O nada me salva da morte. Perco a minha imagem como um dormir, como ausência. E a vida apenas repete os meus sonhos. Não parecem mais sonhos, parecem o fim. O meu fim.
Milagre |
MilagreO nada me salva da morte. Perco a minha imagem como um dormir, como ausência. E a vida apenas repete os meus sonhos. Não parecem mais sonhos, parecem o fim. O meu fim. |
DelicadezaNão há nada em viver: isso é delicadeza. Animar o nada. Viver o nada para salvar minha vida entre o céu e a terra. A morte no meu amor por morrer. Perdi a fala na fala, eu em mim. Solto-me em amarras. O meu coração não bate, silencia o silêncio. O silêncio é mais que amor, é mais do que Deus. Deus não silencia, fala. Tudo depende da fala. Sinto que tenho que desprender a fala da vida. O amor, às vezes, decepciona. O desencontro é o morrer da alma. Eu vi o inferno em alma. Amor, exílio da saudade. Amor é ser só. Nada é distante. Tudo é só. A distância é o fim da solidão. Sou eterna de solidão. |
O tempoNão dá tempo nem do silêncio para morrer. A morte não pode faltar. O tempo pode. A vida pode. Eu posso. O fim é o amor da indiferença por mim: na morte ou na vida. Sonhava com o tempo. Agora sei que é apenas morrer. |
Mundo interiorNo silêncio, não existe vida, existe mundo interior, existe o exterior: a vida que não tem mundo interior. A lembrança não é exterior, nem interior. É um não saber involuntário, onde se firma o amor. O inexorável da morte é amor. Parar o amor no amor é recuperar a vida, a dor. Parece que apenas eu sinto saudade. Saudade de correr para mim sem nenhum abraço, sem ninguém. Ser feliz por estar viva e o mundo interior. Aprecio como minha morte, como gratidão de uma estrela onde a falta de cada um se faz presença. Minha solidão. Ninguém me tira: minha única presença nesse adeus do amor. |
AlegriaUm sonho cessa noutro sonho. O nada é a alegria eterna. Deixar a brisa suave é como perder o sol para o céu. A mágoa, essência da vida. Desdobrar o corpo da morte. A palavra substitui o amor em suas verdades. A poesia sente o que deve sentir. Dou significado à palavra, ao amor. Me destituí no amor. A pele racha sonhando ser amada. Fui amada nos meus sonhos. A lembrança dura até hoje. Permear meu amor que é tão só que me torna só nesse amor. Lembro apenas de morrer sem saber se conheci esse amor nessa desolação, solidão. Nem as poesias querem-me. Sou sua criadora e seu fim. |
Impermeável (imune ou insensível às influências externas)A morte é impermeável como os meus sonhos. Silêncio é loucura. Sobe no corpo e me deixa sem segredos. Abusar da dor, fazê-la refém da vida que não sinto. O frio da coerência aquece a alma. Faz-me sentir um nunca amor na minha solidão. Fico triste na solidão, sinto-me viva. É uma tristeza feliz, onde não me derramo. Minha pele sente apenas morrer: é meu aparato, meu refúgio, onde sinto a vida na sua falta. E, assim, tenho pele. |
A extremidade da morteDiante de mim, perco quem sou. Solidão é o bem da pele nas feridas da alma com minha dor. Salvo vidas e a morte fica sem extremidade. É como o desocupar-me em falas. Corrigir a morte, desfigurando o invisível entre viver e não viver. Não há mais tristeza. Há o significado da dor sem a dor. O sempre é a dor de quem ama. Nem a ausência pode ser eu, nem a dor. A ausência é viver entre o que era vida e o que representa a vida agora: eu! No amor, tudo se resolve. O ser vive de amor. Escrever faz meu sonho sonhar. Sonho como se a morte fosse uma nova vida para o fim, mas até o fim tem apenas uma vida. Meu corpo, meu amor não se acostumam à vida. Tento ser a vida que a vida não pode ser. A vida é intocável. Morte é pele, amor. O fim merece uma vida mais do que eu. Nós nos abraçamos até chorar. Minha inabilidade com as mãos é poesia. Quero apenas que a paz amanheça como o dia e a existência da morte vai ser apenas mais uma de tanto que vou escrever. Sempre terá mais uma poesia a ser escrita: é isso que me faz falar. Deixa tudo mais bonito. Eu queria apenas amar. Virei poeta. Reprimir a morte me reprimindo não me faz nascer de novo, mas consigo ver tudo. Nascer como se eu nascesse também. Nascer é a distância da vida e da morte própria. Eu conheço o teu sonhar, morte, sua humanidade. Mas você precisa de um fim. A linguagem é a libertação da alma, onde ninguém precisa falar. Pois o que a tua linguagem diz não consigo falar. Falo de outras coisas, da tua esperança na minha, na flor que nasce, o adeus perfeito comovente. Tu és, vida, o que tem que ser. Eu não sou o que preciso ser. Mesmo assim, sou mais do que ser. Eu expulso meu ser de mim e me reinvento sem mim. Uma criação sem o ser é a abstinência do nada, é Deus. Entendo a linguagem sem a linguagem. |
DevaneioO sonho faz da alma um devaneio. Tomara tomasse posse do meu corpo num abraço e tudo ser tão leve: a morte, a vida que não quero perdê-las. Vou reaparecer para elas, pois já era amor mesmo morta. |
A poesia da poesiaMinha solidão. Chorar o invencível é não chorar, é a poesia da poesia. Vazar a alma nas entranhas da solidão. Descobrir o indefinido num dia de sol, numa fala de sol para povoar o silêncio das nuvens e viver do passado no hoje do meu corpo, sem nenhum pensar. Me mate, não me esqueça. A poesia vai ser desnecessária como minha última esperança. É a poesia da poesia. |
AtitudeTento ser. Ser menos que meu respirar, me debilita, me inspira. As intermitências da morte são a força da vida e essa força, forçando o ser a morrer diante de mim mesma. E eu, na morte do outro inexistente, é como conversar com os mortos na linguagem da inexistência. Nada lembra de mim sem a inexistência. Sorrir para a alma partir. Nada me torna o que sou, nem eu mesma. Tudo nasce do partir de Deus. |