Blog da Liz de Sá Cavalcante

Calvário

Soluços abafados pela morte. Sonhos em vão, resina sem olhos. Calvário saciado em conversa. Almas em ventos de explosão, céu de fragilidade, risos de fragilidade de morte, saudade do céu, de viver, nem que seja no céu. Sou calvário da alegria das pessoas.

Explicação

A morte não se explica nem na morte.

Saindo

Encontrar a existência é deixar o corpo ir, a pele sair de mim. Empresto-me à existência.

Força

Minha força é mais que um corpo, é mais que divina, é o vento dentro de mim. O som ardendo e ardendo na pele é meu sorrir a me cativar sem a poesia me sorrir.

De luz

Ninguém sabe o que é pensar, se colocar no lugar dos outros. Não acredito na luz que eu vejo. Por isso morri de luz.

Quem sabe?

Quem sabe existia outra vida onde eu exista. Tento existir. Não dá para ferir meu pensamento, apenas meu amor. Nada vive do meu amor. Eu vivo do amor dos outros. Reveste-me por inteiro, me imagina nas minhas poesias depois vê se consegue me esquecer.

Lucidez

Quem sabe morrer de sofrer como eu ao menos escreve. Eu revivi o sonho de infância me imaginando pequena para mim. Tudo sempre é para o que os outros pensam, não sou eu. Sempre espero muito dos outros e recebo pouco. Vivo num mundo apenas meu. A distância já se torna comum. Eu nunca serei ouvida, mas hoje tento, desfio-me em alma. Tenho que ser apenas. Poesias minhas são apenas varridas no vento. Eu queria apenas ser aceita. Faço o melhor. É pouco, é nada. Quero desaparecer no adeus de Deus, no meu. Sinto-me despencar nas trevas dos outros. Decepção é morte. Nunca mais é como antes. Tudo é incomunicável, como a leveza da morte. Solidão me torna lúcida. Não combino com o vazio das pessoas. O tempo passa, o vazio passa, fica a lucidez, uma lembrança do que devia ser boa. Me achei sem conversa. Amor substitui o sonho. Eu, para existir, falo só. Nem a realidade escuta. Injustiça, sofro tanto. Eu me entendo num olhar, no falar, no viver. Por isso, não aceito engolir palavras de amor. Dance nas minhas palavras. Uso até o corpo para tentar falar. Estou desamparada como a água, o fogo, o ar. E vou nesta busca de mim, de amor. Que fala amor? Amor, quando se fala, o universo se abre. Há mais mundos, mais alegria, amor. As marcas, dor, acabam num amor incondicional.

Decepção

As decepções me tornam eu, mesmo triste. Aprendo com as decepções. Não quero ser melhor. Sou justa com as verdades, encaro-as. Vivo porque algo inacessível. É possível meu sofrer. Reprimo a morte. Ainda não estou impossibilitada de viver.

Sensibilidade

Preciso de um pouco de sensibilidade, de que não me decepcionem. Não interfiro meu olhar, meu sentir, mas é tudo que tenho para amar mesmo sem credibilidade. A minha voz me escuta, me faz me ver. Eu existo ao menos para mim. Me emociona minha verdade. Ao menos ainda sou minha, sou injustiçada no desamor. Vivo ainda na verdade, mesmo se morresse por isso. Ninguém tem o direito de me denegrir. Não vou deixar minha verdade partir. Ela é fiel a mim até na morte. Eu era vida até a incompreensão dos outros. Isso me faz morrer.

Despedida

Lágrimas supõem uma vida que nunca existiu, nunca houve. Então, para que chorar? Não existe vida onde não existe verdade, amor, sentimento.