Blog da Liz de Sá Cavalcante

Viver demais

Viver demais é ausência de vida, de amor. A vida é para ser apenas um minuto de alegria. Nada do tempo, o ar me consola. O ar é o tempo imaginário. A habilidade do mundo de mudar de ar. O sofrer do ar é o meu respirar triste por mim. Cesso sem o fim. O ar é uma condição. A vida é um prazer honesto, nada mecânico. Estruturar o dom da fala no abrigo do silêncio. Falar é ter o céu, sorrir sem nada acontecer de especial. Eu sorrir é especial, é mais do que  ser feliz. Viver sou eu.

O erro da existência

O erro da inexistência na falta que faz morrer. É o nascer da flor. Liberto a inexistência do casulo do céu. Evacuar o céu é abandonar o céu. Revidar a morte com a morte e descrever o céu para Deus em nome de Deus. Me importo em me esquecer em frágil morte, para pensar em um adeus na mágoa de Deus pelo fim incontestável nos olhos cansados de Deus, esmagado pelo amor divino. O mundo é perigoso até para Deus. Tudo sufoca, amolece e se abre, como se eu fosse sair de mim, por me querer. A inexistência é o que não tem a intuição de errar, chorar e separar o que fica da minha inexistência para ganhar estrelas, mas não tive amor. Esta é minha resiliência, escravizar a solidão é não viver para mim. O que vivo na solidão fica em mim sem precisar durar. Repudiar o que não dura é ridicularizar a minha tristeza. Não me faz feliz: tudo é triste, é como se soubesse que nada se alimentava da alma. Por isso sorrio esperando o tempo passar.

Segurança da alma

A segurança da alma é não ter que provar nada. É ser ela como bálsamo, uma cura interior. Um sonho após outro é meu ser se perguntando por que eu? Reformo a vida como certeza do meu amor. O amor é solitário num pedido ausente. Não se esqueçam de mim. Quando lembrar da vida, me ame. Isso é tudo que consigo falar, ser. Prova real de que há vida no amor de vocês. Me deem um pouco das suas vidas, dos seus amores. Será um pouco de mim na inexistência, mesmo na insegurança. O amor vence a distância do amor. É uma limitação da vida, onde o céu e Deus continuam o amor numa turbulência de dor. A dor, última palavra da vida que me encaminha os sonhos perdidos, reconquistados pela dor, enfim. Tenho a segurança da alma. Foi um agradecimento do céu.

Nobreza da alma

O silêncio é a sensação de morrer sem impacto, no silêncio, na gratidão de ver com a liberdade de descansar no vento das nuvens, no fim da vida, do mundo. Esse é o ideal em alma de fuligem. Dar vida à frustração na alma de Deus. Deus não percebe a imperfeição, evolução da vida. Sente o intocável na alma de Deus, como eternidade na confiança do imponderável. Semear o mistério de Deus. Me contentar em ser humana, como o nascer do sol, como a alma que se esconde, agua para ser grande e vive miserável, como se Deus me esperasse. Espero a alma aparecer como renasce a vida e sustentar o partir em segredo, onde tudo é deserto, real na presença oculta de alugar a alma em instantes de Deus, em solidões eternas, que veem apenas o brilho da alma em me deixar vazia como grão no ouvir. O ser como origem do ser não está seguro nas minhas mãos na minha alma que cessa o sol, a natureza. Não pude falar do ser em mim, desatei a chorar como um sol que expande minhas lágrimas e devolve o céu a Deus. Voltei a falar, escutar a areia que me embrulha e espalhar o vento como se fosse Deus.

Tortura

Tortura-me sentindo-me. Penso que eu sou você, vida. Tenho poesias por me faltar um coração. A falta de coração me fez viver, ser feliz, isto é mais que ter coração. Não preciso de coração para amar. Não olho porque o olhar não é alma, é a imaginação. Tudo que vivo é sem ver. Nem o tempo sabe de mim, tenho vida sem ver. A ausência é ver. O viver é a ausência dolorosa de um adeus. O objetivo da mente é olhar a mente, mas a mente não é um olhar, é o sopro de compreender que nada é visível. O invisível é o olhar. Tudo é margem do olhar fantasma. O ver não existe. O que falta ao ver não é a vida. Falta ao ver definir o que é ver. Ainda sou como se como se dependesse de um raio de sol para ser, viver. É inacreditável emergir, morrer da falta da falta. Ninguém percebe minha falta. É o que queria que notassem em nome do amor. Sou  forte no que sou incapaz. Sofrer sem culpa é a razão de amar. O nascer do sofrer é a razão de viver, de não deixar o amor em paz. Amor não é cobiça, é se dar apenas em dormir e acordar, como uma flauta. Ajudo o sol a nascer na tua ausência. Sente o amor por si? Ele por si mesmo, torna relativo o ser. Expor a existência é não sofrer mais. Encaminho a existência ao raio de flores. O encanto é a falta do céu. O resistir das flores é catar o nada com mãos de resignação na alma das flores. Cresce nas minhas mãos, no que precisa nascer da minha alma e da alma das flores. E, assim, a flor será mais que um jardim. Nada atrapalha o não ver de ser imagem eterna, como se eu estivesse sonâmbula. É o último adeus na dança das flores, curtindo o não ver como vitória. Nunca vou olhar para o adeus, apenas respiro.

Decepção

A morte não me decepciona, me alivia, deixa-me apenas coragem para sacrificar a minha dor num parto difícil, sem poesia. Sei lá o que vai ser da vida. Sei o que é poesia, algo sem vida ou morte, apenas o amor. O fim da vida e da morte é o ser. Nada mais que isso: existe apenas ser. O ser nadifica o ser. Assim, há vida, morte, sem nenhum ser. Assim nada se constrói. Me dar ao tempo sem a alegria de viver. Sugar a alma no imponderável. Não por mim, pelo ser em mim. Devolvo-me em vida. Esta é a energia de se viver.

Incomum

A morte é incomum para o ser. O seu amor regride a morte, integra, não une ninguém. A morte é o império de uma dor que conquista a vida, o céu, a mim. É devastador me ver morrer sem ter um instante de céu. Obrigar a se ver no céu sem identidade para morrer. Ser feliz no céu ou na vida, ter o dom de ser perda na paz. É revigorar o não sentido e nunca dizer nunca. Mas vou viver.

Complexo de inferioridade

A vida é morte, para que a aparência não afaste quem sou. A inferioridade são sonhos que não morrem. O ser eterno não é um ser, é o ter sido que nunca é ser. Ser é a unificação de Deus. O se tornar pelo ter sido, é transcender no imaginário pela contradição da vida. Não posso preservar a morte, mas o que sinto sempre é meu. A alma por alma, colo para me abrir dentro da alma e ficar em mim, onde o importante é viver esquecendo cada vez mais o não viver. Isto é eu deixar a alma viver a absolvição da alma. É outra alma. Não se pode recuar na alma. Impedir-me de ficar nesta ligação entre a vida e a morte. O porvir depois da morte não substitui o que sinto. Restringir a morte ao amor. O terror de amar envolve o perdido no não perdido. Fundir o perdido no não perdido é a morte. A noite cuida dos sonhos da morte para não viver mais. As estrelas, à noite, perdem seu brilho. A noite manipula as estrelas, as faz cessar de ser. E a noite se mistura com o dia. Tudo é vazio. Mas as crianças preferem desenhar estrelas. Eu escrevo estrelas. Sua presença continua em nós. É a única diferença entre o dia e a noite. É eu continuar sendo estrela nas minhas poesias.

Me puxa pra mim

Puxa pra mim, meu corpo está solto de mim. A satisfação de não ter corpo, ser pele. O tempo, o favor, a dor são peles. É exagero não ser pele. Falta o tempo, a vida, ser pele.

O controle do amor

Não se controla o ser e o não ser. Sou mais que amor. A derrota do amor é o cobertor com que a alma se cobre no frio. Não desvendo a vida, mas vivo o mundo. Quando a alma foge é quando tenho paz.