Me comunicar comigo no sublime silêncio do nada. Comigo o amor será a finitude de uma estrada na proximidade de nascer dentro de mim, onde o deserto incomunicável cessa minha ausência.
Comigo |
ComigoMe comunicar comigo no sublime silêncio do nada. Comigo o amor será a finitude de uma estrada na proximidade de nascer dentro de mim, onde o deserto incomunicável cessa minha ausência. |
CalejadaOfuscar o Sol no vazio na minha mão calejada. O que é do ser é apenas o mar metafísico da metafísica. Animar o corpo sem vida é entender com as mãos que curam, como um lago de esperança a se espalhar no mundo. Mundo do renascer das mãos que se afagam. Alma como a mim mesma sem nada me perguntar, apenas ser a brisa a me consumir. Vivo a inocência do adeus sem morte, sem dor. |
Produzir vidas salvando a morteDolorida por cavar as minhas mãos enterradas sem mim. Construir almas como mãos, desativando almas em outras almas sem respirar poesias. Meu sacrifício de ficar com minhas poesias apenas em mim, como um rastro de pólvora. O que seria da vida ao anoitecer a dor? Ficam apenas as estrelas sem o vazio da alegria sem mim. Meu amor é uma floresta. Nada pode ter o espaço de uma estrela, aprisionada por flores. O abismo é ventilar o frio em mim. É assim, meu deserto do amor me segura nos braços da mãe da morte. Voltar à vida no desaparecer. Insistir na alma os meus pêsames à vida por tentar ver sem voltar à vida. Ver sem vida é o além sem o nada. É não me arrepender de morrer. O olhar não tem lados. É a direção do infinito, clareando a Deus, vivendo o que não posso viver. Não consigo sentir o passado como antes. Do passado, ficou a neblina. Não consigo ver nem por um adeus. Sei que meu olhar me tem, mas não vem a mim. Não por desamor, é por excesso de amor. Não estou só. Tenho em mim a saudade de ver. |
MemóriaDeixar o nada ser sagrado no meu coração partido é o nascer da memória. Abrir o deserto soprando meu amor. Fora fica dentro do nascer. A espontaneidade é chorar como o céu ardendo em mim. Mosaico do ar é o pressentimento que meu respirar refaz a eternidade. Não respiro ao escrever. Nada convence o ar da exaustão do esforço do ar. Para respirar basta amanhecer, e tudo se normaliza num respirar profundo. Respirar vai além da minha consciência. Consciência da memória é o eterno, é Deus. Respingar-me em céus que não duram é ter que procurar um novo céu. Uma nova morte sou eu cutucando-me por cima do meu corpo, onde não há vida no esplendor do nada. Numa cachoeira imaginária, no vazio de mim. Nada pode me costurar por dentro. Estou costurada por fora de mim. O fim é como brincadeira de viver no além do além. Morrer brincando é construir castelos de areia, mais indestrutíveis que a alma. O silêncio bordando palavras no inesquecível da poesia. Captar-me a memória é o inabalável do meu desabar. Tantas vidas são apenas memórias sem o tempo para lembrar: isto é o tempo de lembrar num fio de fé. Faço a vida nascer como se eu roubasse o céu para mim. Sopro todas as velas para o ar ser silêncio. As velas reacendem minha alma como o mar. Transcendo o vazio na dor da vida esvaziada. É como ver minha esperança em um último olhar no infinito do amor descrente. Levar a alegria para a falta de esperança. É renúncia. É como perder o céu para o céu. Alegria não é o amor, mas pode se tornar. Por isso aproveito ser feliz como uma picada do infinito. |
OrvalhoSentir eu sair da alma é um nascer sem vida. A alma sangra, apodrece. Não sai de mim e se sente sem mim. Pertencer a algo ou alguém é me tornar mais ser do que a alma. Lembro-me de ser na alma, remendos do nada. O que faria sem sentir, sonhar? Me tornaria o impossível. É mais fácil sentir o impossível do que a mim tornando-me impossível como o orvalho na minha voz de flor. Me engano em ser eu. Tudo termina em ser: o Sol, a vida, as estrelas, água de Sol desperta a minha sede. A sede são sobras do meu corpo, complemento da alma, onde meus sonhos cuidam de mim, como se eu fosse a alma dos meus sonhos. A diferença entre o sonho e o real sou eu. Percebo essa diferença, mas sinto a separação entre diferenças contínuas. Chamo-a de amor. |
A natureza do ser na natureza de DeusTenho o tempo em ausências corroídas como se fossem o tempo de me separar de mim, como se eu fosse uma vida emprestada a mim, sem a fraqueza da esperança num dia de Sol, sem a fé da escuridão. O otimismo não é fé, não é esperança, é um grão de nada. É esperança. É o Sol. Me ver com o dia, em um único despertar, no esmorecer do corpo. Cada corpo, cada ser é um amanhecer. A sombra da minha voz torna tudo divino, abre o céu em nuvens de ausências. Tropeço em nuvens de sonhos e o céu se deita em mim para me confortar com as minhas ausências. O infinito é apenas a dor sendo escutada, amparada como uma vela sempre acesa. O que falta na luz e acreditar que sua luz são todos, é de todos. Reverberar sentindo uma coisa por outra coisa, num ecoar eterno. O viver é sentir sempre a mesma coisa, pelo nada. É fazer das minhas mãos, das poesias a calma de Deus, amortecida numa saudade que reza por mim. É a natureza do ser, não apaga a natureza de Deus, a intensifica. A intensidade não é profundidade para Deus. Profundo é a ausência dar sua ausência para mim. Somos dois corpos numa única alma. A ausência se nega no que não é, no que não fez. O que a ausência pode fazer por mim mais do que já fez? Me tornando a sua ausência em momentos passados, presente e futuro. O amor não supera as ausências, faz sofrer aos poucos o nada. É o amor que nunca tive. Quem teme o amor não tem esperança de ser só. Ser só é a falta de uma nuvem noutra nuvem até nascer uma estrela das minhas mãos e eu cuidar dela com saudades de Deus. |
Aparência, amor eternoO amor é muitas coisas, tem a aparência que eu quiser. Estou a dormir melhor. Vejo melhor nos meus sonhos. Não posso interpretar meu sonho, apenas durmo, encolhida, coberta de sonhos. Ir além da morte, dando vida ao meu corpo. O adeus se despede em Deus no seu adeus. Saturar a alma, transbordando o espírito. Enchida de alma, furo a alma no buraco da vida e meu corpo me fura, e o tempo passou em um furo. Sinto que os dias da memória são apenas objetos. Mãos são seres espirituais, vêm do céu, do intocável. Eu vou partir. Nada se diz com um adeus. Apenas flores se falam no adeus, mastigando-se, desgastam-se. O sangue sofre como água. Os meus cabelos sopram o vento, o amor. O abstrato é a grandeza, é o real da abstração da alma, é o concreto, sem o real, na profundidade do vento. Mexe em mim, a alma, sem oscilar por dentro de mim. Sou mulher de alma que escapa no vento e o túnel solitário é mais essencial do que a minha vida. Não tem saída. Eu vi a alma em mim, como cinzas. Não há amor maior do que o da dor. Dor sem morte é uma exaustão no alívio do descanso. Olhar é desejo. Ver é traição. Nada pode subestimar o ser, nem se fazer ser. Minhas mãos escapam em novelos de vida. Me desfiam em arranhar a alma. Não ajuda. Confundo-me em mim. Desisto de poesias raras, quero poesias simples: viver. |
O que é apenas o pensar?O pensar, para o pensar, é apenas o adeus, na realidade do pensar, degenerando a alma, como se a alma fosse uma fase da vida, sentindo a vida expandindo o nada no incomum da alma. O sintoma da alma sou eu, como uma flor inocente que, sem pétalas, consegue viver nas pétalas de Deus. Estrelas em flor inundam o meu coração. O túmulo da morte cessa meu vazio sem o caixão do silêncio. Morte cessa meu vazio sem o caixão do silêncio. Isolar o silêncio é trancá-lo nele mesmo, expondo-o ao seu acolhimento, restos do amanhecer. Estou dentro do pensar da morte. Sei como ela pensa, age. Tenho medo de morrer. Por isso não tenho medo de ser feliz. Lágrimas da sombra são minhas alegrias. |
EpitáfioMeu epitáfio são minhas lágrimas na doçura da vida. A morte pousa no céu. A violência do céu é o amor. Tratar o vazio na exceção da vida. Alma é a fumaça do amor. Enterrar o enterrar com os dentes, é me sentir viva. O epitáfio na palavra de Deus perde a identidade. O epitáfio, a minha luz terminou. Eu sou o começo do fim. Somente resta o vazio inocente de mim. Minha substância é negar ser só em mim. O medo é vontade de viver, me ignorando. Pensar ressoa no nada. Minha alma é blindada de dor, nada suporta. O ideal de ser, teimar em idealizações é sonhar. O mar é uma flor que flutua, navega em céus escuros. Pintar o céu de certezas minhas. Minhas certezas são céu. A incapacidade da dor de sofrer é o meu sofrer. Nadifica-me, mas não posso nadificar minha tristeza. Palavra por palavra, a dor desaparece em ausências próximas, alheias a mim. Se eu pudesse compartilhar meu ser ao menos comigo, eu me levaria a mim. |
FéNão existe separação, o que existe é amor. Ser por outro ser é irreversível. O meu abraço me une no interminável escrever, que torna o abraço canção que não se escuta. Senti a canção sem voz e sonho com a sua voz. A voz do meu amor um dia virá como fé no desespero, e essa voz é a voz de todos que acreditam. O desespero é sem voz. Gritos de silêncio são o ar da escuridão. Escurecer o ar é a luz do Sol. |