Blog da Liz de Sá Cavalcante

Sonho

Voltei pelo sonho como o ar refeito. Segurando o coração em minhas mãos enternecendo de estrelas, encarnar na morte, me encostar no amor, sorrir ao nascer do amor. Tempo é sentir por dentro de mim, destilar a morte, padecer de Deus. Por que Deus permite que eu seja só? Estou sempre aqui. Sonhar junto ainda é um sonho? Instantes são sentir o nada como falta da saudade do sonho. O não viver me pertence. A falta é a falta de nada viver. Me desprendi do meu corpo no ar. Desprovida de retornar, não me sinto ficar nos outros. O intenso ajuda. Me ajuda a ser só. O sono progride na imperfeição como a alma. Flores são eternas. Tudo que o corpo não é capaz. Eu sou capaz como as almas ao vento. Nada quero da vida, nem mesmo ser feliz. Quero apenas um canto para morrer.

Flutua-me

A alma me flutua no meu partir. A vida é deixada como a leveza do meu ser. Tudo é essencial, é como sair rosas de mim para amar ser jardim, ser escudo na arte do amor para a alegria ser eu no teu amor.

Me misturar

Morrer se mistura com respirar poesia, transformação espiritual. Faço o céu dormir em mim. Sinto seu nascer na clareza do universo. O ouvir da alma cabe num sorrir até os meus pedaços se unirem aos céus para Deus. Não sou pedaços para Deus, ainda sou amor, vida. Fica feliz em me ver até quando estou triste. Olho o céu, meus pedaços podem se despedaçar. Já estou morta no céu, nas graças de Deus.

O adeus de mim em flores

Conter-me na alma, me abrir em flores para morrer no silêncio da delicadeza. A vida não mudou com minhas palavras, com a minha solidão. Por isso me peço adeus.

Única

A única prova de que existo é o meu amor. Por isso não se cale, nem ignore meu amor. Perdi até a morte.

Retratos de alma

A alma sai do retrato como agir, reagir. Contemplo o dia de cada dia vendo a alma. Não diferencio alma e ser. Dentro de mim estou vazia, no âmago da morte, onde nada machuca. Às vezes penso em ser, em alma, em ficar perto. Minha alma não me conhece. Escrevo nela, ela me despreza, me quer para que eu morra. Os retratos da alma perderão seu valor. Danço com a alma e me diluo na minha permanência.

A perda do corpo

Apodrecer é melhor do que perder o corpo? Existe um corpo na mente, reluz no meu amor, nas dádivas de Deus. Sinto a vida como minha, cuidar dela em mim. Amar a perda de mim mais do que a mim. Isto é um sonho para mim. Cada vez sonho mais. Um dia não vou despertar, apenas amar.

Sem o viver de Deus

Começou Deus na solidão. Levo para o túmulo a dor como ninguém aceita chorar. Aceito chorar. Ficar sem o viver de Deus e Deus veio a mim sem eu esperar. Túmulos me fazem reagir. Os mortos vivem para Deus e eu não posso apenas em Deus me amar. Sou feliz.

Desistir

Qual alma se mostra como alma? A ideia de existir é fazer da alma a incompetência do amor. Deficiências de um corpo torna a alma capaz das extremidades do amor que, suando na alma, desliza o céu. O amor espera por um céu que dure como amor. A vida assim faltaria de tanto amor. Amar é a dificuldade de viver. Me apego ao amor como se o amor fosse o resto da vida, o resto de mim, vazando a liberdade. O dia grita seu amor. Nada silencia o amor. Sou fugitiva do medo de mim, do que existir. Mesmo assim escrevo na solidão. Parece ser coragem. É desistência. Nesse desistir, nada sentiram. Me veem como sempre: só.

Maturidade

A maturidade é afastamento. O afastar são caminhos que levam o partir para o interior da vida. Palavras não têm interior de tanta transparência, sinceridade. Falta é verdade sem ausência, é o absoluto do ficar. O peso da dor traz paz na leveza de lembrar. Cada perda me fortalece em cinzas de algodão de flores. Flores são mãos de Deus. Sou o sonho de não existir. Alegria de uma despedida é viver os pedaços que faltam e esquecer o que tenho. Diminuir meu ser por amor. Sinto o que poderia viver e desisti. A maturidade de morrer é suspirar por mim, como uma rosa machucada pelo respirar das minhas mãos geladas de vida. É tão intensa a vida na dor da eternidade que não tem quando nem agora no céu. Por isso, inspiro a eternidade no pouco de mim.