Blog da Liz de Sá Cavalcante

Amei mais do que a mim mesma

O que resta do amor? Os pássaros voando, as árvores balançando e os sonhos de cada dia tão inúteis quanto o sol, que não faz anoitecer. Deixar de amar é um ato de amor. O silêncio é um fim inacreditável. Às vezes, as palavras e o amor são desnecessários.

Suspirar

A vontade de escrever é sem fim. Sempre vou suspirar. A vida é um suspiro sem alma. Escrever é um suspiro sem alma. Suspiro como se estivesse escrevendo, como se estivesse viva.

Quem tem amor?

Quem tem amor não tem adeus. Morre como um cimento que precisa ter no chão. Vai se acabando o amor, fica o vazio da vida a estremecer a minha morte, a me degradar até minha morte.

Súplica

Me sinto melhor se morrer, mas Deus é surdo, não escuta a minha súplica. Meu erro foi amar demais, como um sol que não acende a luz. Ser amparada pela morte é mais que ser feliz. A súplica vira adeus e se torna esquecimento. É como se minha alma tivesse partido sem mim.

A tristeza é a minha eternidade

Quero ter em mim a alma de todos os que amam, assim tudo vive de amor.

O sonho eterno é nunca abrir os olhos na alma, o vazio diz apenas adeus em um sonho que ninguém pode me dar.

É um adeus em um sonho que ninguém pode me dar.
É um adeus no espírito, onde minha alma segura minha mão, no sempre de mim.

O nada do nada

Meus olhos nos olhos do nada me fazem viver como uma chuva de sol. O sol e os olhos do nada a definir a vida como querem, não como a vida tem de ser. O sofrer é o tempo de não ver a mim mesma. Ver a mim mesma nos olhos da morte e me identificar com perdas que penso serem da minha morte. Queria parar de sonhar que não existo. Por isso, meu passado não existe. O próprio sonho acabou com o sonho, como se a poeira fosse vento. Apenas a morte pode abençoar minha alma na retidão de sofrer, como uma voz inexistente que se escuta além da alma, no fundo do poço de um espírito sem palavras. O silêncio murmura o nada e, assim, na escuridão, vi a morte da morte em mim. E me senti alguém para mim, não era eu, era apenas morte.

Viva por mim

Solidão, viva por mim.

Meu corpo, meu ar, minha alma.

Meu ar não se aflige nem com minha morte.

O ser não é em si mesmo; por isso, morre.

Morrer vem da ilusão de viver: vale mais que a vida. Por isso, solidão viva por mim.

Presença

Morta, não posso ser ausente:
minha presença é tua alma.
O que sinto na minha alma
não sinto quando estou viva.

Dores que consolam

Vivo pelas faltas, não há como ignorar as faltas, são a vida. Me surpreende mais sem morrer. O amor é um precipício no fim do mar. Isto é o fim da saudade eterna. A angústia é uma saudade morta. A eternidade não tem amor. O que tem de eterno na eternidade é o ser. A alma não é eterna, é uma saudade que não existe. O amanhã é incompleto sem o ser. O medo da solidão não me deixa só. O que se consome na perda, mesmo sem alma, sem espírito. É o meu respirar a cantar. No melhor de mim, que é mais do que alma, espírito, sou eu. A alma limpa o tempo das impurezas do tempo. Sopra o ar, como se o céu fosse seu. O céu é matéria do corpo. A falta de ar é o ar da alma. Dores se consolam. Por isso, apenas sonho.

A eternidade do fim

A eternidade do fim desaparece na solidão de uma estrela.
Não é preciso existir se eu me nadifico,
não sentirei mais falta de mim.
Minha ausência e todo o meu ser são apenas meus.
A ausência supera a inexistência, a morte, o prazer eterno.
A ausência do amanhecer é palavra eterna
que se torna o coração da vida.