Blog da Liz de Sá Cavalcante

Vida embutida em mim

A angústia é uma vida que não é a minha, a que eu queria ter: a vida da poesia. As cores do nada a colorir o pensar. A angústia é o céu sem meu amor. É pior a volta do que a partida da vida. Meu ser se deixa ser em um abismo de luz. Nada é luz da luz se existe luz. É do ver que nasce a luz. Não há diferença entre a luz e a escuridão, por isso o oculto se choca com minhas dores. A vida é uma luz invisível que acende a alma. Nada acende o ser dentro do ser. O nada não quer luz, nem escuridão. O nada se preenche ao ver a si mesmo. Seja luz ou escuridão, é preciso a presença do nada para dar alegria, amor à vida. O sofrer da vida não está oculto: somos nós. Nós para o nada. Auxiliar o nada no que ele sente é amor, é sentir até o fim. A mente é cada espaço vazio e nada a preenche. A alegria não é a eternidade, é o tempo que tenho comigo mesma, para comemorar o que existe: o nada. Se algo surgir de repente, é o fim da alegria, do nada. E se nunca tive noção do nada? O que fazer sem o nada? E se o nada for apenas dizer eu para mim? O que é o nada perto do nada? O nada é o sonho do nada no ser. Não se esconde o ser do nada. É impossível. O nada expõe o ser ao que ele é. A distância é o amanhecer sem o nada. O nada é a autonomia da vida. Sou metade nada e metade morte. Isso é apenas o fim, sem modificar a vida no Sol da espera, do encontro de almas, sem a noite do haverá. O haverá contesta a alma, onde sempre há alma. A alma é o amanhecer em branco, sem cor, sem vazio, na pura identidade sem céu, sem começo, meio e fim. Apenas o amanhecer invisível no seu flutuar. Amar é flutuar na alma. O invisível e o visível são o tocar a pele no coração, nos rastros de mim. É como fazer de conta que a pele se desfaz no coração, como cristais de céu a invadir um oceano de mágoas a se ver sem Sol, sem vida, sem ninguém. Até eu chegar e revirar o oceano inteiro, em busca de sua alegria. O oceano se inspira em mim, pois até a água é amor. Reparo como há alegria sempre em todo lugar. Nada se é sem alegria, sem amor. Até mesmo o adeus é necessário para amar. Antes de mim, de nós, era apenas amor, mas agora construímos com vocês, por vocês, pelas nossas vidas. Nada separa o amor de quem ama. Construímos um mundo mais humano, longe desse mundo desumano, mas nenhum é sem amor. Nada me separa do ninguém em mim. Ninguém é quem está exterior a si, nem existe independente de si próprio, sem a existência do ser. A existência nunca é o que é e o ser sabe ser mais do que é. O fim do ser é o sim do ser a revelar o ser na sua negatividade. Assim, salvou-se o ser da vida, emendando a vida e a morte no suspirar do vento. O vento é a emoção tardia de morrer. Parece sono, parece alma e não parece um adeus. O adeus é o amor em uma despedida, porém, no fundo, ninguém morre, mas sim fica encantado. Nunca perdemos o amor, pois o que se perde é a falta que o amor faz. Desmembrar o céu de amor, socorrer o tempo do vazio perdido. Nada se encontra em mim, porque tudo está em mim.

O Sol do infinito

Viver aos poucos, na estrutura do nada, até cessar a dor, que parecia infinita como o Sol a se mover dentro de mim. Movimento-me pelo Sol e pelo nada. Sinto o sabor do céu na alma. Vou morrer na alma. O encanto de morrer é a morte. Os que já morreram sabem a morte que têm e tornam a morte sagrada, no seu reconhecimento dos seus mortos, da luz que medita por mim. Nada se é sem morte. Nascemos com a morte, por isso podemos amar. É privilégio viver e morrer. Mesmo sem eu aceitar a luz, é o tempo de viver e morrer, em um sonho sem luz. Vida e sonho se misturam. O Sol navega pensamentos de mar. O mar, sombra da morte, amor, acolhimento, perfeição de tão primitivo. Se o mar nada levar de mim, torna-se sal. Sofrer sem o mar partir é sorrir para Deus. O céu é responsabilidade humana. O teu céu diminui o meu céu, sem esperar o teu céu. Na alma, o tempo para. Nada influi a alma. O amor não ama como eu. O que era para ser amor não é. Amor nunca se sente. A ilusão de amar é ser. O Sol corrói o amor na minha ilusão de amar. Amar, não amar, sendo eu mesma. Mas a luz disfarça que eu vivo. Viver é a luz que tem consciência de sua luz. Minha luz é o sentimento do mundo. Não estou nela. Ela está em mim. Uma maneira de encarar a consciência é perdê-la conscientemente. Nada perco na inconsciência. Ela se perde só, como se acabasse de nascer. Perda é a razão na desrazão de viver. O silêncio é natural se for de alma. Nada se contenta com o nada. O nada sobrevive ao nada. Não há nada que substitua o substituir sem o Sol do infinito. O infinito é morrer antes de morrer, é procurar em mim o vazio da morte, sofrendo em mim. Esse sofrer me ressuscita como se me visse sofrer. O que vê a alma, o sofrer não vê. Ver não é certeza, é incerteza. Ver-me é esquecer quem sou. A vida que eu posso ter depende de um olhar que morre no ver. Olhar é sonho; ver é realidade. O meu ser assombra a morte. Sem vê-la, respiro para me ver viva. Respirar me faz morrer. Mesmo assim, não deixo de respirar, pois é única poesia que fez sentido na minha vida. Deixe-me respirar e me sentirei viva. Isto é amor sem ser. No entanto, eu deixei algo a mais do que meu amor: a minha existência.

Dividindo-me em sonhos

O que separa o céu do mundo são os sonhos e a vida, sou eu me dividindo em sonhos, como um deserto com asas para voar. Nunca sou o mesmo sonho. Nuvens oscilam em céu e ser do céu. O céu é sonho ou real? Depende de como o sentimos. O céu escorrega em mim, não me deixa flutuar, mas me deu um novo corpo, uma nova vida, um novo amor: Jesus. Não penso na angústia. Ela me sente e, quando a sinto, eu me deparo com o real. A saudade derrete o pensar e eu ainda penso, como água, ar, fogo, como eu sendo eu sem iniciativa de ser. Sou porque a vida me fez assim: sem a ruptura da falta. A falta é cura. O sonho necessita ser a falta que faz amar o adormecido. Sem lembrar que adormeci no adormecido de mim, como uma poesia, que é o modo de me sentir viva. Sentir-me viva não é o mesmo que viver. Escrevendo, percebo que não há fundo em mim, nem há raso em mim. Tudo em mim, é inalcançável, mas não estou ausente. Estou feliz na minha presença, mesmo havendo outros mundos melhores. Há tantos mundos desconhecidos, como um novo amor descoberto nas sombras da lembrança. Fuga é saudade do nada. O organismo da vida não aceita o ser como seu organismo. Negar o meu organismo dentro de um céu sedento de amor, de mim. O estremecer sem o vento é o nada em poesia. Não quero acalento, mas sim viver no desalento da alma, sendo alma da alma.

Saindo de mim

A obediência é uma vida saindo de mim, entrando nos meus poros, na minha pele, entrando no ar que respiro. O respirar é melhor na mágoa de eu não ser eu, do encanto que foi perdido, que se torna o fim do tempo, na infinitude da falta do meu ser, na infinitude de escrever no presságio de morrer. A cada instante de vida, estou a morrer, vendo a morte, sem simbologia, apenas eu e a morte, no que permanece.

Harmonia em alma

A alma é o olhar do amor em espírito. O corpo é o proibido da alma. Um sonho me torna alma. O sonho do acontecer é alma gêmea do real. O sonho desarmoniza a alma na canção da alma. Tudo que escuto, falo, pois não existe no sentir da alma. No Sol, a verdade de ser aparece como uma folha caindo da árvore. O nada se esconde em mim, nas águas do deserto. O amor é a má-fé da morte. Eu vi meu olhar na sombra do meu passado, no coração da minha presença.

Indiferença

O nada é leve como a indiferença de ser o viver de mim mesma. A indiferença é minhas entranhas em mim. O ar desaparece nas espumas do pensamento. É como adiar o passado na minha morte. Sinto que desesperar me acolhe e me faz viver minhas perdas melhor do que eu mesma. Viver é o que se foi para onde não há vida, nem o ser, apenas a ternura do vento, na tristeza do silêncio que solta o ar do Universo, que estava preso dentro do Universo. Uma sombra de luz define o nada. O vazio cessa o ser na luz do ser. Como vou morrer se vejo a luz? Nada absorve a luz. O silêncio é a escuridão dos mortos, é a vida.

Sentindo o não sentir

Sonhos de pedra no volume do ar. Não sei onde foi o sorrir dos sonhos sem o fim dos meus sonhos. O respirar me deixa cega, muda com a falta que faz a alma respirar. Nos sonhos a alma traduz o respirar como precipício do Sol. A inutilidade da vida é a alma; a inutilidade da morte é o ser.

Leveza

A esperança é o nunca mais como alma. É o tratar a alma no tempo perdido, para seu abraço não se perder no Sol imaginário e brindar com a dor. O sorrir do Sol avisa quando chega a morte. Nada se mete entre a vida e a morte. Nada pode ir contra o Sol. Fico entre o Sol e a Lua, com a disposição do nada em sofrer feliz, com um olhar que ninguém tem, perante a grandiosidade do Sol. O medo tem medo de ser. Ele tem medo até do encanto da vida, que é um fio que se desfaz. Nada se faz Sol. A extrema unção do Sol é o céu, é o som do infinito. O Sol transborda em mar e seca em Luas tão vivas que parecem Sol. E o desaparecer de um único instante no total do céu, estalando alegrias sem fim, sentindo o Sol como devaneio, como ar, como despedida, como sinceridade de um amanhecer poético a desaguar na tristeza, na contemplação do mar a desabar em areias desertas, canção que não se escuta, mas se ama.

Fim

O vazio jamais se torna angústia. Vazio é expectativa e angústia é o fim. Somente se pode soltar as rédeas quando eu morrer. Serei ainda livre como vocês. Serão duas liberdades, uma unidade à outra, e o céu vivendo a nossa liberdade conosco. Os vivos e os mortos, pura nostalgia de viver.

A força do insubstituível

Ver pela força do insustentável é ver raro, puro, pela força divina que me realiza, insustentavelmente. Morri, sustentada pelas almas que são neuroses do espírito, que o mantêm vivo. A falta é a lucidez. O vazio é a entrega da alma no ser. A verdade é o que me faz real. Sendo essa realidade nua, concreta ou ilusão, é real como eu entrar na minha sombra. E o Sol, inencontrável, satisfaz-se na minha sombra e se encontra na sua própria luz. Luz que anoitece da própria sombra. A alma me sufoca, comigo solta como o vento. A brisa sente o vento como o que se foi. O que sinto é apenas o vento sacudindo as esperanças. O Sol tira a esperança do vento e, por isso, tudo é depois. Há pensamento que é um milagre de Deus. O pensar é o que encontro na vida. O pensar sem vida é o céu. A liberdade é sem liberdade. O silêncio atraindo a alma e o céu a se reerguer. O céu, desespero da alma. A vida se dá a si mesma. O tempo da alma acaba com o tempo de Deus. Não me vou no tempo, mas sim no que fica: para me sentir desprotegida por mim, em uma alegria apenas minha. A alegria é o que não muda e se estabelece, mesmo nas sombras do pensamento, que fere mais que uma facada. O sonho é ferir a alma de amor e, assim, sentir o sonho. Não existe amor no próprio amor. Até a falta de despedida do ser é amor. Não existe amor maior que o abandono de mim. É como entrar no céu sem morrer.