Sou pela vida que não existe. Me tornei um universo imaginário. É como se a única realidade fosse minhas mãos. Minhas mãos são minha alma, amor. A letargia do meu silêncio nunca será minhas poesias. O corpo acaba quando as mãos deixam de escrever. O universo não se compara a um dedo das minhas mãos. É mais que o universo, mais do que tudo que eu escrevi. Poesia é dormência da alma. A alma escondida na esperança de ninguém. Substitui o real. É te ver, amor, no meu amor. A coisa cria um sentido, torna-se um ser por amor. Meus cadernos, seres intactos de vida, têm mais vida, mais histórias, amor, que eu. Eu sei que minhas perdas não captam minhas poesias. O dia anda pelos passos das minhas poesias. Há tempos que minhas mãos duram por escrever. Não há nada entre a ausência e a vida, nem a poesia. Há apenas a coragem de respirar. Causa-me admiração respirar o vazio. Morrer tem que ser otimismo. Tenho que me dar à morte: isto é reagir. Tenho alma de adeus. Vivo no nada, no tudo. Nada torna o nada nada. O universo é a saudade que me resta noutra saudade, da falta do universo ter um interior. Daí poderia ter o universo como meu amor. Amor que sinto tão intensamente que parece vazio. Controlo meu amor com amor.
