Blog da Liz de Sá Cavalcante

O útero da vida

Quero ser eu apenas no útero da vida. Ficar lá, sem sair de lá. O útero é o desejo da saudade que devia ter  da vida. O céu é o de repente encarnar em mim, mas há anjos na vida, que não se importam com a maldade das pessoas. Eu sou um útero, seco de poesias. Poesia não é maldade, é apenas esquecimento. Às vezes, esquecer é salvação. Falsidade é um abismo no desespero da vida. Ao conter a alma, sentir o melhor, o bem. O bem é a eternidade humana. O sorrir é alma. Destruir a alma me faz ser dona da minha morte? Morrer é o desespero no desespero. O sofrimento une a ingratidão da vida com o seu amor. Agradeço. Sempre venço a vida. E eu, sendo um útero seco, solitário, vai me ajudar.

Consideração em viver

A vida não precisa viver, sofrer, precisa apenas estar em nós, na mudez do amor. Saudade é falta de amor? É o amor sobrevivendo ao amor. Nada sentir, é deixar de morrer e viver. Primeiro se morre, depois se vive.

Acordar

O amor recuperado na náusea de viver sente o acordar da flor. Acordar dormindo. Ser o único amor que faz falar dormindo. Falar é ter mais encanto do que a flor, que fala pelo perfume, pela essência. Eu falo pela existência.

Tudo passa

Nada traz o sofrer. O sofrer não engana. A vida não fica na vida. O amor continua. Tudo passa sem amor. O amor é uma alma destruída, é o respirar da vida, é o sentimento da vida. O nascer do nada é como se vive a vida. O estagnar do ser é o ser. Ninguém reage, ninguém que ser um ser. Ser é um retalho rasgado. O mundo é falta de retalhos. A vida não sente o que o ser fez com ela. Nada se sente no sentimento. O sentir é esquecer a minha eternidade de ser.

Lâmina

O sofrimento não é o sofrimento, é a lâmina a entrar na poesia como se fosse o corpo do adeus, como se fosse morte. A luz da morte é o horizonte se dando ao nada, ao ser da vida. Ser a margem de mim em dedos que sufocam as minhas mãos, deformam meu corpo em almas doentes dentro de um corpo saudável. Ser evita a morte dentro do corpo de Deus. Deus é a maneira de retribuir a morte. Nada se fala na vida. Deus é tentar reaver a inexistência com flores, como laço eterno. Desenlaçar solidão no tremer do amor, que ama, ama, ama até o fim. Nessa alma, o sussurrar encanta a poesia e fez, do céu, Deus. Sussurrar sangue é o cheiro de Deus. Deus pode com a maldade sem o que me faz ser. Estou a voar no vento. O tempo não acaba. A memória é o recolher do vento, do Sol, como uma alma sem respirar. Nada se parte no vazio e sim no ser. Ser é a metade do vazio num único querer. O que falta no desejo? O ser. Na ausência, o desejo é o amor por mim. A alma mexe na morte com mãos que escorregam na morte e sente falta de mim. Não suportar a vida, suportar a vida em mim, sem mundo, são palavras. Sonhar. Eu amo o sonho como se fosse eu. No sofrer, as coisas são possíveis sem a lucidez de um único instante. No renovar a alma, o céu se bloqueia. Há épocas em que desaparecer é o tempo que me falta. Nada sente falta, nem a falta. Sofrer é nadificar Deus, é escrever meu não existir, como se existisse.

Flores de vida

Sonhos despedaçam flores. Flores fazem nascer os sonhos. Sentir floresce as flores. O cessar das flores é o anoitecer da alma. As mãos de Deus são flores eternas sem saber. As flores se emendam e resgatam meu amor. Separar as flores do Sol é aprender a cantar a vida como duas almas que se unem numa lealdade ao amor.

Ar de vida

A vida é a distância que me separa da realidade. O pior de mim é amar demais. Sonhar e transcender o amor numa imagem que não pode ser refeita. A única imagem é Deus. Vejo em Deus o ser que existe em mim. O amor atravessa a alma. A alma é a falta de Deus. Um Deus sem espírito, no puro ar, que precisa ser esquecido no mar, nas palavras, no adeus.

O amor é o meu ser

Posso morrer, mas o meu amor sempre será meu ser. Não existe imagem no amor. O amor é a imaginação do espírito a criar a vida, amor. Apareço para o amor sem imagem. Ele me reconhece pelo silêncio da dor, pelo barulho do meu coração de tanto amar, morrer de amor. O coração, perco, o amor, jamais. A alma é um disfarce do amor. O amor é melhor sem alma, puro, despido de expectativa. Meu amor não me sente, não se sente bem em mim. Ser para ser, entra dentro do nada, nunca sai. Completa-se no nada, vive pelo nada, ama pelo nada. Se eu pudesse ser o nada, seria privilegiada, feliz. Veria a vida como nunca vi, como ninguém consegue ver. A consciência é a vida de Deus. deus se sonha, onde ninguém ama, ninguém cresce, amadurece. Por isso cresce apenas. Deus, em todos os instantes em que perco algo. Deus se dá a mim, até nas minhas poesias, na minha morte, renascendo para mim. O que fazer para conseguir ser eu? Me envolver em todo mar sem consciência, coração, espírito. Ir em mar, em poesias. Sentir o mar como uma rocha, devolver o mar para o céu do mar. Saber como se vê, como um não saber.

Inconsciência

A consciência é perda de mim. Não percebo, eu não sou eterna. Minha consciência continua num coração de névoa. A consciência é não viver. Não existe lugar, amor na consciência, nem num abraço. O que falta à consciência é viver, é a consciência se arrumar como consciência. Não há consciência em Deus: Deus ama esse amor, não necessita de consciência. Deixo minhas poesias serem Deus, se é para não pensar.

Procura

Não sei o que me falta, por isso tenho interior. Mas, no fundo, a falta é apenas procura e o fim da procura é amor. O sonho, o ser, afunda a alma para ter amor. Fazer o sonho não é o mesmo que ter sonhos. Sonho vem de dentro, nunca acaba, e, mesmo assim, outros sonhos virão, diferentes, não com o mesmo valor. O sentido de ser acaba quando ele é amado, pois o amor tem fim. O amor é o sustentáculo da alma e a inexistência. O infinito da alma.