O exagero, a hipérbole de morrer é o encurtar o respirar. O modo como tudo gira dentro de mim não é normal, é a complexidade da vida no devir do mundo. A vida quer apenas ser só dentro de si. O mundo tira-a do seu silêncio, da sua clausura, da sua clandestinidade. Me despedaço como se eu fosse o tempo perdido e recuperado por mim. O tempo de amar, sem guerra, apenas paz, tanto pelos que morreram como pelos que ficaram. Todos têm o mesmo olhar de vida, uma alma, um corpo, uma família. O rigor do ódio foi a pior morte. Se a vida acabar, Deus morre e a única coisa que somos nesta guerra é pó, cinzas, única força que temos num céu de bombas, de terror. Eu não quero mortes, quero que todos vivam. Não é guerra, é desespero, é doença, solidão. O que vai restar? Nada. Isto é paz? A paz do meu corpo depende de outro corpo, outro ser. Ninguém pode salvar os mortos de suas mortes. Injusto. Os vivos querem ajuda para viver e eu, montada na liberdade, vivendo dos carinhos do vento, para a liberdade, onde tudo pode ser. Se eu sofrer pela realidade, guerra que sente mais que nós. A sinceridade da dor é como cura. A compreensão depende da sinceridade. Sacudir a alma e ficar até sentir esse ficar. Desfolhar de amor, a terra tremer para os corpos se amarem de uma só vez e ser eterno, como as ondas castigadas no vento e eu, puro mar, pura emoção, serenidade de um aconchego, de viver sem viver. Nem por isso o viver se conforma em viver. O viver quer amor na falta, no sorrir, no desespero. Viver não deixa de ser. Viver. E eu não deixo de ser eu enquanto eu escrever. Não sei mais se eu escrevo a poesia ou se ele me escreve. É difícil dar um fim à poesia ou se ela me escreve. É difícil dar um fim à poesia. Talvez não tenha dado. Meu ser aparecer na poesia é mais que sonhei.