Blog da Liz de Sá Cavalcante

Consolar

Estar no deserto é como ter todas as palavras numa mudez de plenitude. Arrancar  garganta no silêncio da dor, da última palavra. Viver: isto é o fim de todos, começo do nada.

Filha de mim

Nasci filha de mim. Nasci de mim, mas não sou poesia, nem amor. Apenas sou filha de mim. Posso estar desabafando minhas carências, posso estar sonhando. O que importa é ser eu. A vida me promete tudo, não cumpre. Posso tirar meu corpo, minha alma, minhas poesias, meus sonhos sempre serão meus. Por isso não posso ir adiante. Palavras são apenas corpos mortos, novas vidas. Mas nascer é sempre um nascer, mesmo que eu o perca, que eu morra. Sempre existe em mim.

O pouco ser

Levanto o céu nas estrelas, pois assim devia estar. Sou caderno, caneta e alma, sem descer do céu da tua dor da minha dor, vida. Fico despida, vulnerável para ti. A realidade são memórias. Existo apenas na escuridão. Nem na escuridão encontro Deus, senão não seria só. O que é morrer, ser só, senão ser eu? Falar é morrer sem ser ouvida. Vou para onde for minha fala. Morrer para lembrar. Flores culminam a alma para levar as minhas mãos como sonhos. O pouco é muito. Ver é formal. Ver minha falta de identidade. O que me inspiro não é inspiração, é o ar secando. A lógica não tem cura. Cura sem corpo, alma, é o vazio. Submundos é o fim do vazio. Morte mostra o que tu és e a vida voltará, nem que seja para te abraçar.

Devia

Cada alma é uma pessoa que devia ser. Não me deixei só, apenas fui socorrida no tempo. Deixei a alma na sua lembrança e ela amou estar só, como um sol que se pôs só e flui solidão como quem tem mãos para ser só.

Lembrança

Não sei de mim. Quando durmo, sei de mim. No despertar, me desperto. Sei de mim agora, que amanhece, e esqueço de mim, como um pássaro que voa longe e retorna entre tantos véus, segredos, insônia. Não posso falar que sofro. Tenho que deixar o amanhecer da minha falta e viver por mim. O fim foi tudo que vivi e não esqueci.

Fumaça de amor

Fumaças do amor em tempos inglórios. A alma é o tempo, o amor que não tenho me mostrou que não existe glória, sucesso. O amor se foi há muito tempo nos meus braços, não o senti partir, mas em mim.

O poder do sonho

Sonhar...

A imaginação é Deus sem me sentir? Vejo a inspiração em ver a alma, como um colo numa intimidade imediata. Aconchego é meu amor sendo demais para mim. Olho a alma, esqueço a vida, não como a alma e sim como morte. Amplio meu amor tanto que é inacessível, inexplicável até para mim. Parece um sonho de querer viver pela minha alma.

O sonho dentro de outro sonho

A morte é a luz dos meus olhos, do meu desespero da vida. Mas a luz não me faz morrer, faz-me ficar pensando. Luz onde não existem palavras e sim oração de um sonho dentro de outro sonho, que assim seja. Sonho por um sonho, onde dormirei em paz, no meu amor, sem o peso da alma, apenas eu em mim, com a certeza de despertar a cada instante, amando, vivendo, mesmo a dormir.

É viver

Eu não vou sobreviver à vida. O melhor da vida é deixá-la amando e sorrir pela primeira vez, como se descobrisse a vida num abandono, num amor descomunal. Isto é viver.

Lei da ausência

O olhar natural deixa de olhar, sente-se na vida. Mesmo excluído da vida, o olhar se sacrifica, impõe sua dor até conseguir viver. Crucifica-se pelo ser. Meu olhar não consegue ser do set. O ser não precisa dos olhos. Essa não é uma abstinência, é a lei natural da vida.