Blog da Liz de Sá Cavalcante

Poros

Os poros da morte respiram minha inconsciência sem ser assustador. Tenho mágoas da morte. Brotam do que vivi e nunca vou viver. Saudade do que não viver como nódoas no meu corpo. Viver nódoas no meu corpo a cicatrizar a vida no meu corpo, no meu adeus de amor por mim.

Comigo

Me comunicar comigo no sublime silêncio do nada. Comigo o amor será a finitude de uma estrada na proximidade de nascer dentro de mim, onde o deserto incomunicável cessa minha ausência. Tropeço em lágrimas, fugindo da escuridão como berço a me embalar com o que não quis ser. Serrar meus ossos na seda da alma. Inverter a alma na distância de me sufocar. Sufoco-me em busca de poesias, atolada de ideias. Sinto o mar na ausência de mim, como se ele transportasse meu destino, que é minha voz. Como tirar o mar do chão do pensamento. Mergulho em mim nas diversidades do sentir, como se eu derretesse de mar e encontrasse o céu.

Calejada

Ofuscar o Sol no vazio na minha mão calejada. O que é do ser é apenas o mar metafísico da metafísica. Animar o corpo sem vida é entender com as mãos que curam, como um lago de esperança a se espalhar no mundo. Mundo do renascer das mãos que se afagam. Alma como a mim mesma sem nada me perguntar, apenas ser a brisa a me consumir. Vivo a inocência do adeus sem morte, sem dor.

Produzir vidas salvando a morte

Dolorida por cavar as minhas mãos enterradas sem mim. Construir almas como mãos, desativando almas em outras almas sem respirar poesias. Meu sacrifício de ficar com minhas poesias apenas em mim, como um rastro de pólvora. O que seria da vida ao anoitecer a dor? Ficam apenas as estrelas sem o vazio da alegria sem mim. Meu amor é uma floresta. Nada pode ter o espaço de uma estrela, aprisionada por flores. O abismo é ventilar o frio em mim. É assim, meu deserto do amor me segura nos braços da mãe da morte. Voltar à vida no desaparecer. Insistir na alma os meus pêsames à vida por tentar ver sem voltar à vida. Ver sem vida é o além sem o nada. É não me arrepender de morrer. O olhar não tem lados. É a direção do infinito, clareando a Deus, vivendo o que não posso viver. Não consigo sentir o passado como antes. Do passado, ficou a neblina. Não consigo ver nem por um adeus. Sei que meu olhar me tem, mas não vem a mim. Não por desamor, é por excesso de amor. Não estou só. Tenho em mim a saudade de ver.

Memória

Deixar o nada ser sagrado no meu coração partido é o nascer da memória. Abrir o deserto soprando meu amor. Fora fica dentro do nascer. A espontaneidade é chorar como o céu ardendo em mim. Mosaico do ar é o pressentimento que meu respirar refaz a eternidade. Não respiro ao escrever. Nada convence o ar da exaustão do esforço do ar. Para respirar basta amanhecer, e tudo se normaliza num respirar profundo. Respirar vai além da minha consciência. Consciência da memória é o eterno, é Deus. Respingar-me em céus que não duram é ter que procurar um novo céu. Uma nova morte sou eu cutucando-me por cima do meu corpo, onde não há vida no esplendor do nada. Numa cachoeira imaginária, no vazio de mim. Nada pode me costurar por dentro. Estou costurada por fora de mim. O fim é como brincadeira de viver no além do além. Morrer brincando é construir castelos de areia, mais indestrutíveis que a alma. O silêncio bordando palavras no inesquecível da poesia. Captar-me a memória é o inabalável do meu desabar. Tantas vidas são apenas memórias sem o tempo para lembrar: isto é o tempo de lembrar num fio de fé. Faço a vida nascer como se eu roubasse o céu para  mim. Sopro todas as velas para o ar ser silêncio. As velas reacendem minha alma como o mar. Transcendo o vazio na dor da vida esvaziada. É como ver minha esperança em um último olhar no infinito do amor descrente. Levar a alegria para a falta de esperança. É renúncia. É como perder o céu para o céu. Alegria não é o amor, mas pode se tornar. Por isso aproveito ser feliz como uma picada do infinito.

Miséria da alma

A miséria da alma entra no coração, desvia o tempo no nada. É triste o pensar da solidão. Ninguém pensa, sofre a solidão. Por isso, sou inconsolável. Sou inconsolável na memória de um adeus. Meu adeus me deu sua memória, sua vida, seu amor para não me perder.

Sentir a alma

Sentir a alma é um desafio, é plenitude, eternidade, amor. Me espalho nos espinhos das minhas entranhas. Remar no mar da saudade rumo a nada encontrar na minha amplidão. Reger o mar, para secar o mar. Ficar apenas com a minha saudade.

O olhar de Deus no céu

O olhar de Deus no céu é a distância de si, é ficar a se esperar. Faz dessa espera seu olhar, sua alma entranhada no corpo.

Transe

Transe é a alma no espírito, é notar a diferença entre o ser e o não ser, para poder me enviar ao nada, na suposição de uma alegria eterna. Frascos sonhando com meu perfume de poesia a dourar. O Sol é o ser, é apenas uma busca eterna para não ter nome. Todos são vocês, seja quem for. O perfume da poesia é a azia do mundo com cheiro de vida. Escrever é a inocência do passado de ainda ser eu. Meu corpo muda por mim, alma distante. Suas palavras são o silencio da vida a Deus. Montanhas escalando Deus no pensar, elevando o nada até Deus. A alma, um objeto para o espírito. Se o espírito for o inferno de Deus? O que sou sem Deus? Sem o auxílio. Preciso até aprender a falar. Emendada de poesia, perco-me em Deus, como o absoluto de mim. Quando olho meus olhos, escuto no olhar os aplausos de Deus.

Orvalho

Sentir eu sair da alma é um nascer sem vida. A alma sangra, apodrece. Não sai de mim e se sente sem mim. Pertencer a algo ou alguém é me tornar mais ser do que a alma. Lembro-me de ser na alma, remendos do nada. O que faria sem sentir, sonhar? Me tornaria o impossível. É mais fácil sentir o impossível do que a mim tornando-me impossível como o orvalho na minha voz de flor. Me engano em ser eu. Tudo termina em ser: o Sol, a vida, as estrelas, água de Sol desperta a minha sede. A sede são sobras do meu corpo, complemento da alma, onde meus sonhos cuidam de mim, como se eu fosse a alma dos meus sonhos. A diferença entre o sonho e o real sou eu. Percebo essa diferença, mas sinto a separação entre diferenças contínuas. Chamo-a de amor.