Blog da Liz de Sá Cavalcante

O obscuro do nada

Resgato meu corpo pela alma. O nada é a composição do corpo. Corpo a corpo é a vida. A vida é a falta de energia do corpo. Sem energia nasce o Sol, sem força de tanta luz. Derreto-me em minhas forças. Suprindo o ar, perco-o. Vejo minha imaginação, perco minha imagem como uma imaginação avançada, não toma conta de si, nem dá conta de si mesma. A referência do corpo é o obscuro do nada. Ver é não ter alma. Relaxo na morte dos teus sonhos, mas não morro. Sou a morte dos teus sonhos, nos teus sonhos. Despertar o Sol seria como me ver. Ver é o Universo na luz do ser, um sonho de luz banhando o Universo de sonhos. Sonho é o esgotamento do ser. O sonho é a película dos olhos. O ver é o mundo fora do mundo. Nada vem da mente. O pensar separado da mente é uma luz no fim do túnel. A luz das lágrimas é o amor. O fim é sem luz, sem mim, sem escuridão. É a certeza de que nada existe. A luz é a conformidade de nada existir, nem no tempo, nem no espaço. O nada se abraça. A imensidão é o vazio me deixar vazia. A reduzir o nada à luz, a sombra vira despedida do vazio. O vazio é uma renovação da alma. A luz purifica a alma e traduz em vida a inexistência. Sem alma tenho luz em vez de mim. O sonho de saudade é o vazio sem o vazio. Não importa o que é o nada, importa o que o nada é para mim: é a salvação do vazio, é o extremo sem o nada, é a voz descoberta na plenitude, sem ninguém. Escuto a totalidade do meu olhar sem espelho. Sou apenas um olhar perdido sem mim. Desconheço-me, mas conheço meu olhar sem espera, sem adeus, continuidade do nada, que foi meu um dia. Nuvens do nada a expandir o céu do Sol. O nada sem adeus é o nada divino, é a evolução da morte. Feridas da morte a curar o céu. Reinventar o nada na solidão do nada. O nada não se resolve por ser nada, e sim por ser único. Única coisa viva que existe. Depois que o nada se desfez na espuma da morte, percebi que morri antes de viver. Por ser obscuro o nada, o ser é obscuro em sua morte, como uma realidade divina, que não está na vida, nem na morte, está em Deus. É difícil recomeçar a realidade em Deus. É tão intenso e profundo, que alguns preferem morrer.

O sonho dentro do sonho

A violência do corpo é o corpo. O corpo se torna corpo na alma, não nele, nem no sempre. Sacrificar a pele pelo meu corpo, pela alma em pele. Lágrimas de pele são imunes à dor. Pele é o sonho dentro do sonho, onde não existo mais. Sonho é morrer sonhando. O devaneio, fim do sonho. Fim do sonho em um céu que transcende. O mundo pode ser feito de céu, pelo meu amor. O amor nunca descansa. Está sempre a amar. Viver em nós não deixa o amor vir. Um pouco de ternura para o amor vir. Se o amor não viver, tenho sombras de amor para amar. O recesso é o amor em extremo, nas pausas de ser. Pausas são vidas perdidas. Escrever é ir sem pausas. Escrever é a profundidade em vida. Surge, de repente, meu ser sem alma, com o qual escrevo melhor do que sou. Ser é me dividir comigo, é a impermanência da alma, que a faz eterna.

Bondade demais gera ódio

O ódio é a personalidade; a bondade é a individualidade. Reaparecer é ser a alma sem a alma. Reaparecer influi na inexistência da alma. A inexistência se alimenta da minha alma para não existir. A morte se desconhece na inexistência. O ódio vem de se apegar à vida. Não captar o céu, as estrelas, mesmo sem Deus. Deus é uma inexistência que se torna uma existência. O negar o céu é a consciência sem consciência. A existência é o não que lhe dou. Com dor ou sem dor, a vida é a mesma. O ser sem essência é eterno. Ver é manifestação do Universo deixar a alma em uma aparência solitária, mas nada é completamente só. Nem a morte é só, por isso a alma da morte é eterna para nós. Nisso se resume o tudo, resume a mim em um único amor que não amei: o da morte!

Acredito no nada

Acredito no nada até desacreditar em mim. Se não sou um ser, por que vou morrer? Morrer distante de mim é o vazio da morte. A morte cresce rápido, abrange o mundo, a vida. Deixo o mar me levar no bem humano. O bem não cura, o bem dá vida, que é duvidoso. Nunca sei o que estou vendo, mas o que estou vendo sabe de mim, me percebe pelo meu não perceber. Quero perceber a vida, nem que para isso tenha que morrer.

Semblante do Sol

O semblante do Sol da vida em palavras raras, inesquecíveis. Apenas o Sol me vê. O Sol é minha consciência, força eterna. Resplandece a morte ao atingir o céu. Cedo para chorar, tarde para sorrir. O que vejo é o que sou? Ser é ver? A imensidão carrega o ver no absoluto do sempre. Ver é o sempre de mim. O mundo é o fim do sempre em mim. Fim sem fim não existe. O ser é diferente de ser. Como o ser ama? Da mesma forma que respira. O sempre é o respirar internalizado como alma. A alma de dentro e a alma de fora, mundos diferentes. Como unir os mundos apenas em nós? O que sinto no mundo? Sinto o mundo, não a mim. A falta é o mundo. O mundo não é o ser, é a irrealidade em amor eterno. O significado é a ausência de tudo. A ausência é a voz da consciência a inundar o silêncio, em um amor maior que viver. A ausência é a essência em uma lembrança. A essência é o absurdo de viver em uma lembrança que partiu e, assim, resta a vida. Não sei o que é vida. A lembrança encontrou seu lugar. Escrevo sem vida, por isso as palavras nascem de mim. O que amo nas palavras ninguém mais ama. Vemos o outro, esquecemos o que ele diz. Às vezes nada precisa ser dito. Amo a palavra dentro de mim. Queria ser apenas uma palavra e salvar o mundo do silêncio, da sensação que tudo é igual. A palavra diferencia a vida, o mundo, faz do meu sentir a eternidade das palavras. As palavras não se comunicam entre si, mas precisam ser ditas, para eu ser real para elas e para mim. Não há contradição entre o real e o irreal, são as mesmas palavras. O instante é o fim da palavra e o começo de um diálogo sem palavras, em que a origem se mistura na existência, em um diálogo longe da vida, da humanidade. Converso com o silêncio. A morte é um arrepio, palavras da água, do ar, da terra, do fim, da vida, mesmo sem a vida. Relevar, nunca deixar de amar neste sempre só de mim, onde sobram palavras para tanto amor.

A insuficiência da alma

Elevar a alma do céu é irremediável. O ver morto vive em mim. Meu corpo deformado por amor. A faca não entra no amor que sinto. Meu coração corre de lugar nenhum, como uma criança que encontra a paz de morrer. No que aconteceu a morte? É difícil saber que morri, encontrar-me na morte, em qualquer sorrir, em qualquer alegria. A sombra da tua ausência é a minha. Sem vestígios de nós, a perda foi apenas mais uma sombra para não ver o deserto da minha solidão. Sou só o desabar da alma no nascer do fim. O fim é uma parede sem segredos. Perdi o desabar da minha alma no nascer de mim. Nunca me refiz. Meu corpo é a vida, é como se eu simbolizasse meu corpo. O tempo mistura os sentimentos. É difícil sentir o tempo no que sinto. O que não sinto é essencial, faz parte de mim também como um sonho sonhado inexistente. Sou a continuidade da minha morte, sem ter o psicológico de mim, sendo o eu de alguém por ter morrido. O eu é diferente do eu que morreu. Ser ou ser é sem resposta, por isso confirma a vida. Ser e ser é a morte. Separação de almas e espíritos se torna amor para a vida, não para o ser. A alma não é insuficiente, apenas não tinha que ser.

O caráter da vida

A vida não tem caráter. O que morre de melhor em mim é a vida. O olhar foi detido na pele. Restringir o nada no olhar, ver sem o olhar, se faz alma. Ver o Sol, conversa eterna com Deus. A mente é o corpo. O corpo, abstração do nada. A pele é reagir sem o corpo. O sossegar é apenas ouvir o vento. Sentir o vento sem o vento é ser feliz. O Sol apanha as estrelas castigadas pela Lua. Estrelas de Sol me fazem viver. Saber pelas estrelas é reduzir a luz ao infinito. Luz são as visões do nada. A visão do nada é como um futuro de sonhos do nada, que solta a pele, me prende, me desperta no nunca me tocar, como se a pele ainda estivesse em mim. Cuidar é ter o último respirar, amando o outro. O respirar cego por respirar se torna silêncio. Meu ser não é a minha vida. Se escrevo quando escrevo, é apenas um suspiro do nada em mim. É mais que escrever, vem de dentro, onde a poesia não me alcança. Rendo-me às estrelas, em um ar de estrelas. Consigo sorrir sem suspirar. Nada é perfeito como o nada. Vejo melhor pelo nada. O que você vê, não vejo, nem sinto. É como se a morte tivesse um corpo a esfarelar minha alma. Alma, o que fizeste de mim?! Reconheço-me apenas em ti. Extravasei meu ser em ti, como um ocultamento do nada. A alma não transcende como eu. Definir o ser pelo corpo é dançar sem corpo, saber quantas estrelas têm no céu. Escrever com estrelas, não com canetas. A alma da alma existe nos pedaços que não me tornam eu. Pedaços não ficam sem respirar, não têm solidão. Nem a inteireza anima a alma. Coisas nem sempre são coisas, são espectros sem força de se abrir para a vida. Nada é parecido sem alma. O vento caminha no ar soberano do pensar. Pensar é o vento. Deixo a alma sobreviver a mim. Há pausas que são mortes, onde falar perde o sentido e a vida é apenas esta pausa, na qual morri. Almas veladas como primavera. Sonhos são invernos da alma. Na flor da ausência, o real, sombra que se torna Sol. Tocar é a ausência do corpo, perdida na alma, em cantos de amor.

O sonho sem a morte

A lembrança satisfaz o nada, não satisfaz o ser. A tristeza é o aparecer do ser, é a aparência real do ser, é quando o ser nasce de verdade. O ser não suporta a verdade de nascer. A falta é o nascer. Sonhar sem a morte é nunca nascer.

A noção de ser só

O tocante da morte é não vê-la. A morte é o interesse vazio a se encostar no amor dos mortos. O objetivo dos mortos é acabar com a falta dos vivos, para os vivos viverem a morte no vazio das estrelas e diferenciarem eu de mim, o céu da terra, o amor do ódio, Deus do fim. Despertencer é o tormento da eternidade em mim. Nada atormenta o tormento. Apenas o ser é esse tormento abandonado na alegria, no caminho sem fim, que nada é, nada espera além do fim. A morte não é ninguém, é apenas uma noção de ser, separando o ser do ser. Trazendo a memória do adeus, poderia ser memória sem adeus. Daí tudo seria definitivo, seria horrível, como se o fim da morte fosse o meu fim. Quero apenas esse despertencimento, essa paz que conquistei, para nada ser apenas sonho, para algo ser por si próprio a realidade da vida: o meu fim.

Acaba com minha dor

A dor é uma eterna lampeja em uma desistência de mim. Sinto ainda sua presença na minha. Presença é dar presença à dor. Eu sou seu suporte, seu adeus parado por morrer de mim. Presença é aceitar a ausência de pensar, ser. É ser mais que eu mesma. Ver-me nas coisas, no Sol, na vida, na poesia, mesmo que a alegria seja clandestina. Ser, nunca ser, é a mesma alegria, amor, vida. O ser se demora no nada, no vazio. Tudo isso para ser um ser. Separo-me de mim com o nada impregnado na pele, na sede de pele que nunca acaba. É invisível a dor, mesmo na pele a sangrar. Assim a dor acaba. Ainda não consigo ser eu.