Blog da Liz de Sá Cavalcante

Repetindo-me de amor

Repetindo-me em amor é a atenção. É ser eu várias vezes para a mesma pessoa. Minhas cinzas, inseparáveis de mim, sente meus cabelos como as ondas do mar e a saudade montando vidas. Nada se mantém só com o som. A beleza do mar fica apenas um lampejo sem ter nem mesmo o vazio da clareza de um lampejo. Morrer ou mudar. Tudo é o mesmo fim, a mesma dor. Apenas o lampejo torna o vazio saudade dando luz à saudade. Não há o que comemorar, apenas ser feliz na saudade de mim, também se perde. A luz enfraquece, ilumina apenas os sonhos no clarão da solidão.

Laços de ternura

Quero respirar esse amor aos poucos provando sua eternidade. Desejar a vida que segue sem pintá-la com minhas saudades. Amo detalhes da vida, reconheço a vida na sua nudez, na sua dor. E, então, conheço o nada pelo seu respirar. Lembra a mim, a viver.

Flores em vida

Amenizar-me no tempo. O tempo volta sem eu esperar nada das flores: apenas o meu tempo no tempo das flores, onde nada morre, tudo é eterno. Exala flores como amor sublime. O corpo e a alma renovam comigo num saber vital: o de ter esperança na vida, de sentir saudade da vida nas flores.

Roda da morte

O exagero, a hipérbole de morrer é o encurtar o respirar. O modo como tudo gira dentro de mim não é normal, é a complexidade da vida no devir do mundo. A vida quer apenas ser só dentro de si. O mundo tira-a do seu silêncio, da sua clausura, da sua clandestinidade. Me despedaço como se eu fosse o tempo perdido e recuperado por mim. O tempo de amar, sem guerra, apenas paz, tanto pelos que morreram como pelos que ficaram. Todos têm o mesmo olhar de vida, uma alma, um corpo, uma família. O rigor do ódio foi a pior morte. Se a vida acabar, Deus morre e a única coisa que somos nesta guerra é pó, cinzas, única força que temos num céu de bombas, de terror. Eu não quero mortes, quero que todos vivam. Não é guerra, é desespero, é doença, solidão. O que vai restar? Nada. Isto é paz? A paz do meu corpo depende de outro corpo, outro ser. Ninguém pode salvar os mortos de suas mortes. Injusto. Os vivos querem ajuda para viver e eu, montada na liberdade, vivendo dos carinhos do vento, para a liberdade, onde tudo pode ser. Se eu sofrer pela realidade, guerra que sente mais que nós. A sinceridade da dor é como cura. A compreensão depende da sinceridade. Sacudir a alma e ficar até sentir esse ficar. Desfolhar de amor, a terra tremer para os corpos se amarem de uma só vez e ser eterno, como as ondas castigadas no vento e eu, puro mar, pura emoção, serenidade de um aconchego, de viver sem viver. Nem por isso o viver se conforma em viver. O viver quer amor na falta, no sorrir, no desespero. Viver não deixa de ser. Viver. E eu não deixo de ser eu enquanto eu escrever. Não sei mais se eu escrevo a poesia ou se ele me escreve. É difícil dar um fim à poesia ou se ela me escreve. É difícil dar um fim à poesia. Talvez não tenha dado. Meu ser aparecer na poesia é mais que sonhei.

Invocar o insubstituível

Tento botar o espírito na poesia. A poesia é o espírito. Se nada for escrito nos olhos, é no coração, no amor. Na alma, se escreve por dentro da alma tão secreto, misterioso que nem eu sei. Sei que senti, mas o que senti? Fui eu o que senti? Dor é saudade. O corpo não precisa nem de amor, mas de espírito. A vida nunca tem fim sem o espírito.

O preço de ser lúcida

Tem coisas que machucam. Dar amor é como morrer. O enfraquecimento da alma é a falta de realidade, é um sossego triste, em espalhar de náuseas que vomitam o real, como sombra inexistente. Surdez de uma vida. A alma, inexatidão dos sentidos, resolve-me por dentro, como sendo algo mágico, protetor. Eu vivo o divino, suspendendo meu corpo do ar. Na invisibilidade do amor, cortar a alma no umbilical conectar-me com o indefinido. Ser o que nasce de mim. Viver e não viver é o equilíbrio da vida. Incentivo para ser eu, como um peixe fora da água, reduzindo meu ser ao meu respirar. Essa é a reciprocidade da solidão.

Atenção do amor

A morte, potência da vida. É o que faz a vida viver. Não incomodo a minha poesia para morrer. Ela não me deixa morrer, me faz perceber que eu tenho um interior de vida, amor. Me internaria na poesia, feliz a sorrir. É duro a poesia sair de mim. É perder um (a) filho (a). É morrer de dor, sobrevivendo da poesia, que não existe mais. O luto, a poesia é uma atenção à poesia, a tudo que vivenciei sonhar. Por sonhar, apenas me dei a poesia. Desamparada, escrevo-lhe, ela me escreve. Mesmo assim, morremos incomunicáveis, eu e a poesia, de tristeza, de solidão. Juntas, eu e as poesias, fizemos mais do que poesia, fizemos vida onde não existia. E, assim, sinto, amo a poesia por lhe dar vida. E essa inspiração perco com a morte. Ressuscito a poesia com a inspiração de uma pessoa que morre, que está morta, mas vou me inspirar em todas as vidas, nas gentilezas de Deus. Escrevendo morta me sinto viva e sinto o ar da poesia, pairando no meu amor.

Frieza da morte

Não vejo o ver. Faço o que quero ver, quero amor. Alguns não amam, tem que esperar um consolo da vida. Eu amo tanto, falo direto no amor. Amor é ver. Ver é identidade que dura. Nada sei da duração do amor. Às vezes, não parece durar, nem para viver dele. Não sei viver sem ele. O amor apenas como amor se acaba. Não ser correspondida no amor é Deus me amando. A fragilidade de amar é a força que nada tem. Essa força é Deus assumindo a culpa até do desumano do ser. Reveste-me de pele. Não quero ser apenas ossos. Se aconchega em mim Deus. Também, como tantos, não me faça esperar. Já tenho a frieza da morte na alma.

Simbologia

O sentir empírico é a morte entrando na pele sem revestir a dor. Dor e excitação são formas de perder a agonia como se perde a alma. A alma regressa ao seu fundo sem interior até voltar a ser alma. O que nadifica não é o nada, é a saudade de amar. Amo, logo existo. Como se eu visse uma luz, partículas que ninguém vê. Existe dentro de cada palavra minha. Vê o que fala, é amor. Outras luzes nascerão. Nenhuma será como aquela luz. Nada me esmaga em plena luz. A luz é retornar a essência do sonho. Sonhar, luz da qual nasci. Dessa luz, a poesia tira toda sua inspiração e eu já esperava escrever na escuridão, onde fim é fim e a luz beneficia a poesia com o que a poesia pode ver. Ver é o que tem um significado. Uma vida para mim. Ver é o que todos gostariam de ver na vida. Ver também é escuridão. Conformidade de não termos o ver da luz.

Poesia na poesia

Incapaz de manter a poesia dentro de mim. Ela suspira tão distante por mim. Eu a escuto. Escuto tanto como se a poesia conversasse comigo infinitamente só, como eu. Eu sou a capacidade da poesia de me trazer, partindo. Isso é o nada ficar, é o concreto. O concreto é o nada em sua melhor performance, em sua melhor vida, consistência de alma. A alma é a falta de dormência da morte, é o alvorecer da alma. Não se diz adeus para o adeus, nem se diz adeus sem adeus. Me lembro do corpo na pele. É uma pena, o que vivo na pele, vivencio na pele o que é da pele ou será da vida? Para a pele, o viver é um sintoma que entra na pele e não sai: a vida.