Blog da Liz de Sá Cavalcante

O sonho dentro de outro sonho

A morte é a luz dos meus olhos, do meu desespero da vida. Mas a luz não me faz morrer, faz-me ficar pensando. Luz onde não existem palavras e sim oração de um sonho dentro de outro sonho, que assim seja. Sonho por um sonho, onde dormirei em paz, no meu amor, sem o peso da alma, apenas eu em mim, com a certeza de despertar a cada instante, amando, vivendo, mesmo a dormir.

É viver

Eu não vou sobreviver à vida. O melhor da vida é deixá-la amando e sorrir pela primeira vez, como se descobrisse a vida num abandono, num amor descomunal. Isto é viver.

Lei da ausência

O olhar natural deixa de olhar, sente-se na vida. Mesmo excluído da vida, o olhar se sacrifica, impõe sua dor até conseguir viver. Crucifica-se pelo ser. Meu olhar não consegue ser do set. O ser não precisa dos olhos. Essa não é uma abstinência, é a lei natural da vida.

Sendo

Sem amor, me confundo como sendo amor. Vencer o vencer é mudez do amor. Nada posso fazer sendo amar, amar. Basta o amor acontecer como é. Cada autenticidade tem seu valor inesgotável. Sou o berço desse amor. Nada me atinge, me faz amar mais ainda a vida, as pessoas. Respiro melhor. O amor é só por natureza. Talvez seja melhor assim: eu e meu amor. Sonho como se eu tivesse mãos. A vida me toca sem mãos. Meus sonhos vêm de longe e ficam tão perto que nem a eternidade importa, basta sonhar. Para que mãos se vivo para sonhar.

Execrar para viver na poesia

Escrevendo vidas desconhecidas porque não tenho vida, tenho amor. É como se meu amor fosse vida. Esta vida é execrar tudo que sou: a pele.

Poesia

Você me dá minha alma a mim no sacrifício de morrer por mim. É tão forte quanto Deus. É maior que todas as estrelas. Apenas as poesias não precisam de estrelas, precisam de um fim que não consigo lhes dar.

Inválida de alma

Sou inválida em ser, na alma, nas mãos de Deus. Socorra-me de me movimentar, de respirar. Respirar é um movimento. O que não existe é o movimento. A vida também é imóvel, como uma sombra. Esquecer é para toda uma vida, até que a morte me separe.

Corpo a corpo em mim

Pouco ficou da poesia, do encanto suave do corpo no chover da alma, no aumento do sofrer. Sofrer é ter corpo, pele, apenas para ter esse momento de amor, de ser amada. Posso morrer, não vou perceber.

Minhas palavras decoro para sempre

Decorar cada palavra é viver cada vez na palavra e menos na vida. Apenas eu posso me amar como me amo. As palavras, minha vida, heroína, me deu vida, luz, a embalar o céu em braços de luz, ausência eterna. Os braços da escuridão, firmes, leves, soltos, alegres, finitos. O morrer das mãos é poesia. Dure o que durar, isso é ser eterna, feliz. Mesmo na alma sou eterna. Em mim, sou mais que eterna. Sou a tua vida, amor, numa suavidade do alheamento do corpo, descendo da alma para o que não se vive. Não facilita, se despede sem viver num sol. Única vida onde tudo se quis de mim mesma. Quero apenas desmontar torres, castelos, precipício, quero apenas ser feliz até o fim.

O extraordinário

Vivemos pelo extraordinário, para nos termos. Mas nem o extraordinário é vida. Vida é soprar eternidades vazias como o início de mim.