Blog da Liz de Sá Cavalcante

Estrelas

As coisas fora de mim perturbam a eternidade. Fico na luz do teu partir, eternidade, sonho. Eternidades que nunca ninguém vive, mas eu vivo em sonhos e em realidades que apenas eu vivo. A paz é sonho. O que é alma se a estrela não acordar do céu. A alma é uma estrela do céu.

No corpo

No corpo

02/06/2026

O que o meu coração precisa para não morrer é de alma. A alma mutilada de dor dá vida ao coração, ao meu amor. Sou inadequada ao meu corpo, preciso da falta do meu corpo para viver. O corpo é uma fase temporária. O corpo é a falta, é a inutilidade do ser. Nunca deixa de ser apenas seu, até na morte.

Olhos no ver

Ver é a única realidade sem vida, mundo. Ver o ver com olhos de amanhã. O ver movimenta o vazio. Não esqueço o vazio. Mãe do céu nas trevas do querer. A morte não é louca. Meus olhos não veem. Se soubessem, meus olhos veriam. O que vai acontecer comigo se eu vir? Verei a minha tristeza. Agora estou tão feliz como se não existisse o depois.

Abraço eterno

A eterna solidão cura o corpo, mas preferia amar mesmo em carne viva. O silêncio me toma, me invade. É possuir tempo arrancando-me de mim. Estou livre na enchente, nas montanhas do amanhecer. Nada me leva ou me traz do mar do amor. O frio da morte é vida. Saudade é rir com a saudade. O amor é Deus. Adeus é a semelhança da diferença, é o adeus no sempre de Deus: o abraço eterno.

Como chamar a poesia

Apenas a minha imaginação está viva, livre como o sol. Desperta o melhor de mim. Poesia é o céu a cuidar de mim. Não existe distância na poesia. É tão próximo como segurar uma flor. Flor e poesia se misturam. Cada vez mais, a vida se mostra na poesia e menos nela. Sair da poesia é ser mais ainda poesia, mesmo fora dela. Entrar. Entra-se em todo lugar. Mas nascer como uma poesia. Não constar estar viva apenas. Meu brilho é dizer quem sou na poesia, acima das palavras. Deus e o instante para na poesia do silêncio. O silêncio é a invisibilidade. Torna legível até o nada. As coisas que me veem são pesadas como o ar. As coisas que amo me riram o ar. É uma alegria de não ter o que esperar. Sou amada mais que o céu. O amor é a deficiência do olhar por amar. Ser frágil é dominar a vida, expandir o céu. Chorar é apenas estar viva. Flores são a delicadeza da vida do começo ao fim. O fim é o corpo da alma e sou eu ao ouvir o nada nos meus olhos cegos. Olhar. Respira tanto que parece uma música. Mãos. Prendo-as no amor. Não me lembra de mim, da dor. Quero apenas amar no mar de estrelas, na segurança de alcançar meus pés no sorrir. A visão é a ausência, que se dá na alma da paisagem. Parar no não respirar é ser pela primeira vez. Iluminar, ser iluminada. Nascer ou não nascer é o mesmo amor. Nasce tanto que já nasci nascida céu de poesia. Sem me conter, escrevo em lua de mãos. Poesia determina o que devo ser, amar. Em dedo ágeis, percebo que escrevo no meu respirar. A poesia quer de mim sua eternidade mesmo distante. Fazer da exclusão o amor de eternidade de Deus.

Humildade

Tenho a humildade de não ser espelho para ninguém. Sou o espelho do céu. Me pareço com todos que amam. Mãos são as minhas faltas numa poesia de despertencimento, onde as faltas são presença do nada: passado, presente, futuro, na fé do nada que é o meu aparecer. Aparecer não é ser eu. A humildade é a morte cedendo ao meu fim.

Cravado

Sou eu ou é pele. Cravado na pele como se eu fosse certeza de viver é a metáfora do meu ser, do meu amor. Viver uma vida noutra estrela é nunca mais escrever, amar. Perdoo a vida. Escreverei até o meu fim. E se existir o fim? Quanto amor, tudo é escrever, amor. Acabei de encontrar a vida, como se algo em mim não fosse vazio. Começa a bater forte, me sacudir. É meu corpo, minha pele necessitando de mim e a lentidão dos momentos apressa a alma a viver. É a gratidão da vida por mim. Cega meus dedos para eu ser grata.

Soluçar

Soluçar o nada, preencher o nada. Quem vive em mim sempre ama. Afastar a alma, unindo-a à outra alma é a limitação humana. A idade não é o fim. Fim é existir dentro de mim. Amor é o tempo que me dou no meu viver. Tempo não se expõe, fica tão bem guardado que não encontro. Nada existe, por isso amo o significado. É a renúncia do não existir. Estou unida no meu amor. Será me amar, uma despedida? O que pode amar o desespero? De onde vem o real? De dentro de mim. Nada é real, mas, dentro de mim é. No nada posso chorar por ter nascido, por amar demais. A insuficiência da vida é falta de ser só. Amoleço sem chorar, amar sem ver o céu. É o sofrer sempre. Não depende de lágrimas. Sem nem pensar, amo, amo. Abandono o meu nascer por um pouco de amor. Vida, um pouco de mim fica contigo, meu amor. Darei um jeito de me amar, ir até você. A lembrança de mim é um abismo. Se eu pensar na minha dor, enlouqueço. Vivo de mim. É como ter abismo vindo do céu da aflição. Vida, não é nem sensação, é me perder no não sentir da dor. Quero terminar meu ser noutro ser. Quero que o interminável seja meu soluçar se eu não puder falar. Falar é construir amor, vencer lutas. Convivo até morrendo. A morte não me separa da minha realidade, da minha vida. As poesias são mais minhas ainda se eu morrer. Enfim eu.

Caminhos

Desfazendo-me em alma numa consciência de amor, eu caminho no amor, me preparo numa outra alma, alheia a mim. As palavras nunca se enganam. Eu tenho corpo de palavras. Ajudo as palavras, falando com elas. Assim, minha tristeza é apenas a palavra solidão. Vou para onde o partir não me mate. Corpo nenhum compõe a vida, o amor. Não quero viver do abandono, nem do meu corpo. Sou visível nas palavras. Poesia é melhor do que ser. Vai partir, abandono, já amanheceu em mim. A margem da margem é a morte. Sentir o amor que não há em ti até morrer por ti, vida. Um dia sem mim é uma vida perdida.

Abstinência da alma

Ofereço a alma à minha abstinência na abstinência da alma. Eu era forte, mas, por dentro, estava infeliz. Hoje eu sou frágil. Estou feliz. Antes, mostrava alegria sem tê-la. Não misturar ser com o fluir. Fluir é morrer. Cuidar de mim não flui. Viver é não fluir. Esperar com abraços o que nunca me abraça. Conversar quando nada fala e esperar amanhecer, tentar ser, falar. E que o meu silêncio cesse com o sol.