoluto.

Sorrir

O sorrir desencontra a vida. E o sol é um sorrir. Sorrir triste nunca é luz. A minha luz vem da minha consciência. Minha luz existe na minha consciência. Como se eu pudesse ter uma alma a dançar, fazendo-me feliz e fazendo meu coração dançar nela. Com ela, o tempo não volta mais; minha alma não me deixa. É como um dia sem vida, em que sou minha vida e o meu adeus. O sonho de luz é aceitar o fim. A minha morte cessa num sonho. Não se pode maltratar sonho apenas por morrer. Delira e sofrer não trazem sonho de volta. Sonhei uma única vez, e era a minha morte, não era sonho.

Divisão

A tripurficação da alma é o vazio, mas sem alma não se divide. Os mortos se dividem em suas mortes. Por mais que demore, os mortos refazem suas vidas sem as viver. Existe defesa para os mortos: suas dores. Cada dor supera o amor num estado de vazio. Não adianta nem morrer.

A necessidade do eterno de ter um fim

Meu fim é tão essencial que para mim é tudo. O eterno quer o fim para ser lembrado. Eu quero o fim para ser esquecida no colo da minha dor. O fim sem alma não é o fim, é o espírito da vida: como a vida num último céu de esperança, que existe sem o nascer do sol, como um mundo que foi esquecido por tudo e lembrado pelo sol. A falta de esperança nasce da minha morte, mas minhas poesias estão vivas: são a única certeza para mim, que um dia eu vivi.

Diante de ti

Diante de ti já morri, e o tempo foi apenas um desabafo, uma maneira de esconder o seu desamor por mim, como uma sombra a me separar do sol, da vida, da esperança de conseguir apenas ser só.

Meu trabalho é a vida

Poesia é o meu coração que não vive mais. Era o meu trabalho. Agora, eu sou a memória da vida e sinto que eu era tudo que a vida era e tinha na minha vida. Sonhar é Deus ser mais que Deus. Agora, tenho apenas as palavras como companhia. Nunca as ouvi, as sinto no meu amor. Meu amor é Deus.

O que não se sonha se aprende

O sonhar é um desaprendizado para aprender a não ser mais eu. O contato com a alma é um não ser que me abraça como alma. É um abraço eterno de amor. É da alma que nasce o abraço. Sem o ar do abraço eu não vivo, não posso caminhar nem escrever. O meu vazio é o outro. O outro saindo de mim. É como tirar os pregos da alma. Sem sofrer existo, mas para ser morte, vida, o que eu quiser. O não sonhar é sensibilidade. Deus é a saudade de mim, é amor, me faz viver por mim, por Deus, pelo nada. Essência de Deus que me constrói, me eleva até Deus. Deus é só pela minha solidão. A tristeza salva uma vida.

Nenhuma perda nos teus erros nem em ti

Nenhuma perda nos teus erros nem em ti, essa é sua dor eterna. Por isso, nada existe de verdade para você. Quem me conhece sabe que não vivo sem amor. Sou feliz por ser eu. Reconheça-se.