Blog da Liz de Sá Cavalcante

Estímulo

Ninguém percebe se eu estou em mim, nem eu mesma. Rumores são falta de quem é só solidão. Sou eu no meu corpo, que é apenas pele pelo menos por enquanto. Enquanto não surge a verdadeira pele: a de Deus. Chuva sem Deus é mar sem sol, vida passageira como se eu sondasse a vida no seu nada. O nada é meu crescimento pessoal. O sentir se sente vendo. O tédio é conviver no infinito. O infinito tem o fim de Deus. Meu fim é a distância de Deus. Se houvesse uma vida, seria Deus. O enquanto é o sol longe da lua. Eu seria eu se houvesse amanhã. Vibra a distância. Distância que era a vida a se comunicar numa chuva de agora. Nada são os dedos a se comunicar numa chuva de agora. Nada são os dedos tocados por Deus. Mas abrem-se como se a coragem fosse uma esperança em Deus. Deus age mesmo sem coragem. Deus é o inacabado perfeito. O céu contra o céu complica estrelas devotas do céu. Estrelas não sobem em flores de abismo, estrela fonte de solidão. Areia sem deserto é um vazio. Expulsar a alma é a energia, vida engendrada como pele, decepção da morte. Minha pele, realidade de um sonho no despertar do sonho de Deus. Amoleço minha liberdade num amor não real, nem sonho: apenas é. Assim me renovo no altar da solidão que vai para todo canto, não volta. Não percebi.

Proximidade da alma

A alma que sai de mim é a alma que existe em mim. A alma que existe em mim não existe. Esta é minha transparência na morte.

Recolher

Saudade da saudade inexistente de luz. O começo da luz é o ser na alma da luz. Dor sem medo na eternidade do sofrer, da escuridão que tem asas. Desnorteada com o amor, com escuridão que prefere meu corpo ao espaço. Anos são pessoas. Vida é o fim. Cheguei ao fim do nada. Tive que recolher as cinzas de mim. Nunca vivi, me bloqueio. Mas tenho o sol dentro de mim.

À procura da vida

Procuro a vida, encontro o silêncio, solidão. Não sei o que é ser, mas encontram a vida em mim.

Se misturar

Eclodir no nada. A substância enfraquece para não morrer. Deus é Deus da alma, não do ser. Acredito no sonho. A matéria se separa do corpo, não da morte de mim. Tenho o indescritível apenas no Deus da poesia. Me envolvi em labaredas de palavras. É provisório ser. A cadência é a perda do amor de Deus, da vida, da morte que estava ausente comigo a amar na memória de Deus.

O céu escrito

O céu escrito, o céu revelado, o céu do sentimento, o céu da poesia, desejo de viver. Precisar é mais humilde que ser só. Precisar de amor é ter vida. Ser feliz apenas para ser amada vale a pena? É o auge da sensibilidade nas mãos do amor. Mãos de flores, alma que se afasta, sol que se reduz nas minhas cinzas. Assim, amanhecer é como não se afastar e fazer das minhas cinzas o mar que mergulha no vento. Tempestade poética na admiração do céu. Surgir do céu, surgir do parar de Deus.

Transmitir

Ver antes de viver é esperar o nada no inseparável de mim. Ver pela alegria é demais para mim. Ver pelo amor já é muito. Ver falando é como respirar. Respirar é conquistar, é ser o universo. Sou quando o ar entra em mim, como uma faca, intransmissível. O adeus é a confiança de depois.

Princípio

A vida não é o princípio de tudo. Deus não é tudo, é o nada do princípio ao fim.

Calvário

Soluços abafados pela morte. Sonhos em vão, resina sem olhos. Calvário saciado em conversa. Almas em ventos de explosão, céu de fragilidade, risos de fragilidade de morte, saudade do céu, de viver, nem que seja no céu. Sou calvário da alegria das pessoas.

Explicação

A morte não se explica nem na morte.