É cedo o nascer como se o nascer fosse sol. O olhar é cedo para a alma. A alma é o fisiológico do olhar. É natural perder o olhar, como quem chama por alguém. E se meu olhar for esse alguém? Amar é lutar. Prolongar-se sem a vida. Viver o que a vida não vive, sentir o sabor que a vida não vive. Algo a mais é objeto do meu ser: a morte. A morte é mínima. Por isso dá medo. Sem a morte não há a luta. Morte é se desdobrar sendo duas pessoas: a que ama e a que sofre. Sofrer é aptidão para ser. Ser é multiplicar-me mais que o universo. É ser particularmente minha nos outros sem me perder. Isto é ser. Ficar no céu é nunca viver. Vivências excluem o ser no céu. Maravilhas são palavras de amor no coração em quem não pode ouvir, nem com um abraço. Memórias são o vento. O vento se comporta como alma, mas não é alma. Amar não é comportamento, é sentir e transformar o amor em dar a vida às pessoas, o que elas merecem: isso é amor. A necessidade de amar é irreversível. A vida é reversível onde o céu se esconde. Deixa vir na volta de Deus. A vida pode ser um sonho, ou eu a sofrer. Tudo significa tudo. A ambivalência é Deus. Mostro a vida, o Deus que existe no meu amor, inseparável da morte. Para cortar o cordão umbilical do meu amor, apenas me matando. Tenho muita vida a viver, mas vou morrer. Como um sonho no talvez de mim. Vibram os meus ossos para não quebrar de amor. Os ossos vão além do corpo sem revelar nada. Nada é falível, nem a morte. O silêncio é o monstro de um olhar. É assustador o nada. Sensatez é morrer como uma gota de água na escuridão do finito. É desmembrar o amor. Amar pelo menos até o amanhecer no chão. Ruir o mar para ter mar num equilíbrio ausente, que é equilíbrio de paz, como nada perturba a morte. Morte é paz, sobreviver. A vida é um louvor à morte, um adeus que ninguém compreende, mas é um bem.
