Blog da Liz de Sá Cavalcante

Estremecer

Estremeço sem morrer; isso é privilégio de ser poesia. Ser poesia é desistir de tudo, menos do amor. O sonho vem como amor reprimido, onde os abraços são sonhos que nunca existiram concretamente. Nada quero de mim. O inesquecível é esse estremecer infinito, que traz o céu para perto. E o destino sou eu, por uma janela imaginária, a me defender do mundo: o meu amor.

O sonho é o sofrer de Deus

Em cada sonho fica um pouco do ser agora destroçado, mesmo que Deus não conheça meus sonhos de morrer. Estou viva, presa no anzol da dor, vivendo de dor. Meus sonhos continuam sem mim; não me conformo em lutar. Dentro de mim, a alma nasce só, vive só, morre só. E o sol nasce como lua, como semente que não germinou. Minha alma se separa do sol. Eu não consigo. O descontrole do amanhã se pune pelo amor do anoitecer, que dura mais do que a eternidade, com que todos veem e convivem.

A espera de ver já é ver

Ver o inexplorado da alma não é desvendar a alma, é deixar minha alma para Deus. Assim, me sentirei forte em fogo do céu. O céu não é suficiente para Deus. O céu é apenas confiança em Deus, não é Deus. Escrever é observar Deus. Dentro de Deus nada precisa tanto quanto preciso de Deus. Deus é meus olhos e meu amor por mim. Posso ser feliz apenas em Deus. Por Deus, mesmo no fim do céu, a saudade é apenas consciência.

Antes de viver

Antes de viver, quero ser eu para me desfazer do amor. Tudo que tive foi a minha inexistência, como a secura do mar mesmo cheio. O tempo tem fim no amor, como resposta ao silêncio de Deus nas minhas poesias. Não existe enxerto para o amor, para a alma. Para o meu ser, existe a sublimação de um silêncio de morte que nunca será meu amor. O tempo de escrever é antes e depois de mim. O amor precisa de palavras. Depois de mim, haverá novas palavras e ficarei só, como o nascer da vida.

Desprezo

O ser que falta na minha própria vida é o meu ser. Nem teu desprezo me fez ser. Ser é uma decepção. Não há nada no ser nem lembrança. Como enganar o amor que ama? Eu amo até o fim. O que sabe do meu amor? Nada! Ver o que ninguém vê. É o absoluto.

Sorrir

O sorrir desencontra a vida. E o sol é um sorrir. Sorrir triste nunca é luz. A minha luz vem da minha consciência. Minha luz existe na minha consciência. Como se eu pudesse ter uma alma a dançar, fazendo-me feliz e fazendo meu coração dançar nela. Com ela, o tempo não volta mais; minha alma não me deixa. É como um dia sem vida, em que sou minha vida e o meu adeus. O sonho de luz é aceitar o fim. A minha morte cessa num sonho. Não se pode maltratar sonho apenas por morrer. Delira e sofrer não trazem sonho de volta. Sonhei uma única vez, e era a minha morte, não era sonho.

Divisão

A tripurficação da alma é o vazio, mas sem alma não se divide. Os mortos se dividem em suas mortes. Por mais que demore, os mortos refazem suas vidas sem as viver. Existe defesa para os mortos: suas dores. Cada dor supera o amor num estado de vazio. Não adianta nem morrer.

A necessidade do eterno de ter um fim

Meu fim é tão essencial que para mim é tudo. O eterno quer o fim para ser lembrado. Eu quero o fim para ser esquecida no colo da minha dor. O fim sem alma não é o fim, é o espírito da vida: como a vida num último céu de esperança, que existe sem o nascer do sol, como um mundo que foi esquecido por tudo e lembrado pelo sol. A falta de esperança nasce da minha morte, mas minhas poesias estão vivas: são a única certeza para mim, que um dia eu vivi.

Diante de ti

Diante de ti já morri, e o tempo foi apenas um desabafo, uma maneira de esconder o seu desamor por mim, como uma sombra a me separar do sol, da vida, da esperança de conseguir apenas ser só.

Meu trabalho é a vida

Poesia é o meu coração que não vive mais. Era o meu trabalho. Agora, eu sou a memória da vida e sinto que eu era tudo que a vida era e tinha na minha vida. Sonhar é Deus ser mais que Deus. Agora, tenho apenas as palavras como companhia. Nunca as ouvi, as sinto no meu amor. Meu amor é Deus.