Blog da Liz de Sá Cavalcante

Deus é maior que o amor de Deus

Não preciso dormir. Minha vida, meu ser é pouco para amar a Deus. Meu espírito é pouco para amar a Deus. A minha vida tenho que estar toda desperta para amar a Deus. Quero cuidar de Deus como ele cuida de mim. Até o desamor ama a Deus. O Sol, o mar são a liberdade de Deus. O intocável toca deus com amor. Penetro em Deus, sou mais para Deus do que sou para mim. O impossível se torna possível em Deus. Cada amor, cada respirar que conquisto é por Deus, é em Deus. Nada tenho, nada sou sem Deus. Deus é como a última flor do jardim da vida.

O ver da alma

Me vejo no ver da alma sem a alma, até me ver nascer sem a alma se partir ao meio. Nascer é o amor que foge. Fugir de nascer é impossível, é como tirar o ventre da alma. O ver da alma é o silêncio. Ver o silêncio é o melhor da alma. A alma é alma no silêncio, vendo o silêncio com amor, alegria, no despertar da alma com olhos de silêncio que se faz alma, ser. Sempre as palavras ficam no silêncio, deixam o silêncio sem energia. O silêncio escuta as palavras por dentro de si. Nada deixa o silêncio só. Silêncio é poesia com o mar até afundar as palavras em si mesmas. O silêncio são todas as palavras. Fazem falar, amor no silêncio eterno de Deus. Sentir minha pele no Deus do amor é a melhor vida, o melhor amor em conversas infinitas de Sol.

Identificação na pele

A pele desnuda o ser, o faz ter frio de ser. Ser é vício do nada, a lembrança não tem vida, tem pele. Pele e lembrança se misturam, deixam de se identificar. A pele arrasta as lembranças até o fim de suas forças. Desmorona até conseguir cantar e amar seu fim. Sem as lembranças, o saber é infinito, torre abandonada, erguida pelo vento. O céu é lembrança, como o ar. Beijo o ar com a esperança de céu. O céu purifica sem o ar revolto das memórias. O passado de nada se lembra, eu lembro pelo desespero do despertar.

Devagar (Para Pai)

Vou devagar. Meu olhar fascina o vazio, me trai, me acaricia. Perco o olhar no vazio do chão, na pressa de viver. Atinge a tempestade sem ela ruir, de frente ao Sol. Quero parar para ser. Inventei-me para um Sol onde sempre existo. Este é o encanto de te amar.

Alma e ser

Alma e ser se misturam sem conviver. O nada explora o ar do amor. Amor lento como um sopro começou a voar pelas minhas limitações de viver. Ser para si mesmo é não deixar o nada, a não ser em si mesmo. O olhar é a aparência do ser. Todo instante é igual ao outro, o que muda é o ser. Nada em ser se parece com a vida. O vivido é o que tem na alma, o meu ser. Deus pertence ao seu amor por nós. Nada é suficiente no amor, ele é a nossa deficiência. Reiniciar o início da falta de imagem é buscar a eficácia do nada. Apenas o nada age pela aparência e degusta o céu, ampara o mar. Estou lutando para respirar a poesia que fiz, é a pulsão da vida, é o pulmão de Deus ao me dar ar para respirar. Eu vejo o ar de Deus. Sinto-o respirar, me amar, sem nunca o ver, e é o maior amor que sinto: Deus. Sempre Deus, o amor, vida infinita. Não desperto meu olhar no Deus do olhar. O Deus do olhar é apenas uma esperança, imaginação. Deus concreto. Não posso ver, mas sei como ele é. Nada consigo sem Deus. Deus me busca, me suga nas minhas poesias que não consigo dizer. São Deus em mim. É como calar a vida no canto de Deus. É macio, suave. O que sentir em mim se tenho Deus? É impossível amar sem Deus. Não sei onde estou dentro de Deus, mas sei que estou. Amo-o como se cantasse com Deus e, assim, florescer de amor. A consciência é a mudez de Deus, não é silêncio, é Deus a sofrer comigo. O que nunca será vivido por mim não depende de Deus. É a natureza natural de ser. Deus mamou na vida. A vida mama em Deus até hoje, eterna criança. Sofro por Deus. A minha morte, mesmo morrendo a segurar o coração de Deus. Nesse momento, esqueci tudo, sorri, fechei o olhos, tenho paz: morri.

Deus e a morte

O nada só não modifica o ser, torna-o a sombra do nada na claridade da dor. A ansiedade constrói o nada, expulsa o ser do ser. É onde o ficar é despedida, onde o ser e o nada se encontram nessa despedida, para morrer sofrendo, como se a morte agonizasse a si e precisasse da minha dor para morrer, não em paz. Para eu cessar meus olhos, a morte quer apenas morrer. Sem olhos, isso faz-na arrancá-la de sim mesma. Então, a morte sente falta das pessoas que matou, que eram a vida da morte. A morte quis o céu, teve apenas a solidão. Quando olho o céu, esqueço de mim, que vou morrer de mim mesma. O céu é a riqueza das minhas poesias, de tudo que amo, vivo. O ser nunca imita a morte, vai além dele. A morte não tem poder sobre o ser, sabe sorrir. Meu ser é feliz porque quem vai sorrir por mim? As mortes de muitos são o afastamento de Deus. Deixa nunca mais amanhecer. deus se isola, não quer ver a morte morrer. Fica com pena, mas prefere morrer do que ver mais pessoas a morrer. A morte nada ressuscita. A morte crucificou Deus na morte das pessoas. Foi pior para Deus que Deus morrer. Agora me pergunto: O que é infinito? Ninguém sabe responder. O silêncio da morte e o silêncio de Deus queriam a mesma coisa: serem felizes, um longe do outro. Nenhum foi feliz, mas, mesmo assim, havia harmonia, respeito, paz entre a vida e a morte.

O berço da alma

O berço da alma balança só olhando o amor das mãos, que a separa do ser. Continua a dormir como se algo a balançasse além da vida. O berço da alma faz da alma o limite de ser, alcançar montanhas sem exaustão, é o nascer da alma. A vergonha de ser na alma é o nada. A verdade é o absoluto de mim, espírito das mãos que não balançaram a alma no berço. Olhando o nascer da alma, esqueci as mãos no que já perdi. Mas o que escrevo é o bastante para agradecer ter visto o nascer da alma. Foi mais intenso que minhas poesias, é eternidade pura, como um raio de Sol. O nascer da alma fez Deus se curvar para a eternidade e, assim, a alegria que, antes, não existia, existe agora em abundância. E assim nasce o amor divino de Deus.

Um único ser

Capturar o corpo num pensamento hostil. Meu corpo nunca foi meu. Eu ainda sou eu. Lembro-me da falta do meu corpo, uma tortura. Sou a incompletude, por isso sou um ser. Apenas meu olhar me consola. Sem a vida, sem o vazio da completude. Meu corpo, mesmo morto, vivo. Um ser morto vale mais que um ser vivo. Hostilidade do corpo é a fragilidade da alma. Agir é a falta da alma. Consigo ficar de pé na alma e sustentá-la e o universo. Viver é sentir, dar ao céu o céu. A exclusão do nada faz desmoronar o vazio de vida que era de um amor que se escreve só, sublime, mas faria de tudo para que um ser, um único ser que não amasse por ele mesmo, mas que amasse o amor como se fosse ele.

Afirmação (Para Pai)

Por que não nego a morte me afirmando? Ensaiar a morte é ter, na morte do meu corpo, como uma peça que fiz, onde o teatro sou eu, de tristeza, dor, e a morte é minha alegria. Nada supre a morte nem o nada. Não se pode agradar a morte e ser feliz. Mas a espera da morte faz-me conviver com os dias e os aceitar. Dias parecem não passar na espera da morte. A ansiedade de morrer não me fez morrer. Me fez morrer, mas ressuscitei na poesia, vivi mais intensamente que qualquer um. Até as palavras têm medo da minha intensidade e nunca morreram por isso. Nasci pela minha falta, pela despedida, pelo nó de lágrimas que são desenterradas do céu para a vida. Ainda sinto o céu como algo distante. Parece que nunca vi. Sinto o céu se aproximar na distância do meu ser. É meu ventre seco. Nada sinto, apenas horror. É algo que vive apenas pelo amor de Deus. Sem querer, às vezes, o amor de Deus vem a mim em vida, em amor, em poesias. Se eu estiver sem cor, sem fome, vida, lembre-se do abraço que lhe dei, será como se estivesse viva para você. Em ti nunca morri, sou eterna, mesmo nos lábios secos da morte. Apenas você vê vida em mim. Isso é tudo de que preciso para amar, viver, ser eu.

Cruz

Não sabia que a vida era esse instante, que fui luz. Não precisava ser luz, nem na minha morte, e não sabia. Ressurgindo algo melhor do que a vida. A escuridão que é mais preciosa que o amor que sinto. Mas o ranger da alma nunca escuta a solidão do amor, que é abandonada pela escuridão, que nem tem esse vazio no olhar. Se ao menos ela tivesse esse olhar, minha vida seria salva. Minha vida é uma cruz. Penso ser essa cruz. Meu corpo, minha alma, fico leve, mole. Percebo que carrego a minha morte com alegria enorme. Nada me faltou, nem minha morte, nem amor, nem minha cruz.