Blog da Liz de Sá Cavalcante

Arvoredo de poesias

Poesia é fazer da reflexão amor. Melhorar a vida, cantar no sol e ter chuva em mim. Encantar e desencantar para o encanto ser maior. Maior do que viver. O que deve ser Deus é mais do que Deus. O artificial do corpo apreende a alma no natural. A alma se aprimora. A alma vivencia a ausência como corpo do espírito. É um respeito à alma. Não respeitam ser. O que sol tem. O mesmo brilho que o ser. Entre o que é, é, pois existe apenas uma vez. Se o transbordar é dor, a pele respira meu ar. Sou o ar da pele, da falta da ausência da voz que expressa o valor do nada e o nada é minha voz se sobressaindo de mim e concretizando o nascer, nascendo-me subjetivo no sufocamento.

Existo

O som da alma, no nada existir, descreve a inexistência na surdez do som da alma no córrego do amor. Sentir é me atravessar, é correr no fundo do abismo de mim. É encontrar minhas pernas no abismo. Ando, corro, mas não fico de pé. O ser humano cria como se fosse Deus. Criar é renunciar a aparecer e aparecer apenas no amor. A subjetividade é o lar da alma do mar, de ter a beleza da vida sem ver. É por compreender que nada é mais concreto que Deus, que nada existe para mim. Eu existo.

Implícito

A alma, implícita. Por isso não é vazia. Sempre retorno a mim pela alma. Sem a alma, a eternidade vazia é cobrir o sol na ternura do amanhecer. A saudade é a falta de morrer de amor. O nada se diz ser. Eu sou amor. O que digo é o que sou. Pode a vida mudar, eu não mudo. A surdez da alma é a minha voz. A vida não tem rumo. Eu sou a bússola da vida. Sinto-me incompatível com a vida, mas sobrevivo ao viver. Escrevo as renúncias da vida como se elas ainda existissem.

Sopro

Reter o céu na lua com a morte reinando como um sopro. A intermitência da morte é a vida. Eu sou o amanhecer vital para o amanhecer. Amo no absorver da pele, um apelo ao nada. Sentir o nada é vida. Sentir mata e ressuscita o amor. Eu sou o que fazem de mim? O que o ser ama é diferente do eu. Deixo a lua me levar para um eu apenas meu. A riqueza espiritual é uma dádiva de Deus e eu a contemplar Deus.

Superação

Superar a morte, a dor, o aparato da morte. Superar a mim. Olhos nos meus olhos e morro de desgosto. Eu não preciso de mim. Vou morrendo, disposta a amar. Eu a volver a vida resgato-a no exato momento em que morri.

Espírito do sorrir

O espírito é o meu fim. Continuo em espírito. O que se tem da alma é a perda da morte. Perda é infinito. Escapar da alma é encontrar meu sorrir. O que é externado no dia é a falta da tua. Falta saudade: pior que morrer. Se não tem alma, vida, deixe-me ter vida. A descoberta é que nada sente, é. Não é preciso descobrir grande coisa para amar, basta amar. Esvaziar o vazio é amor? O que é esvaziar o vazio? Conter-se na alma de tanto amor. Anuviar a morte de brilho e obscurecer a alma de vários eus. De amor, se vive sem respirar faz, do nada, tudo. Eu reinicio Deus com palavras. Minhas palavras curam a alma. Vê-se no outro, deixando a pele sair como espelho da minha dor. E o meu corpo falece por ver o outro. Uns são amor, outros não. O espírito de sorrir é morrer como sou, sem deixar nada para trás. Morri sendo amada e meu amor não se perdeu entre a vida e a morte. Basta sentir. Ainda estou viva de alguma forma. Este é o sorrir do meu espírito.

Essência

Eu, sentida como o movimento da vida: a poesia. Mais poesia menos vida. O corpo é uma capa, onde não me vejo. O olhar escapa, é a própria poesia num estado temporário além de mim. Escrevo para não ser. Ser e poesia são incompatíveis na alma. Eu não posso me dar à poesia: ela sou eu. O ser não pode perder a si. Essa é minha dor, minha maneira de não ser eu. Posso esquecer de mim na minha essência.

Aparência

Eu tenho aparência apenas na morte. A morte me deu aparências para desaparecer. Eu me vejo no meu desaparecer

Retidão

Nem a solidão é só. Deus não precisa ser Deus. Deus ama sem interior. Sem o fim, não existe vida. A retidão é morrer. Separar-se da morte é morrer. O sol do dia se apaixona pela morte entre paredes de sonho. O dia faz parte da morte: nobreza do amor. Gravo minha pele, minhas memórias. Perco o chão, não tenho respirar sem chão. Não quero flutuar em sonhos exaustos de mim. Perco todo dia a vida. Respirar o vento, a paz. Paz é agir. Não sei quando é morte, ou vida. Sei que a retidão é um consolo, um respeito a Deus. Nem sei se algo perturba em amar. Fico absorvida de amor. O tempo é escolha, uma vida inteira de caderno de sonhos. O que morre apenas sacode o vento. É o fim da morte para viver uma ilusão. Deserto infinito de amor. Profundidade não se cria, flui localizar o que sinto, não consigo. Sinto apenas o vazio. Realizo-me sem lembranças do vazio, do abandono que sofri. Não existe ausência quando há dor. Dor que não sai de mim. Viver é estranho. Nada em mim me tem, nem eu mesma. Quero que a luz do céu me tenha. Deus me tenha. Eu não suporto olhar o desamor. Verei o que é amor. Pelo dia que se esconde de mim na avalanche do meu amor. Eu durmo o teu sono, vida, e percebi que não existe o despertar.

Desfazer

Desfazer o mar em amor, cobrir o tempo na ternura amanhecida. Nada amanhece porque tem que ser, amanhece de amor. Por isso a inconsciência da vida. A vida se vê em mim, confio na inconsciência. O que posso fazer pelo amor? Nada. Apenas amar. A vontade é um desprazer voluntário de ser, é a timidez do dia perante a alma. A alma se faz dia e o dia na poesia da alma. Quer saber apenas de mim. Meu corpo são todos os corpos para compor Deus num amor humano. É assim que lembro de Deus como um de nós em igualdade de amor. Amor é feliz no estranho de amar: perder Deus para a morte é como me perder, morrer. Deus me dá a paz infinita de abraçá-lo com minha solidão. Ele me dá seu corpo, sua vida, sua história, seu adeus e a alegria sobre a memória de Deus quando nada mais é para lembrar. Vida vazia num Deus constante. É como me aparecer em Deus. Deus é a aceitação da vida. Deus é o destino na sua solidão. Ver é chegar perto do destino de Deus. Deus não supera a solidão. Deus nasceu da solidão de Jesus. Palavra por palavra, o desaparecer se torna respirar. Respirar é a pele no movimento, movimento de um Deus que é uma pele dentro da pele do coração. A impressão de um Deus que ajuda entre sol e brisa. A vida vai além do que é, uma superfície funda. É o nada de ver. Ver é não me absorver. Ficar é dizer que está com Deus. A paisagem são os dedos de Deus a se perder dentro de mim, nos meus cabelos de ondas, em voltas do mar. Sem os dedos de Deus, perco meu corpo, como dedos de Deus. Levanto-me de Deus e seguro suas mãos num sorrir que desanima, que me faz segurar as mãos de Deus e me esquecer em Deus.