Blog da Liz de Sá Cavalcante

Sentimento

Cinzas não são algo negativo. Cinzas são o positivo sem nada existir. As cinzas respiram o ar dos mortos, fazem dos mortos a vida de alguém. Cinzas de esperança, de solidão. Cinzas são o ser a dissolver a morte para voltar a ser cinzas. As cinzas são o ser na forma de eternidade, mas há eternidade que é cinzas da alma, do ser. Sem ser cinzas, nada existe. Se nada existe, tudo é liberdade, tudo é o que ainda não sou. As cinzas do céu são invisíveis, como um azul intocado. As cinzas se trocam no toque, na alma. Mas como dividir as cinzas em cinzas? Existe apenas Deus e a sua solidão eterna.

A mudez da fala

Até muda, falo. Falo pela minha mudez, pelo silêncio que não vem. É triste falar com a fala. É triste falar em sonhos. Fisicamente, no corpo, não há fala, mas o meu corpo e a minha pele deveriam conversar comigo. Fico a contar sonhos no silêncio do amor. Quando a fala canta, nada tem a dizer de si mesma. O céu confunde a fala; a fala confunde o céu. Nada é dom; a sobrevivência é um dom. A mudez da fala é o coração vivo, em tempestades de lágrimas, de mim, no mundo de estrelas, onde sorrio como se falasse minha ausência, como se minhas poesias me ouvissem. O que poderia ainda escrever, sendo eu mesma construída em poesia? A fala é a falta do encanto. Desaprendi a ser eu, como uma mudez sem fala. Quem sabe um dia? Mas quando?

Bloqueio

A consciência é o erro de ser. O bloqueio é da consciência com o corpo, que me faz morrer, para eu ter essência. Essência é me ter sem me ter. É a luz que não possuo, que existe em mim, na forma de transcender a luz. Transcende o transcender sem transcender. O nada sobrevive ao transcender. O nada garante o corpo em névoa. O perdido se faz ser nada. Seria o que produzo no ar. A fissura de ser me fez não ser. Sinta minha presença no nada, no ódio de viver ou morrer, que é apenas uma teoria do nada, da presença na ausência. Neste nós de ilusão, a ilusão é outra morte, mata aos poucos, varia de sentimentos e ganha o aparato da escolha. Vivo o amor, nunca eu ou a vida. Nenhum bloqueio psíquico me faz esquecer que amo. Houve despedida rompendo a minha alma. Eu a refiz no esquecimento, na dor de ser eu, sendo a dor minha, e a inexistente mais fácil de eu morrer nela, como um Sol que não nasce e se desespera.

Tudo é alma

A aparição do nada é a aparência da alma, refletida em mim. A alma é a superfície do nada. O ser é o nada da alma. O sonho não devolve o nada ao nada, mas o liberta do que quero ser: um nada no meio do mar, abrigo secreto do amor no nada. A alma se derrama em uma profunda morte, que dá a ela uma identidade, em uma vida sem realizações. A alma tudo realiza. Se minha voz fosse a alma, não precisaria viver. Tudo termina e começa na alma, na morte.

Inevitável

Como uma lágrima fez o mundo? Ainda faltam lágrimas no mundo. O ser não pode me dar essas lágrimas para eu dá-las ao mundo. Estou só, sem lágrimas. Nem o sorrir do Sol me emociona, mas me faz chorar de alegria. A alegria vem depois do Sol. Eu me embriago de Sol. Vivo conforme a ausência. A ausência não me destrói. O amor me fragmenta em palavras que não pude escrever. Mesmo assim, nada falta em mim para escrever essas palavras, que talvez estejam no céu. Talvez meu aborto seja a minha vida, acelerando as palavras no que fica entre a vida e o céu.

A dor de existir

A existência cura onde existe dor de existir. Quero morrer na dor de morrer. O declínio da saudade do amor é o amor. Traz de volta o irreconhecível sem a morte.

Expectativa

O nada sem a ausência é um resto de alma, momento para morrer. A expectativa de eu morrer sou eu a brigar com uma realidade que não aconteceu. Está dentro de mim a morte no ralo do amor, escolhendo quem sou. A inteligência é o amor impossível. O nada é a inteligência. Curtir a minha morte enquanto não tenho inteligência. O nada que impregna me faz morrer com dor.

A volta de um adeus

O ser se sente primeiro para depois ser. O nada é e sente a volta do adeus como vida. Meu amor, último raio de Sol na minha alma. Não há um Universo de almas. O viver é Universo de si mesmo, não do ser. Viver é revidar o que sinto, em desamor. O nada é como uma esperança. O nada é aceitação, vida, é recusa de Deus. Deus é transcendência. O que não vive em Deus é o seu espírito. Deus vai além do ser, do seu amor, da sua paz. Deus é a transição do ser ao eu. Eu posso esperar partir; o ser parte logo. O que penso não existe como eu. Escrever é uma falsa existência. A coragem vem da morte. A morte é o centro da vida. O ser que pensa é um ser sem intimidade consigo, perdido no firmamento. Sente a presença como morte, separação, até perceber no vazio a consciência transcendente. A outra consciência une a pessoa ao que ela é, separando-a dela. Sabe que não pode buscá-la, que ela tem asas. Perdi-me na consciência transcendente como uma permanência que dura na inconsciência da morte, rasteja no amor não recebido. O corpo, céu recebido pelo céu. Tudo no não pensar é parte do céu, do não pensar. Não penso como um pensamento, penso como coisa, como o que existe. Nada foi como é agora. A individualidade da vida é seu fim. O não pensar é tão infinito, grandioso. É como um mar aberto. Viver sem pensar, oxigênio do mundo. O pensar, fim da vida. Há tanto a viver. Para que pensar? Pensar é a paz de morrer. Desgrudar a alma do vício de ser alma. Somatizar a dor do céu é ser do céu. Segurar o olhar no céu é ficar sem o infinito.

Saindo de mim

O vazio se preocupa comigo. Somos felizes. O vazio é tudo que amo? O que é o amor sem o vazio? É exclusão? É o ar saindo de mim para a vida. O que torna o vazio tão íntimo, como se apenas ele existisse? Ele é a razão de tudo. Tenho que inventar um mundo onde caiba o nada. Estar nua de alma para o Sol se revelar. Toca minha alma e me esquece, para minha alma me libertar da vida, nos meus próprios braços. Mas, quando eu me abraço, o encanto cessa e eu fico só, perdida como uma estrela no meio do céu. Ergui o nada dos meus braços e me senti solta, leve, como se eu fosse o último amor no meio de uma multidão. Ficarei só amando, mas não vou mais sair de mim.

O sorrir da alma

Sinto-me só no sorrir da alma. O som do meu amor faz a alma parar de sorrir. O silêncio sorri mais do que a alma. A alma é onde o silêncio se apaga em um sorrir. Sorrir é o fim da vida na minha alma. Em tudo sou feliz, até na morte. Suspender o Sol para ver o nada é ter controle de mim. Em mim o Sol empobrece a alma, deixa-a frágil, indefesa, como se eu soubesse o que é alma e o que é Sol. Sol de alma é adormecer distante de mim. Assim a luz confunde o ver e, de tão longe, vejo-me adormecer em pregos de luz.