Blog da Liz de Sá Cavalcante

Esconderijo

A vida é uma concha para o mar. Se aprisionar de saudade. eu queria ser o mar, sentir-me aprisionada como uma concha que se dá no mar. Aprisionada, livre da vida e de, ao menos morrer. Não quero me encontrar, nem mesmo morta

Paz

A paz é um demônio que assusta, mata a paz, é um risco que temos que nos socorrer. Nunca teremos paz, teremos que ir na paz para fugir dela. É arrancar-me por dentro de mim para esquecer tudo no mar, é deixar minha paz lá: é ir distante do mar, buscar falta de paz com o receio de não morrer, de tudo ser paz. E eu, por ser excluída, me faço ser pelo mar. O corpo esfolado pela alma até morrer quer seus últimos dias no mar. Que eu não me afogue em ver Deus entrar no mar.

Nada se compara ao me sentir abrir os olhos

A imagem poderia ser qualquer imagem, mas meus olhos são sempre meus olhos. E eu, a rever o olhar como uma verdade, como um suspiro no ar. Abrir os olhos como um salto na dança, na obscuridade. A luz refletindo no ser como abismo da vontade. Sem o ver da vontade sou apenas luz. Luz que se faz na sensibilidade da luz, como uma luz no fim da luz. Poder ser não é um ser. É o fim. Flores se enganam em alma. Ver o mundo, a vida, pelo seu cheiro. Nada se sabe do que resta de mim. Enfeitar as flores com a vida. Envelhecer como o nada, com dignidade e sorrir como criança. O inacabado é o infinito num grão de areia a me definir. Nada percebe o adeus, apenas a inconsciência que faz do adeus um fato. Nada será tudo é. Componho coisas sem vida na vida que desgraça o céu em nome de Deus. O fim da poesia seria o céu. Sentir-me no céu é ter o céu. Sofrer no nada é se abastecer de esperança. Nascer como estrutura da vida. É poesia. O nada sofre sem perdas, ausências. Sofre o sofrer sendo em mim o que espero ser. A falta de luz prova que a vida existe. Um sentir além do destino, do interior de mim. Escrever é a alma que não se dá. Sinta minha alma, respire com ela, esqueça o tempo que escraviza. Pensem em ser, em dormir pela obra das suas faltas, e consigam pensar no outro em paz.

Amargura da morte

Lagos de giz apagam o silêncio que vejo no ardente nada. Eu tenho a amargura num relâmpago de alma em rastros de luz que emudecem o nada. Luz são trevas, devaneio de ver. Me atropelo em palavras de pedras no devaneio eterno, nos meus olhos que, sem luz, acendem a alma para as estrelas e a alma continua escuridão. Desespero sem luz é a clareza de um destino. Lagos de mar são os anos passando na dificuldade de ser feliz em ficar. Aflora a natureza num espetáculo eterno. Sempre haverá um amanhã onde ficar é como um abraço, é como fé. Ficar é ficar entre o momento da alma e o meu ser é questão de céu, de encontrar no viver o rosto de Deus, de reviver as palavras com um novo amor por elas: as palavras mudam de sentido. Não perdem o amor. Trovejar a alma no viver na consciência do amor, na paz que me devolve o resto da vida, que é o resto de mim no desconsolo de ser feliz.

O que falta no olhar

O olhar me percorre de luz que nada se quer em morrer. Que sentir entra como uma trave? Nada se vê no amor, o que vê se torna esquisito em ver. É tirar o firmamento com um olhar. É ter a paz de ontem, como se fosse o amor. Fosse o que fosse, não há, nesse recuperar o que fosse. O que for surge no voo dos pássaros num sol feito carrossel. O olhar plantado no simbólico. O simbólico é a falta de ser. Desestabilizar o simbólico não é compensar o que sentir. É unir perdas. O corpo é uma estaca que tento cravar no chão até amanhecer com fobia de voar e ver. E se meu ver voar na minha liberdade? A gratidão é vazia. Se eu nego o acontecer que nunca vem. O ver atrai e esquece minhas lágrimas. Ele as repugna. O ver se vê no nada. O ver é a inutilidade da vida. É um recurso ao mundo onde a frequência, com alma, é conviver no obscuro sem fases. A vida é sua única fase. A vida é casual, eficaz para si. Na sorte de um adeus. A consolação é o vazio, que vai alterar sensações que sentem o máximo de si. Nada distrai a alma do viver. A cada destino, eu vivo só subindo no tempo. A consciência é um corpo sem vida. Consciência é tirar o céu do céu. Falta na consciência a inconsciência. Ter voz acalma a alma. O amor é a convicção de fugir da vida, do céu. Notar minha presença sem assustar estrelas. O ser é a vida que se cala. O princípio é o fim do começo. Preciso me olhar, ter o olhar dentro do meu sonho, é como não sonhar. Como se eu não pudesse sonhar numa flor, num suspiro, onde a dor é melhor do que sonhar, onde a dor esconde o respirar num recomeço do meu corpo, onde não saio de mim. Reinvento o sono, o tempo num espelho de água, que não derrama, deságua na paz de ser triste. Sentir é só porque é ser entre a vida e o sol. Minhas mãos vazadas, o destinar a vida ao sol, viver de amor. Há um abismo entre sofrer e dor. A manifestar o corpo, o instante dura, se faz no meu corpo. Do meu corpo, nasce a minha vida, e da minha vida, morre meu corpo, o nada. Por isso, nada traduz algo para as palavras de Deus. E o mundo é o pivô da vida. A renúncia é um navio que afunda o mar. Eu afundo o infinito. O mar é o sentir absoluto do céu. É a plenitude dos olhos no amor. Dar de mãos fechadas. Na alma do amor elas abrem. Estou acima da vida para ver a lua e me sentir enluarada. O medo me teme e eu sou feliz.

Preparar a vida para o meu fim

Que tudo seja antes de ser. Morrer são vísceras. Nas entranhas de ser só, desconfio da vida na inocência de Deus. Sentir ou não sentir é o corpo reagindo, sabendo que reagir é sua morte.

Viver demais

Viver demais é ausência de vida, de amor. A vida é para ser apenas um minuto de alegria. Nada do tempo, o ar me consola. O ar é o tempo imaginário. A habilidade do mundo de mudar de ar. O sofrer do ar é o meu respirar triste por mim. Cesso sem o fim. O ar é uma condição. A vida é um prazer honesto, nada mecânico. Estruturar o dom da fala no abrigo do silêncio. Falar é ter o céu, sorrir sem nada acontecer de especial. Eu sorrir é especial, é mais do que  ser feliz. Viver sou eu.

Há muito tempo

Há muito tempo, de alma adormecida, pude sonhar com a vida tentando ser feliz. Há muito tempo, até que cansei, desisti até de ser feliz. Mesmo estagnada, vivo.

Consumida

Consumida na pele de tanta fadiga. Não consigo perder o medo da perda. É como rasgar a minha pele na rouquidão do meu amor a me fazer sumir sem gratidão na vida. Nem meu amor é meu. Me proponho a morrer. Amor é perda. Aumenta minha ilusão de ser só. Por isso, desapareço antes de morrer.

Sonhos de Solidão

Entre sonhos e a busca da solidão, me une ao sol, única esperança de ser feliz, de não ser só. Como alma perdida num sonho acalentador, desfaz o perdido num fogo eterno. Esquenta a vida no frio do corpo. Assim supero meus sonhos que sempre serão sós, mas não vou abandoná-los, pois sempre vou acordar.