Blog da Liz de Sá Cavalcante

Desistência

Desistir de mim como quem fala e escuto o tempo. É melhor do que ser escutada e o escutar é a sombra de um acaso. Escutar é a urgência de viver, não esquecer é morrer. Ficar ou viver? Fico neutra apenas no sonho. Não há desistência em passos de luz. Sem estrutura são luz, são rastros de mágoa nos meus olhos e um profundo silêncio não merece adeus, é apenas silêncio.

Buraco

Tive tantas procuras, nada encontrei. Me ofereci nesse encontro, não apareceu, nada recebi. Deixes de procurar o que não existe em mim. Passei a perceber o que existe em mim. Ninguém prestou atenção. Apareci para mim. Procurar é vazio, mas não resume esse buraco da tristeza, nem porque me enfiei nele. Nada tenho a procurar nesse buraco, nem o sol, a vida, meu instante de ser que marca mais do que a vida, do que a morte: este é o meu momento de ser.

Sonhar

Sonhar em dormir é deixar a luz no horizonte sem fim. Fim que emociona a luz. Luz expande o universo como a água deserta de sede de amor. Me divirto sem a luz ao sonhar com ela. Amor é a escuridão. O que falta é a beleza da solidão na escuridão profunda. Tudo é o que é, não posso mudar. A cada passo, morre o tempo nas asas da solidão. Olhar no olhar traz o tempo de volta num reconhecer eterno. A caminho do nada existe numa dor de sangue na alma. Desapareci num olhar que não existe até morrer e ler a alma como se fosse o céu.

Erudição

A erudição da vida é o bastante para eu perguntar: O que é a vida? Não sei, mesmo morrendo. Olhos distantes cavalgando no céu e eu com os pés no chão. Coração a saltar mais distante que o céu. Emudeço o instante. O encanto sem palavras. Silêncios conversam entre si mesmos. Eles carregam o dia até anoitecer e poder dormir.

Promessa de alma

O que a alma me promete que eu já não seja? A promessa é a esperança da alma, como um sonho de brisa na tempestade de existir, como um abraço de areia. Eu esperava pelo céu não por mim. Aprendi a esperar nas minhas mãos. Engendrar a fala nas minhas com a alegria sem mãos do destino. Trocar minhas mãos pelo desafio sem vida do corpo quando tiver apenas uma estrela no céu. Os meus olhos cederão como se me vissem através de uma única estrela. Assim começou o meu amor por Deus: como se caísse o manto de Deus em chão de estrelas, onde não há promessas, há amor.

Grades

Encontrar amor na distância de mim é não pertencer às grades de ser solta pela alma que ergue o vento e o traz para mim. Sem o vento não há paz. Paz é solidão. A sombra é a voz de Deus. Nada acaba em sonhos. O vento a extrair o sol, a chuva molhada de amor.

Fundir-me

Fundir o que não existe sem o adeus da mente. Fundir-me em morrer com o cuidado em sonhos. Acordar em lábios de céu, em nuvens de isopor. Não ir até o fim é morrer até o soprar das grades da alma para cair com o vento no nós de mim mesma. Nada se deixa levar, por isso tudo é amor. É fácil sentir. Por isso sinto, mas o que sinto ao chorar é mais inexplicável que o céu, mais inacreditável do que ver o que assume a realidade e desvenda o véu que a esconde? Suprir o vazio e mostrá-lo no véu que poderia ser o céu. O céu me inunda, me refaz. Nem parece o céu que abandonei. Eu queria não olhar o céu como morte. Queria ver o céu na minha vida. Minha vida tem o meu olhar. Mãos são o tempo em mim. Tudo se resolve sem o infinito. O infinito é o problema do céu, seu trauma. O nada é o fim do infinito. O fim é Deus? Não sei o que sinto, mas, se sinto algo, o fim não é Deus, o fim é recomeço.

Formigamento

Há uma alma secreta em mim, que formiga na minha alma como uma maneira de cooperar com esse saber que influencia a alma no que ela me diz. A alma secreta não se guarda no silêncio e no falar. Eu a jogo no vento sem ventania, longe da distância. Nada é, tudo se supõe como merecimento da alma. Cuidar como o sol cuida do tempo. O silêncio é o que maltratamos em vida. Não há silêncio de alma, prefiro surtar do que o silêncio. Sofro pela minha alma. A diferença entre a alma e o sofrer. O sofrer tem a vida. A alma tem a morte. Não falar do silêncio devastador, das lembranças que são piores do que ter corpo. E se a lembrança for um corpo dentro do meu corpo. O corpo de Deus? O corpo de uma lembrança? Um corpo de silêncio? Um corpo que é só. Pensa ser um corpo duplo. Será apenas solidão? Martírio? Ou será um apelo de amar? Nada tem um porém. A serenidade é o real na fraqueza da torre do desespero, que torna o mar inexplicável como ondas do tempo. Eu favoreço a justiça da alma. Que se possa ter sol no sempre, segurança que desnorteia a angústia. Tomar a angústia do que a angústia é violência. Parte de mim esfola, grita dentro da saudade de mim. Assim, venci o fim com o fim. Eu queria apenas amor e alcancei o céu da alegria. A irregularidade da alegria. A alma para que um ponto seja um ponto. Uma vírgula é uma vírgula. As palavras são palavras. Fica bem e me deixe amar. Ser feliz foi melhor assim. Sempre seremos dois mundos separados para ainda existir respeito e assim vivemos num silêncio que não é de morte é de paz, de nos reconciliarmos com a vida. Até as flores ficaram quietas para ver, amar a paz, a separação de corpo e alma nos uniu em viver vidas diferentes separadas por um destino maior: a vida que me espera infinitamente numa paz onde agradeço por tudo que sofri. Por isso sou feliz hoje, ou talvez sempre sou feliz, mas antes não sabia.

Disposição

Não consigo me comportar com a vida. Ela age em mim sem ação. Quero apenas ser eu, numa luz nunca ofuscada na escuridão. Não consigo agir na vida. Isso me relaxa, fazendo-me sofrer para não apagar minha consciência. Ela se apaga. Só consigo sofrer apenas sem ser aos poucos. Aos poucos não se vive, e nem posso ser se tudo faz parte de mim. Vivo apenas o que não se pode viver: eu mesma. Meu corpo explode de amor. Estou comigo na morte para o que der e vier. Se ninguém vier comigo, nem a morte cessa minha dor. Isto é indescritível para vocês, mas somente se explica no que a dor é para mim: a minha vida. Não pense em mim, sinta o que sinto.

Sorte de viver

Nada percebe a morte e a sorte de viver. Nascer do nada, como a vida nasceu, é a esperança vazia, num recomeço de paz. A harmonia é segurar uma rosa como se fosse o depois. E eu a viver por segurar na rosa o meu coração.