Blog da Liz de Sá Cavalcante

Aperto da alma

A lua ousa ir até a alma. Falo com o vento, com a existência, com a vida dos meus olhos. Nenhuma diferença entre a vida e a morte, espectros de respirar, morte saudável, como fogo e vento, como o não profundo do respirar que se perde no inanimado. Sorrir é morrer de solidão. Um dia palavra será lua correndo contra o vento, diamante de saudade. Não sei o que esperar do amor. Sei que dizer que amo me salva e absolve a morte da tristeza da minha alma. Queria sentir o aperto do coração com um sorriso. E, enfim, a normalidade de sofrer como amo. Dentro do meu corpo, existe um ser feito para mim: eu mesma. Como uma montanha a desmoronar de sol. O sol do amor.

Ter

Quase nada, pior que nada. Estou pronta para morrer: como dita a vida, como cala a morte, chamando por mim. O passado se cala dentro de mim, ferida na alma, Lua quer entrar nas minhas dores. Nascer é apenas nascer, como em ti, vida. É cansativo. Se tudo é apenas nascer, tudo é apenas morrer, como pedra, água, lua, ausências, enfim, o céu que sonhei enfeitado de poesias. Eu tinha apenas meu olhar. Agora tenho a morte.

Asas de vento

Meu coração de asas de vento declama-se em sua liberdade, como o fundo do mar a se afogar no mar, em mim, de mim. Restam pedras no sepulcro do meu coração, onde amo ainda mais.

A unção da morte

Entre a dor e o desconsolo, fico com a unção da morte. Morte fora do meu corpo. A morte é o espelho de um espelho na imagem que não é a última imagem de mim. Minha última imagem não é a morte, não pode ser. Tenho imagens que nem Deus acredita, não se define: a poesia. Prefiro a alma do vento do que minha alma. Alma, desafeto da vida. O sonho se estende no fim. Convivo no fim. O fim da fala é vida? O que toma conta de mim? Do meu corpo? O conhecimento alheio a mim é a presença eterna, desmaia em meus braços, presença eterna, diz para mim o teu nome. Ao menos para a minha morte diz que é Deus, que ficará em mim até o fim. Que fim é esse sem céu? Olhos no ar da última chama de vida. O fogo que me separa no inferno de ser, no lá fora, sem mundo, sem ninguém, apenas vento e coragem.

Latência

A consciência é preciso perder para a consciência. Depender da falta do corpo para ser feliz, pois nunca houve corpo. Nem o incorpóreo, nem a falta é real. Real é essa alegria de nada existir. A alma precisa do nada e eu, nem do nada preciso. Preciso apenas morrer no que não posso existir: eu. Nascer. Algo nasce para a consciência: sua própria solidão. O espírito são as sobras de uma consciência inexistente.

Vida da vida

O ser é a morte da morte. Viver é covardia, é sujar a alma. Ser nunca poderá viver. Nunca poderei me sentir viva: isto é a vida da vida.

Vida

Falta muito para saber se vi. A última coisa que vi não pude saber como é. Vivi platonicamente no olhar. Vi sem ver. O que falta no olhar eu vi. Não vi o que existe. A vida, tão distante, desconexa com a realidade que eu vivi. Vivi o amor pleno de si e eu tenho apenas a mim para lhe dar. Sem insegurança, vivo o que sou e apenas isto é meu fim. Leiam-me, decifram-me pelo que falta em mim. Me faça plena no esplendor de uma saudade. Desate-me, aprenda-me. Ouça vozes como eu, mesmo que elas não existam, mas não se sinta só. A solidão não impede de morrer, de ser quem sou. Um instante de amor é uma eternidade que não se aproxima de mim. Demonstrar o amor é não desistir de mim, mesmo que, eu já estando morta, possa me fazer sentir e descansarei como um encanto de poesia.

Hora da esperança

Nunca viver, esconder a mente como uma alegria. Eu pingo o céu. Eu refaço o ver. Jamais me olharia e meu único prazer em escrever é o depois. O tédio é não estar em mim. Sentir. Sentir nada além disso.

Orvalho na poesia

Que coisa maravilhosa respirar o ar de orvalho numa única poesia. Quando não se tem alegria, tem algo melhor: Deus. Entre coragem e fogo, fico com o fogo. Entre mim, a dor e a alma, fico com a dor. Dor multiplica a terra para os mortos e os vivos. Quando eu terminar em alma, não serei mais incorpórea. O orvalho como poesia ardente por mim. Cada palavra, uma alma. A dependência de ser é como estourar o intestino da vida na frouxidão dos cantos sagrados. Eu emudeci de alma. Tudo flores da morte a latejar em mim. Como cristal, reza forte bastante esse amor para sucumbir. Vai buscar minha alma para mim antes que não dê tempo de acolher que senti um dia: a minha morte, doçura trêmula do amor. Enlouquecer de dor ou fazer a dor enlouquecer? Nada entrego sem uma loucura lavada com meu sangue, nem o meu amor é sem entrega. Prostro-me diante da morte. Desconfio de dormir, de não voltar da morte. Tudo é o azul do céu. Transcender piora a alma. A alma quer ser simples, natural, como uma gota do meu céu. Eu vejo imagens confusas no partir da consciência. Deixar a consciência na imagem é morrer, é hora da esperança, de partir do fundo de um abismo, para surgir desesperada num corpo que não mais me pertence, mas, de toda maneira, esse corpo um dia foi meu. Assim como eu fui minha. A única coisa que não me sufoca é morrer. Vir a mim foi por um sorrir. Filha da esperança e da minha alma. Sou livre, filha do amor. O real é apenas sorrir.

Em nome do amor da rosa

O vento é o costume da solidão nas mãos da rosa da aflição que esmaga a angústia por uma rosa. Rosa é ver toda a beleza numa rosa, pois a vida é feia e cruel, e quer deixar sua alma para morrer; sua alma para mim. A vida me deu sua alma ao dizer sinto muito. Ver na minha pele como ama a rosa. Tudo sei da rosa. Sinto-a até mesmo sem vida. Essa rosa deixa-me tanto amor. A rosa não precisa de sol, precisa da minha pele, do meu calor humano. Desabrocho como rosa ao ver a rosa. Queria que meus olhos ficassem ali para sempre. Não posso ir além da rosa. Ela é a minha esperança, beleza interior. Sinto na rosa meu amor. Nela está. Nunca me imaginei amar tanto uma rosa. É como se eu apenas pudesse sonhar pela rosa: ela é mais do que um sonho. É vida. Penso como uma rosa. Me despedaço de amor em nome do amor à rosa. Decidi ser só. A rosa, em vez de ficar triste, me traz delicadeza onde não consigo ficar triste. A rosa é infinita na delicadeza de amar. Troco o mar por uma rosa, poesia eterna da alma. Na minha próxima alma, terei menos medo de amar e abrirei as portas para o vento. Respiro vento. O vento corta a alma. Eu sofri ausência da rosa em silêncio eterno de luto. A normalidade da vida é a náusea do mar. Não me deixa nunca rosa, sopro o mar tão longe, como uma poesia e se acende amor em mim no encalhar das ondas, no tropeçar do amanhecer, expor a alegria divina para a rosa. O fim é mais alegria, é Deus. Como consentir à rosa, que ela morra? O céu precisa de rosas.