Blog da Liz de Sá Cavalcante

Aparência, amor eterno

O amor é muitas coisas, tem a aparência que eu quiser. Estou a dormir melhor. Vejo melhor nos meus sonhos. Não posso interpretar meu sonho, apenas durmo, encolhida, coberta de sonhos. Ir além da morte, dando vida ao meu corpo. O adeus se despede em Deus no seu adeus. Saturar a alma, transbordando o espírito. Enchida de alma, furo a alma no buraco da vida e meu corpo me fura, e o tempo passou em um furo. Sinto que os dias da memória são apenas objetos. Mãos são seres espirituais, vêm do céu, do intocável. Eu vou partir. Nada se diz com um adeus. Apenas flores se falam no adeus, mastigando-se, desgastam-se. O sangue sofre como água. Os meus cabelos sopram o vento, o amor. O abstrato é a grandeza, é o real da abstração da alma, é o concreto, sem o real, na profundidade do vento. Mexe em mim, a alma, sem oscilar por dentro de mim. Sou mulher de alma que escapa no vento e o túnel solitário é mais essencial do que a minha vida. Não tem saída. Eu vi a alma em mim, como cinzas. Não há amor maior do que o da dor. Dor sem morte é uma exaustão no alívio do descanso. Olhar é desejo. Ver é traição. Nada pode subestimar o ser, nem se fazer ser. Minhas mãos escapam em novelos de vida. Me desfiam em arranhar a alma. Não ajuda. Confundo-me em mim. Desisto de poesias raras, quero poesias simples: viver.

O que é apenas o pensar?

O pensar, para o pensar, é apenas o adeus, na realidade do pensar, degenerando a alma, como se a alma fosse uma fase da vida, sentindo a vida expandindo o nada no incomum da alma. O sintoma da alma sou eu, como uma flor inocente que, sem pétalas, consegue viver nas pétalas de Deus. Estrelas em flor inundam o meu coração. O túmulo da morte cessa meu vazio sem o caixão do silêncio. Morte cessa meu vazio sem o caixão do silêncio. Isolar o silêncio é trancá-lo nele mesmo, expondo-o ao seu acolhimento, restos do amanhecer. Estou dentro do pensar da morte. Sei como ela pensa, age. Tenho medo de morrer. Por isso não tenho medo de ser feliz. Lágrimas da sombra são minhas alegrias.

Epitáfio

Meu epitáfio são minhas lágrimas na doçura da vida. A morte pousa no céu. A violência do céu é o amor. Tratar o vazio na exceção da vida. Alma é a fumaça do amor. Enterrar o enterrar com os dentes, é me sentir viva. O epitáfio na palavra de Deus perde a identidade. O epitáfio, a minha luz terminou. Eu sou o começo do fim. Somente resta o vazio inocente de mim. Minha substância é negar ser só em mim. O medo é vontade de viver, me ignorando. Pensar ressoa no nada. Minha alma é blindada de dor, nada suporta. O ideal de ser, teimar em idealizações é sonhar. O mar é uma flor que flutua, navega em céus escuros. Pintar o céu de certezas minhas. Minhas certezas são céu. A incapacidade da dor de sofrer é o meu sofrer. Nadifica-me, mas não posso nadificar minha tristeza. Palavra por palavra, a dor desaparece em ausências próximas, alheias a mim. Se eu pudesse compartilhar meu ser ao menos comigo, eu me levaria a mim.

Não existe separação, o que existe é amor. Ser por outro ser é irreversível. O meu abraço me une no interminável escrever, que torna o abraço canção que não se escuta. Senti a canção sem voz e sonho com a sua voz. A voz do meu amor um dia virá como fé no desespero, e essa voz é a voz de todos que acreditam. O desespero é sem voz. Gritos de silêncio são o ar da escuridão. Escurecer o ar é a luz do Sol.

Amor em demasia (Para Pai)

Veio a disfunção, a consciência absoluta de te ter. Tudo parou, o meu amor por ti permanece. Eu estagnei, mas te amo até na eternidade.

A função da alma

A função da alma é afrouxar a morte. Para ir me espremendo na morte, para dar o melhor de mim, antes da vida chegar e meu amor disparar de vida. O sonho é um susto. Acordar de um susto é dormir a sorrir. Tentar ser sonho de alguém para haver o real e, então, sonhar acordada com a alma me pesando e o coração adormecer no sofrer da alma, apenas para saber o quanto vivi, onde minha única vida é adormecer.

Ser feliz

Ser feliz para nada, sem querer nada, querer apenas ser feliz. Apenas é ausência impenetrável para eu não morrer de alegria sem ferir a alma.

A morte sem o adeus

Desfazendo a alma, tornando-a morte pelo silêncio, pelo luto. O luto do corpo é o ser na alma. Luto não é morte, é a despedida da alma.

Preparar o espírito

Preparar o espírito para a perdição do amor num casulo de Deus. Estou bem no casulo do amor. Preparar o meu espírito para a minha solidão. Nada perdi, ainda sou amada até em poesias. Esse amor pode acabar sem a morte. Perder é morrer. Sinto a parte que falta como se eu me desentendesse com uma filha que acabou de nascer para mim. Não tenho culpa, vou tentar sorrir. Fatalidade do amor.

Sair do corpo

Escrever é sair do meu corpo quando nada sai de mim. O ser não se expõe à vida. Isto é uma dignidade. Favoritismo de ser na invisibilidade, onde consigo viver. Salto para a poesia. Salto para a eternidade invisivelmente solta, livre, sem me ver. Nada tem a ver comigo quando vejo o Sol. Amanheço antes do Sol. Lembro que posso dormir, escrever, sonhar, fazer amanhecer.