Blog da Liz de Sá Cavalcante

O necessário

Sendo tão necessário o respirar. Céu e mundo num viver. Viver no amor sem amor é transbordar no que não vivo. O viver é a falta de dispersão. Resisti ao nada. Vivi o invisível adeus sem alma. A alma fraca de vida desenvolve o nada sem a firmeza de me firmar nos meus ossos. No adeus que nunca houve. Houve os braços abertos em nuvens de estrelas, para me desaparecer em vazios de nuvens. O corpo de Deus é a morte.

Mãos de amor

Mãos de amor

12/06/2026

Tem sorte quem não é feliz, quem ama. O amor parte, nem sabe como eu estou triste. Tristeza se guarda no lado precioso do amor. Eu amo e isso é tudo para mim. Nada é inevitável. Soprar o vento, deixá-lo ser minhas mãos, dourados sonhos que me invadem. Mãos de pétalas não me animam a escrever. Sinto falta das convulsões dos meus dedos em escrever, como os cuidados de quem vai morrer sem ter dor em escrever.

Sensibilidade

Nascer é falso. Não vem de dentro, é a ausência me queimando por dentro. É o desnascer como nascer. Sombra é o vento, é o que é o real da tristeza. É de mim que vem a vida, sem sombra, apenas saudade. Desmembrar a morte sem separar o ser do ser. Fica mesmo que isso seja apenas um pedaço seu. O invólucro é a vida. Engano a sensibilidade com a dor. Nada tem um rumo certo. O ontem é o amanhã eterno. Parece que foi ontem que conheci a vida. Conhecer a vida é estar do lado do amor. O silêncio é o invisível sem vida, torna o que a vida é, a morte dos mortos. O que morre nasce sem ser só. Nascer de novo é me superar, como gerar uma poesia que partiu para haver muitas poesias. São de todos, ainda são minhas. Viver é, aos poucos, ganhar vida, nascer. Fim da vida.

Estupor

O estupor é o meu corpo a amar. Tenho, no corpo, a dificuldade de ausentar a alma. É a falta de falar. Falar é o bem da vida. É ser. É poder morrer falando na vida. O que nada fala existe antes da vida, do morrer, do amor. A morte é a desigualdade do amor. O amor não compensa morrer. Não há assunto, há alma. A voz pensa o que não penso. Unhas de canção cantam o que não existe sem chorar. Mesmo sem entender a sensação oposta à vida, mesmo que alguém sinta na vida esta sensação desaparecer. E a vida desestimula a ver o céu. Céu lava a eternidade. Estou na carência de mim. A eternidade é como saber o que vivi dentro de um suspirar. Parece que nada de mim parece ser eu. Deixar que envolva a falta no amor espontâneo em mãos de fadiga. O desapontamento das mãos é perder a poesia. A única maneira de eu voltar é terra que não se anda, não se ama no puro, no sagrado, como se mãos não aceitassem seu respirar. O corpo são mãos que curam e, por isso, morrem como se mãos fossem o que causou a morte. Então, como ela o curou? Deu-lhe vida e a vida olhou minhas mãos de modo diferente. O silêncio amorteceu a morte num silêncio pleno de si.

Incertezas

As incertezas são ouvir o desprezo sendo o mar adentro, prolonga o pensar e desfaz a terra no mar para sentir o corpo sem corpo. Torna-se terra e mar onde eu esqueço o esquecer no vazio do mar. Preencho o mar. Seriedade do infinito no segredo da fala em pedras. O que me deixa viva é ir com o mar, ter a linguagem do mar, para afogar as certezas no amor que sinto do mar. Prefiro a incerteza de morrer, de estar viva para ver o mar e me jogar no infinito da beira do esquecimento até ouvir falar com as pedras, o que não consigo dizer a ninguém. Esta sou eu.

Retornei

É amor desfazer a alma nas mãos da alma. Alma de uma vida inteira de morte sem o ser. Entranhar as mãos num vazio de poesias. Encarar o que nunca me faltou. Morrer. Rompi com a vida, retornei.

Sufocando

Me abrace na lentidão do sofrer me sufocando. O ar é prêmio de Deus. Deus é o único que tem ar. Vivo sem ar. Repouse o meu ar. Deixe-o no ar da ausência. Falo que vou morrer na imaginação. Recrimino a falta do direito de morrer sem morrer. É pior, é entravar a alma, tentar amar a Deus com as minhas dificuldades. Retornar, ser feliz.

Meu outro eu

Não vou me sentir morrer. Vou me sentir, você, meu outro eu. Tenho energia em morrer. Nada esfria a morte. Está quente. Dissolver em dor, o que não existe nem na existência. É a vida da alma buscando o real de outra vida. Assim, o ser entra em si só buscando seu outro eu, incansável. A morte é meu outro dia. E eu, o outro dia da morte. Vamos adiando o amor, o sentir e, unidas, a contemplar a vida, vi que nada somos. Morreremos do nada por medo de perder o amor. Sei que o teremos, não importa quando. Por enquanto, as sensações da vida se tornam meu amor. As pessoas se desconhecem. Vou amando. Não sei o que é ainda amar, mas, ao ver meus olhos noutros olhos, entendi: todo amor é possível. Ver o nada é amor. O respirar é amor. Eu no outro eu é o desperdício da alma no meu viver. Não admitir ser só, solidão, sem amor, é perder a voz. Voz para mim mesma. Não tenho voz no meu amor quanto mais para os outros. A morte se divide entre mim e a poesia. Nasci, mas nada mais existia, nem procuro que exista. Quem existiu como eu na distância da vida tem medo até de sonhar. O impenetrável é a carência da pele se rasgando para viver. Tudo que é impenetrável é o nascer da alma, é a purificação de tocar. Sentir o que me isola da vida. Deus nunca será minha vida. Após a morte, não há vida, não há solidão, apenas eu me perguntar se meu outro eu existiu um dia. Desanimada, me concentro em morrer. Tudo já se foi. Faz muito tempo e meus olhos ainda brilham, procuram ver algo. Quem sabe o amor?

Aceitação

Deixar de ser é fácil, o difícil é amar só. Ninguém me aceita. Choro. Esta sou eu. Chorar por amor é distante da realidade. Apareço como nada. Lembranças não deviam existir, nem a falta de amor. Era para ser permitido. Me sente ou não me sente, não depende de mim. Descanso no sofrer. O fim é mais do que amor. Que fim teria o amor que lhe dei? Fim é não partir. Mesmo se o amor partir, tudo me deixar, fico onde estou sem esperar. Amo a primeira letra, a primeira frase, não minha, da vida. Escrevemos, amamos juntas. É a vida o ser ou não ser. Em mim, falo de toda inexistência e o não ser perde o sentido, o significado. A única coisa que tem significado é o amor, sem nada. O ser cuida de si mesmo. Ninguém alcança o amor de tão grandioso, mas morremos nele. Sinto o corpo. É o corpo que vai além da vida do ser. Quando o corpo perece morrer, vira miragem. Me vejo nascendo. E se o amor vier um dia, vai ser pelo corpo, pela pele, pela inocência de ser feliz. O amor suporta a dor que eu deveria sentir. O que poderia existir não existe, como o sol arrastado no vento. O que vai ser de mim. O que importa é que não podem tirar meu amor de mim, como se tira alguém da morte. A vida inexplicável. Morte é o depois no antes do desnascer. O ver é um mistério do interior. Acho que vejo a vida. Vi o ver sem vida, sem lembranças. Mas ver o invisível, cada neurose é vida quando o não imaginar. Não é real, algo morre dentro de si. Sou eu ao me esquecer. Silenciar o que sei de mim é morrer. Vivo mesmo morta. Ser é demência. Aterroriza. Ser é para ser amor. O que morre da morte é a minha fala. O outro em mim. Morrer numa falsa vida é ter o sonho apenas como sonho, e o existir apenas sombra. Por que o falso amor dura na vida e o verdadeiro amor morre no que ama? Se pode pensar amar? Alma curta num longo amor. Tudo se aproxima da morte perdida e não da morte que tem. Assim me perco para sempre.

Lá fora

A morte foi embora junto do respirar. Ficou tudo vazio sem o fim e o amor que ainda existe. Se perdeu em amar por dentro de mim, pela dor do amor que existe também no mundo lá fora.