Blog da Liz de Sá Cavalcante

Remendar os olhos

Olhos se desatam em estrelas. Brinco com o tempo como uma fada. Alma, sou teus olhos, teu último suspiro. A vida é o meu momento de não ser. O cheiro é memória, o resto são lembranças. Como vou lembrar da lembrança se ela é tudo para mim? Lembranças são flores a despetalar a vida. Nada é o olhar da imensidão que sorri dentro do exterior. Nada por dentro. Por dentro apenas o amanhecer está dentro de mim. O que não resta nunca existiu. Tomada pela vida, pelo ar do olhar. O desespero de querer olhar para sempre o que amo, como lembrança do céu.

Amor

Encontros são desencontros que terminam na vida e na morte, na fidelidade de um abraço. Sorrir é amanhecer. Demorou. Minha fala se entrega a mim no que sou. Sou para a fala o que ela é para mim. Sem fugir, contamos tudo uma para a outra. Não precisa de alma para amar, precisa de sinceridade além de nós, até no que não se sente. O que sinto é mais essencial do que o que não sinto? Chorar será nada sentir senão uma pausa desejada como sendo a alma do amor? Se eu puser o amor nas estrelas, ele não se perde mais. O brilho do olhar é mais que o sol, que a vida, mais do que eternidade: é morar em mim.

Única coisa viva

A saudade de ser, conversar é aberta à vida. É a única coisa viva na vida. Não ser um objeto nas suas mãos, vida, é faltar a mim. Quero ser livre. Amor é uma superfície que afunda. Encontrar é morrer. Minhas mãos não cabem na poesia. Poesia é um rastro de luz no respirar sem destino, sem o ser. Cada nascer é um ser entre a ausência e a dor. Nunca vi ausência tão vista como a ausência de morte. Voar em estrelas sem precisar de imensidão. Sonhar é partir as estrelas ao meio para sonhar só, como nuvem que passa. Ver o espelho como a falta de mim é esperança de Deus. Deus é angústia do nada no sol de estrelas. A estrela desmaia em mim. Por isso, às vezes, fico triste, como se não pudesse pertencer ao nada. O que o nada vê em mim? A ternura do amanhecer no teu sorrir quando pensa em algo. Te amo, saudade. Saudade, eu quero tua alegria, o teu amor. Você é essencial à vida, ao amor, à poesia, mas nunca na minha dor. Amo como cai a chuva, como dorme o vento e o sol varrer o amanhecer. Pétalas de lágrimas. Sonhar é não precisar de nada. O nada nasce dos escombros da mente. Tentei esquecer o nada na fome de morrer. Morrer é pertencer à vida.

Fidelidade

Apenas o nada é meu interior, minha calma. O nada sabe quem sou. Eu, viva ou morta, o nada não muda, é impossível. O nada é permanência, é a ausência de falta na vida. Nada é constante sem meu amor. O que sobra não fica para sempre e o que se foi, a alma, fica para sempre. E esse ficar é o morrer. Nadar em céus vazios, suporte da alma. É a emoção que dura. Nada tem a fidelidade de um adeus. Nesse momento sou o adeus do meu adeus. Nada é como poder dizer adeus. E, enfim, sorrio para o vazio. Sei que há um amanhã.

A falta de um adeus é o passado

O desinteresse é falta do adeus, do passado, do eu anterior ao meu eu anterior. Queria ainda tê-lo um pouco na saudade de mim para destravar a falta e apenas amar. Já consigo amar a falta de mim. Desaparecer no amor além da aparência, além do céu, céu de entranhas, lazer da alma. Alma é acordar para a vida. Fumar a vida no mar que agoniza só. Vai em paz, amor. Preciso é do meu amor, seja na poesia, seja em mim. Me visto de conversas infinitas, de lembranças onde há lembrança, onde há vida, onde há eternidade.

Dar meu amor à gratidão de mim

A gratidão de mim merece mais o meu amor do que eu. Acabou com o meu ver, minha aflição com a esperança do meu amor. Estou onde sempre estive: sem você. Sonhar de chorar e ser a imensidão do mundo para ter o ver em mim da forma que amo. Haja imensidão.

Misturar

Misturar é separar o céu da boca da voz, de mim. O que ficou da minha pele não é dor nem vazio, nem morte. É mágoa de nascer. Ao menos escrevo para viver, ou tentar viver. Fazer de conta que tudo é normal. Normal apenas a morte.

Me desligar

Me desligo no ar. Solta, leve, como se não importasse o que sinto, apenas essa leveza insustentável do ser, pairando no ar. Responsabilidade de viver. Apenas um olhar muda a vida, o meu ser. Viver é cuidar de mim. Só, não há desamparo. Só não é ser triste. A distância das pessoas é a vida. A alma estranha a mim é como amanhecer por inteiro. Sou eu, não sinto o agora, o ontem. Sinto a mim esquecendo o tempo, a vida num lapso de ser. A memória é o amor. A desconstrução leva o tempo de que o amor precisa. Será que meu olhar assusta a alma? O que deve a alma ao amor? Sua vida? O vento é a única realidade. Lampejo da morte na escuridão dos meus olhos abertos. Escrevo olhos fechados na luz da alma. O olhar dá um fim à vida. Declama o fim como o começo de viver.

Insensibilidade

Além do ser, existe o ser depois do ser eu, depois de mim. O desamor depois do desamor. A falta de poesia, depois a morte. E assim o insensível se torna comum em mentes vazias. Tudo morre, tudo é céu, e assim esqueço a poesia que fui para morrer de mim mesma. Ser paciente com a morte e que meus sonhos não foram em vão. Algo se fez amar, sentir, pensar pelos meus sonhos. E isso foi tudo para mim.

Ânimo

Enxergo o silêncio para esquecer minha voz no amor do silêncio. Quero cuidar do céu, da minha verdade, mesmo desanimada. Não vou viver o teu viver. Cada passo me faz andar. Andar no viver faz cair o céu nas flores. Secando o mar nas palavras que Deus me diz ao dormir. Deus é a essência de viver quando o meu olhar estranha minha solidão, minhas palavras, minha alma, meu adeus por querer viver no que não sente. Para sentir a poesia, tem que entrar na alma, tem que abençoar, louvar as palavras, deixá-las dormir e despertar em vocês a cura, o vento, a liberdade de ser vocês para a minha poesia. Isto é liberdade.