Blog da Liz de Sá Cavalcante

Promessa de alma

O que a alma me promete que eu já não seja? A promessa é a esperança da alma, como um sonho de brisa na tempestade de existir, como um abraço de areia. Eu esperava pelo céu não por mim. Aprendi a esperar nas minhas mãos. Engendrar a fala nas minhas com a alegria sem mãos do destino. Trocar minhas mãos pelo desafio sem vida do corpo quando tiver apenas uma estrela no céu. Os meus olhos cederão como se me vissem através de uma única estrela. Assim começou o meu amor por Deus: como se caísse o manto de Deus em chão de estrelas, onde não há promessas, há amor.

Grades

Encontrar amor na distância de mim é não pertencer às grades de ser solta pela alma que ergue o vento e o traz para mim. Sem o vento não há paz. Paz é solidão. A sombra é a voz de Deus. Nada acaba em sonhos. O vento a extrair o sol, a chuva molhada de amor.

Fundir-me

Fundir o que não existe sem o adeus da mente. Fundir-me em morrer com o cuidado em sonhos. Acordar em lábios de céu, em nuvens de isopor. Não ir até o fim é morrer até o soprar das grades da alma para cair com o vento no nós de mim mesma. Nada se deixa levar, por isso tudo é amor. É fácil sentir. Por isso sinto, mas o que sinto ao chorar é mais inexplicável que o céu, mais inacreditável do que ver o que assume a realidade e desvenda o véu que a esconde? Suprir o vazio e mostrá-lo no véu que poderia ser o céu. O céu me inunda, me refaz. Nem parece o céu que abandonei. Eu queria não olhar o céu como morte. Queria ver o céu na minha vida. Minha vida tem o meu olhar. Mãos são o tempo em mim. Tudo se resolve sem o infinito. O infinito é o problema do céu, seu trauma. O nada é o fim do infinito. O fim é Deus? Não sei o que sinto, mas, se sinto algo, o fim não é Deus, o fim é recomeço.

Formigamento

Há uma alma secreta em mim, que formiga na minha alma como uma maneira de cooperar com esse saber que influencia a alma no que ela me diz. A alma secreta não se guarda no silêncio e no falar. Eu a jogo no vento sem ventania, longe da distância. Nada é, tudo se supõe como merecimento da alma. Cuidar como o sol cuida do tempo. O silêncio é o que maltratamos em vida. Não há silêncio de alma, prefiro surtar do que o silêncio. Sofro pela minha alma. A diferença entre a alma e o sofrer. O sofrer tem a vida. A alma tem a morte. Não falar do silêncio devastador, das lembranças que são piores do que ter corpo. E se a lembrança for um corpo dentro do meu corpo. O corpo de Deus? O corpo de uma lembrança? Um corpo de silêncio? Um corpo que é só. Pensa ser um corpo duplo. Será apenas solidão? Martírio? Ou será um apelo de amar? Nada tem um porém. A serenidade é o real na fraqueza da torre do desespero, que torna o mar inexplicável como ondas do tempo. Eu favoreço a justiça da alma. Que se possa ter sol no sempre, segurança que desnorteia a angústia. Tomar a angústia do que a angústia é violência. Parte de mim esfola, grita dentro da saudade de mim. Assim, venci o fim com o fim. Eu queria apenas amor e alcancei o céu da alegria. A irregularidade da alegria. A alma para que um ponto seja um ponto. Uma vírgula é uma vírgula. As palavras são palavras. Fica bem e me deixe amar. Ser feliz foi melhor assim. Sempre seremos dois mundos separados para ainda existir respeito e assim vivemos num silêncio que não é de morte é de paz, de nos reconciliarmos com a vida. Até as flores ficaram quietas para ver, amar a paz, a separação de corpo e alma nos uniu em viver vidas diferentes separadas por um destino maior: a vida que me espera infinitamente numa paz onde agradeço por tudo que sofri. Por isso sou feliz hoje, ou talvez sempre sou feliz, mas antes não sabia.

Disposição

Não consigo me comportar com a vida. Ela age em mim sem ação. Quero apenas ser eu, numa luz nunca ofuscada na escuridão. Não consigo agir na vida. Isso me relaxa, fazendo-me sofrer para não apagar minha consciência. Ela se apaga. Só consigo sofrer apenas sem ser aos poucos. Aos poucos não se vive, e nem posso ser se tudo faz parte de mim. Vivo apenas o que não se pode viver: eu mesma. Meu corpo explode de amor. Estou comigo na morte para o que der e vier. Se ninguém vier comigo, nem a morte cessa minha dor. Isto é indescritível para vocês, mas somente se explica no que a dor é para mim: a minha vida. Não pense em mim, sinta o que sinto.

Sorte de viver

Nada percebe a morte e a sorte de viver. Nascer do nada, como a vida nasceu, é a esperança vazia, num recomeço de paz. A harmonia é segurar uma rosa como se fosse o depois. E eu a viver por segurar na rosa o meu coração.

Amortecer o vazio

O vazio inextenso se faz alma. É um lugar para um lugar. O que mais tenho que ser além de solidão? O que me fazia ser era amor. Tecer o vazio no meu corpo e sei, o vazio não se segura no meu túmulo. Sei que nada é igual a morrer. Morrer é apenas símbolo da morte. Não há do que morrer, mas há do que escrever. O necessário de ser feliz é ter um coração para morrer e outro para viver. Viver não é ficar com os braços cruzados esperando ser os aventurados ares do que é. É promessa, razão de ser. Nada se justifica só. Tudo é desigual no pensar, no ser. Fugir de mim é, ainda, viver. A vida é fuga, é o que se vive por nós todos liberamos o ar numa harmonia, correndo de nós mesmos e encontrando florestas na falta de fugir. Todo ser escapa como se não fugisse, como se o ar fosse o céu. A saudade do que não vou viver faz da vida e do céu a mesma coisa. Ver tudo sendo o mesmo existir. Decoro a morte como se dominasse o céu. O vazio feliz na minha alegria. Divido o céu em amor com uma fé do céu que se abala em palavras e deixa tudo perfeito. O céu vive numa bolha. Sua exaustão não nos deixa vê-lo, nem o tempo esquece a natureza como esquece o ser. Na luz que enfrenta o olhar, resta a escuridão passiva. A vida apenas atua, nada faz por nós. Deixo-a para vocês.

Esconderijo

A vida é uma concha para o mar. Se aprisionar de saudade. eu queria ser o mar, sentir-me aprisionada como uma concha que se dá no mar. Aprisionada, livre da vida e de, ao menos morrer. Não quero me encontrar, nem mesmo morta

Lealdade

Leal o que tem som de mar. O que não brinca, mas é. Nenhum ser se iguala ao pensar. Pensar não é vida, é o que há entre mim e a vida. Águas são espaços dados ao mundo para que nada seja no é de ser. Tudo é circunstância da mente. O mar desaparece em nos devolver em um destino de mar. O mar enche com a certeza do nada numa lealdade que satisfaz o futuro em brumas. E cada incerteza é uma vida a mais. O silêncio foi ofício das mãos que me deu forças para continuar construindo-me em uivos solitários. E percebo isto: sou eu. cada dor é um uivo que não nasce, estremece. O som é a solicitude do uivo cuida de mim em ser só. A natureza é o vento, é o inseparável, é ser só. A vida não sorri como o vento, é indestrutível a destruição e o esconder-me em ventos, em moinhos de vento

Estar

Às vezes, confundi não ser com estar, morrer, com o florescer. A fadiga de crescer. Estar em vez de ficar. Reproduzir a saudade com a convivência. Repassar o tempo ao desfolhar o nada sem prejudicá-lo. Criar uma nova vida. Crescer de amor, de liberdade. Sonhar, mesmo morta. Ser feliz ultrapassa o real, vive o real. O sonho banha a morte para secar o ser. Tenho dúvidas se estou viva. Quando nada se vive e fica intacto. É  como dar razão à morte. Este é o lado impermeável da sombra, em impermeável existir. Nada é tão sóbrio, solene na existência, como ver o sentir do outro. Às vezes, parece um não sentir sagaz, sóbrio, mas é apenas a vontade de ter esse alguém na minha vida. Sentir sem orgulho de sentir. Não é sentir as entranhas. Não deixam o ser se separar do passado. Como se moldasse argila no passado. Para moldar o destino, me espremer para ter alma. Quando tudo cessa, eu continuo. Continuar o quê? Não encontro respostas. O que sinto me faz continuar. Vidas se apossam de mim. Sofrer é demais. O último suspiro é minha voz. É imperdoável não viver. Eu esmoreço em minha pele, me ponho abaixo, inferior a ela. A vida desfaz a pele em saudades. Sempre há alguém para a vida.