Blog da Liz de Sá Cavalcante

A solidão de não ser só

O sonho é a soma do vivido. O Sol diminui o sonho. Como vai haver uma brecha na solidão de não ser só? Não se preocupar com nada é essência da solidão no depois de ser. Depois de ser, sou uma pessoa. Nada nesta vida sabe como será o amanhã. Não suporto o nada do amanhecer. A perda é onde nascem as sensações que não foram descobertas em viver. Elas são a falta de ser a eternidade, moldura da vida. Nem o silêncio cala o nada. O que supus ser pela vida é apenas uma realidade morta por mim, pois não estou na vida para sofrer. O real de mim foge de mim, é o meu silêncio interior. Meu interior é o vazio de mim no mar da inconsciência que nunca ficou em mim, nem saiu de mim. A inconsciência se basta como o amanhecer a chorar. O impacto de morrer é não ter mais lágrimas. Mesmo assim sente a dor agonizante de viver. É como pousar em mim. A dor se sacrifica pelo nada como uma saudade não resolvida. A dor e o nada se amam em chamas. O desalento é a alma sacrificar não o ser, mas o entendimento de ser a história da vida é a decomposição muda da alma, que não termina na estranheza de ouvir. Ouvi minha imaginação no real de mim. A solidão de não ser só é a alma se debatendo. Não posso modificar o que imagino ser. Não sei onde sou eu. O raso em mim é poesia. Poeiras de poesias salvam minha pele do meu ser. Machuco a pele para me sentir. Ainda estou aprendendo a ser eu para as minhas poesias, O nada acolhe a eternidade que está ferida de alma por causa de um sorriso de amor. A solidão é a pele grudada no coração, nas minhas entranhas sem esperar pela vida.

Sofreguidão é a poesia dentro de mim

Sentir é a sofreguidão, é o mar aberto para eu morrer. Não desisto da solidão, nem desisto de não ser só. O que sou é uma que não é minha vida. Meu corpo é alheio a mim. Posso apenas suar poesia, sem corpo. Sei que meu olhar é precioso. Se ver em poesias... Falta tanto a escrever, mas dará tempo. Pelo meu coração de amor, enorme, terei a eternidade para escrever, até não precisar de mim, apenas da poesia. A poesia me dá a vida na forma de um encantamento, e nada pode desencantar a poesia, a vida, o meu amor. Nada se vive sem poesia. Quero morrer de poesia, quero transformar o mundo num mundo melhor. Até esquecer de amar é poesia. O que fica de mim, o que sou é poesia. Nunca vou despertar desse sonho, dessa falta de corpo de me incorporar sem perder a poesia. São restos de palavras em gestos de poesia. Mesmo o que está morto ressuscita em poesias. Não precisa ter olhos para a poesia, precisa ter amor.

Escrever fora do escrever

A única coisa que consegui da poesia foi ver a vida. Talvez a poesia seja isso. A poesia escapa como um pássaro, é livre como meu amor, uma poesia para a poesia. E a vida será a perfeição do amor.

Vivo do som que não escuto

Ver é viver em toda voz, em toda cor, em todo ser. Viver é mudar de alma. Ser um monólogo é como conversar com alguém no cheiro, na lembrança, na estranheza. Conversar é diferente da fala. Ser é ser entre ele mesmo e sua luz, sua força. Vivo do som que não existe na voz. Som é sentir, é ser tão pequena de tanto sentir, me esquecendo num corpo. Meu corpo invade o meu amor, minhas poesias, até eu ser uma estátua a admirar o meu amor. Será admirar melhor do que amar? Que é o encantamento que desce das águas e se torna a minha pele? O que dei de mim a minha pele? Meu mormaço de dor. A pele é o meu sono, meu despertar sem corpo, alma. A pele tecendo as emoções como ar, em um respirar de desalento, por voltar a ter corpo no que sinto: ar. Somente ar.

Sutileza

A sutileza me derrama de Sol num derrame mental. Como pode restar pele no meu modo de ser? Me instauro como pele, porque não posso ser ela, não posso tê-la. Apenas ter pele é melhor que viver. Se não posso ter pele, morri, mas meus sonhos são a pele de alguém que talvez precisa mais dela do que eu. Não tenho pele, tenho algo que a substitui, ao menos um pouquinho, a poesia, que não tem pele, mas me faz esquecer que não tenho pele. Me faz viver, dar vida a mim.

Ar de pedra

O ar de pedra preenche os espaço do amor. Pedras borbulham o mar nas vidas que não mergulham o ser e precisam de ar. As pedras destroem as montanhas em olhos de vidro, cabelo de pérolas e sonhos de esmeralda para uma vida de diamante cristal. É onde o ser é esquecido: nas minhas mãos. Não existe indiferença entre pedras, elas são o sublime do amor. O ser são paredes, as pedras são o mar, o infinito de ser, onde as paredes são o universo.

Na tua alma

Sou a presença da morte na tua alma. Sorrio para ti como um resto de lembrar. Perdas sufocam a distância, preservam o que ficou: a distância que me trouxe a mim e me fez não desejar nada ruim para você. A angústia diferencia minha voz da voz da vida. O nada tem tudo. A vida é a falta de tudo. O nada, como ausência, é o pior da alma no fim da alma. É nada poder dizer a si mesmo. A alma é ser da vida, que deu vida a Deus. Não tem continuação no infinito, e, assim, perde o amor de Deus num abraço eterno. O nada é separado do nada. Não há escolhas. Sinto o nada perto por estar separado de si. Não há silêncio no nosso nada. O nada é o acontecer, a alma se doa como alma para o silêncio. Não se doa em silêncio. É tão comunicável, inesquecível, como dar meu corpo a quem possa cuidar dele. Para o nada dei meu corpo e o nada fica sem nada. Pensava não precisar de si. Perdeu a si e o nada pelo nada que não existe, solta o ar do nada no espírito inesperável. E, assim, o tempo corre na dor de renunciar a vida num tempo de morte. Espírito é a razão da sensibilidade. Razão para haver razão em ser sensível. Não há razão nesse infinito para mim. A razão é o fim. O amor é sem porque, não existe motivo no motivo. Por isso, o nada é o único motivo. Ser apenas por um motivo sem ser.

O agora

O presente não é o ser, o ser é o que sente em si neste agora. Se o agora sente, nunca sentirei nada por ele. Nunca vou sentir como o agora sente por mim. Quando o agora é a alma de alguém, alguém se torna esse agora. O amor salva o agora do futuro. Sou sempre esse agora, deixei de ser eu para ser esse agora que é o limite entre o bem e o nada. Ser após o nada é soltar-me de mim e me tornar uma coisa que vive nas mãos do nada. Como um terço, sem fé, nem doença, apenas toca o vazio num céu clandestino na paz isolada de Deus. Escrevo dormindo em mim, escrevo com o corpo, alma, sangue, o que tiver ao meu alcance. Escrevo sem pensamento nenhum. Nada salva o amor de uma poesia. O agora predomina na poesia mesmo que fale de passado. O amor é este agora na vida, na morte, na perda, na ausência. O amor é agora, nem sempre vai estar vivo. Vou me lembrar dele em cada agora, cada amanhecer, e vou amar o que ele não pode amar. Viver o amor e sempre feliz, é tudo. E o agora é a vida, o céu, a esperança de depois.

Como tirar a alma de mim

Tiro a alma me arrancando pelas vísceras. Para não morrer, tiro de mim o sangue da morte. Morri. Nada vai embora de mim. Entardeço pela morte. A esperança é a morte. Morri sem mãos vazias, cheias de amor, repletas de amor e sonhos. Talvez por isso morri imaginando comer minhas tripas para ainda amar, ter energia depois de morta, viver o passado no amor, mesmo sem me recuperar. Me amo me recuperando. Nunca completa. Algo vem do passado que me faz bem. A vida é esse passado nunca recuperado. Por isso morri, não acredito no passado, nem em mim. Eu acredito nesse vazio que sinto sem realidade. Não fui feita para viver.

Impulso

O impulso é fazer da alma apenas um impulso. O adeus é consciência, é sobreviver, é viver. Eu não sou impulso, sou realidade. Nunca vivi para ti. A voz sua desaparece na minha consciência, onde surge eu, uma imagem de amor. A diferença é que sei amar mais do que viver. Amo tudo que sou. Você é uma falta. Nunca a tive. Saudade existe apenas no amor. Não consigo imaginar seu silêncio, sua ausência, sua presença: você. deus me fez sem ti. Sofri, superei, quase morri, mas a vida me ama. A vida é o que existe em mim de todas as maneiras que há para ser. Escolhi chorar de alegrias, de amor à vida. Ver a vida em mim é mais que poesia. Minha alma desperta a vida mais do que o amanhecer. Sou a mesma até em te perder. O Sol sofre no amanhecer, como um mundo a mais, e assim amo tanto mar, Sol, que amanheci como Sol, dormi como lua. Fico perdida no céu, que não sabe se é Sol ou lua. Nada mais eficaz que deixar a resposta entre estrelas. O sonho de uma estrela vem de outra estrela. Estrelas cedem ao mar dentro de si. O mar seca em estrelas infindáveis e existem na subjetividade dos meus olhos, no olhar do amanhecer. Ninguém sabe do que o amor necessita. Necessidade é vida. O que tudo sei pertence ao Sol de cada dia. A presença é amor, sentido da vida não cabe no meu olhar, no horizonte sem fim. Tenho tanto que ver que desapareço no meu olhar para uma realidade maior. A inexistência nos meus sonhos, a evidência que sonho. Não tenho realidade, como se a realidade pudesse ser minha. A realidade não é ninguém, tem aberturas invisíveis: morrer de realidade, possuindo o nada, pensando ser realidade. O nada é uma ostentação, um rio sem mar. Morrer é presença de ar de lembrança com entendimento de mar. Não é um mar qualquer, é um mar sem mim, como colocar uma pedra em vez de mar. Pedras diminuídas como destino. Cresce o amor.