Blog da Liz de Sá Cavalcante

Leveza

A esperança é o nunca mais como alma. É o tratar a alma no tempo perdido, para seu abraço não se perder no Sol imaginário e brindar com a dor. O sorrir do Sol avisa quando chega a morte. Nada se mete entre a vida e a morte. Nada pode ir contra o Sol. Fico entre o Sol e a Lua, com a disposição do nada em sofrer feliz, com um olhar que ninguém tem, perante a grandiosidade do Sol. O medo tem medo de ser. Ele tem medo até do encanto da vida, que é um fio que se desfaz. Nada se faz Sol. A extrema unção do Sol é o céu, é o som do infinito. O Sol transborda em mar e seca em Luas tão vivas que parecem Sol. E o desaparecer de um único instante no total do céu, estalando alegrias sem fim, sentindo o Sol como devaneio, como ar, como despedida, como sinceridade de um amanhecer poético a desaguar na tristeza, na contemplação do mar a desabar em areias desertas, canção que não se escuta, mas se ama.

Fim

O vazio jamais se torna angústia. Vazio é expectativa e angústia é o fim. Somente se pode soltar as rédeas quando eu morrer. Serei ainda livre como vocês. Serão duas liberdades, uma unidade à outra, e o céu vivendo a nossa liberdade conosco. Os vivos e os mortos, pura nostalgia de viver.

A força do insubstituível

Ver pela força do insustentável é ver raro, puro, pela força divina que me realiza, insustentavelmente. Morri, sustentada pelas almas que são neuroses do espírito, que o mantêm vivo. A falta é a lucidez. O vazio é a entrega da alma no ser. A verdade é o que me faz real. Sendo essa realidade nua, concreta ou ilusão, é real como eu entrar na minha sombra. E o Sol, inencontrável, satisfaz-se na minha sombra e se encontra na sua própria luz. Luz que anoitece da própria sombra. A alma me sufoca, comigo solta como o vento. A brisa sente o vento como o que se foi. O que sinto é apenas o vento sacudindo as esperanças. O Sol tira a esperança do vento e, por isso, tudo é depois. Há pensamento que é um milagre de Deus. O pensar é o que encontro na vida. O pensar sem vida é o céu. A liberdade é sem liberdade. O silêncio atraindo a alma e o céu a se reerguer. O céu, desespero da alma. A vida se dá a si mesma. O tempo da alma acaba com o tempo de Deus. Não me vou no tempo, mas sim no que fica: para me sentir desprotegida por mim, em uma alegria apenas minha. A alegria é o que não muda e se estabelece, mesmo nas sombras do pensamento, que fere mais que uma facada. O sonho é ferir a alma de amor e, assim, sentir o sonho. Não existe amor no próprio amor. Até a falta de despedida do ser é amor. Não existe amor maior que o abandono de mim. É como entrar no céu sem morrer.

Determinação

O sonho é a determinação da alma. Morrer determina o ser em uma constante presença de amor. A presença não constrói o amor. O amor é união de almas. A presença é apenas a determinação. Mas do que? O amor é a maior indeterminação da vida. Nada se submete à vida como a morte. Como escolher entre a percepção e a vida? Prefiro ser percepção do que ser vida. Perceber me faz não ser, não me deixa morrer. Morrer é apenas ganhar um espírito de sonhos aterrorizantes. Não quero ser refém de um espírito. Rompi com a vida no inefável das palavras. Sonho alto. No sonho consigo escrever, ser poeta. O inefável me faz poeta até aderir a minha sombra. Poesia é a alma vazia no esvaziamento do espírito, como uma proteção de morte e dor.

Procura

Não sei mais o que existe e o que não existe. Procuro a mim. Sentir procura o fim do amor. A procura é para nada ser. O abismo é sem procura. Invade o Sol, é o ar que respiro. Deixe-me no infinito do teu ar. O abismo de respirar não tem fim. Teu respirar é apenas eternidade, é onde quero ficar.

Letargia

A dependência da alma é letargia na pele, nos ossos, no meu ser. Clausura na vida é minha liberdade. Não espero por mim, espero a liberdade sem a vida do céu. Nada sinto no céu. Eu o vejo como vejo qualquer coisa. O mar se traduz em mar. O debruçar do mar na vida é o meu ver puro, como o mar. Suspendo o ar para o Sol aparecer. Fico em mim por suspender o ar no nada, no esquecer da vida, que me faz lembrar da vida, do que tenho, mesmo sem a vida. Apenas o vento abre a porta da alegria, do nada, da vida. Não há portas sem vento. O que me diria o céu no vento?

Sem rumo na intuição

A intuição me deixa sem rumo. O nada me orienta. Eu não sou a sensação de Deus, mas sou o que foi Deus em uma única sensação de viver. O nada une o ser à lembrança, ao ser da lembrança, e o ser sem lembrança é o mesmo agir na espontaneidade do não ser, que refaz o tempo sem história de vida, apenas o reflexo do nada, no desfazer o Sol. Nada se compõe, tudo se prende ao nada. Nada é suficiente ao nada. Tudo é verdadeiro no tempo. Sem a falta do tempo, não há tempo. Nada se é no ser. A falta do ser é o pulmão da vida. Não sei explicar a falta de ser, porém sei explicar a minha falta. O adeus do nada simplifica a minha falta. Nada se vive no adeus, na morte, na inconsciência. O amor é a súplica de não morrer. Até o amor morre. A eternidade morre. O que sente o silêncio, reveste o tempo. O possível é a morte, no impossível de ser. Sentir é escapar pela morte, sem a lembrança de morrer, que é a aparição do nada. O não aparecer é a lembrança da vida. As carícias da noite, no dia a dormir, chuva no vento e poesia em Sol. Atordoada, não preciso amanhecer. Assim é como imaginar o nada tomando conta do Universo inteiro, mas sendo órfã do Universo, mãe de mim, onde a dor pode vir sem o calvário de existir para o que não existe. Por causa do amor, existir e vida são a mesma coisa, no mesmo respirar, na mesma sintonia do meu ser.

Existência

Sentir tudo é sentir nada? Sentir tudo para sentir nada é a existência. Se pode repetir o nada na existência. Se não vivo na existência, onde vivo? Quem sou eu? Estou desorientada como o mar, a remexer as ondas, no sem mistério da vida. A vida não precisa de mistérios, nem o ser vem à vida. O mar, lamento da vida, onde beijo o ar. Nada frustra as ondas que crescem. O Sol brilha mais que o infinito. É uma simulação do infinito sem nada. Puro infinito: a morte que se dá e recebe de alguém.

Aversão ao nada

Onde estou dentro de mim sem o nada? Estou sendo eu sem o nada, que nada revela, mas me absorve, e eu me coloco sem mim na sensação do nada, sem o nada. É como recorrer ao destino, à lembrança, para que a sensação se perca no nada divino. O teu olhar é o nada, que, de tão perdido, fez-se sendo o horizonte da morte, onde fico entre a cruz e a espada, no viver eterno, e não desgrudo da vida em minha pele, que sente a vida sem se destruir. Não há um pouco de ser onde há morte. Esse pouco de ser é inviável, é um resto do mundo no meu coração. De que importa o mundo se tenho a vida? A vida é o sopro do ser no nada dado. E a desordem foi apenas o nada de um coração que não aprende a amar. O meu ama tanto, que não sei de mim.

Sinto minha presença na ausência

Não sei se a morte é cada detalhe de mim. Sinto minha presença na ausência, que é minha alegria. Nada se desfaz em morrer. Morrer simboliza, significa ser. O vigor de morrer me percebe viva.