Não suportar é o nada, é a vontade de viver. Suportar o nada é morrer. Morri por viver. O Sol vai dar seu calor à morte. A morte determina o que sou.
Suportar |
SuportarNão suportar é o nada, é a vontade de viver. Suportar o nada é morrer. Morri por viver. O Sol vai dar seu calor à morte. A morte determina o que sou. |
Ficar na morteNinguém fica na morte, é enterrado com ela. O sonho vem devagar, vazio, sem procura de alma. Meu desassossego é a alma. O sossegar na alma é ilusão da vida. Sem vida, ainda tenho alma. |
NaturalidadeAplico a morte em mim, mesmo a interiorizando. A dormência da alma é a vida. Invento morte onde não há vida. Da ilusão de certeza morre o Sol, enterrado no céu. Não tenho palavras para as palavras, tenho o céu nas palavras. A palavra apenas abraça o dizer. Tudo falta em dizer, nada falta no silêncio. A libertação do silêncio é vazia, é como escutar o som da própria voz. Nada liberta a voz do corpo, pois estão unidos em uma união que não liberta. O nada salva uma vida. Sou teu nada que te ama. A alma da vida sou eu. Não sou o silêncio da vida, sou o silêncio do silêncio. Meu silêncio é mais real, mais sofrido que o silêncio. O silêncio vence o nada do seu silêncio. Esmagar o silêncio na alma é um silêncio ainda maior, absoluto, silêncio de morte. |
RealidadeA realidade não tem essência. A essência sem realidade é a saudade de mim. Saudade é não deixar a vida esperando-me. A realidade expressa a vida que não tem, a realidade dispersa de mim. O fim do real é o amor. Quando olho para o mundo é porque as lembranças perderam-se, como um resto de luz. Luz não pode ser o que eu vejo. Luz é um sentimento, é o amor, é o nada. Existe conhecimento sem pensamento: a alma. Existe alma sem alma. Uma alma não tem influência sobre outra alma. A liberdade da alma é a minha solidão. Nada devo à alma. Silêncio é alma. Céu é o silêncio de Deus no mundo. Sem o silêncio de Deus, não há o que dizer. |
Luz eternaA tristeza tem fim na tristeza, na luz eterna, onde não há escuridão. Nada sai da alma, nem a tristeza, pois a alma não existe. Existe a luz eterna, aparato da eternidade. Deixo a morte à própria sorte, para abrir minhas feridas, meu ar e cavar meu coração tão fundo que posso amá-lo. O fogo não me queima se eu me ver. Ver faz parte do céu, é um pedaço do céu. É o firmamento do Universo que tem fim no ver. Ver é a falta de mim. A morte é o tempo ao nascer. A essência da morte é o nascer do tempo. Por nascer o tempo, não preciso nascer, como se eu fosse o tempo de mim mesma. |
SufocamentoSinto-me sufocar de amor. A morte senta, conversa comigo para eu não sufocar. A vida é apenas pensamento, pensamento sem o ser. Nunca pensar é ser sempre. Esse sempre não tem dúvida de não pensar. Não pensar é alma, é dom. Não penso, pois o meu amor sufoca, então vou morrer desta dor. Não há dor maior do que Deus existir e nada posso fazer por ele: sinto sua morte na minha morte. A morte resplandece como se eu precisasse ter fé. Fé é morrer, é respirar morrendo. |
SintoniaO corpo é uma prisão. Não consigo pensar em mim. Tirar meu ser do meu olhar é o infinito cego de amor. Ver é morrer. Nunca quero morrer. A ganância de ver, como se pudesse captar o mundo, é fingir ver, fingir estar no mundo. Que mundo é esse, se eu não o vejo? O mundo é a minha falta de ver. Estou em sintonia com a escuridão, não me perco nela. Vejo o que é essencial: Deus em mim, onde sofro feliz, sem precisar despertar da escuridão. A escuridão é a luz de Deus a me iluminar. |
DesgostoAbraços, instantes que não voltam a morrer por mim. O necessário é viver suficiente o nada, deixar a realidade entrar no nada, desafogando meu ser. O real é a oração do nada. Ouvi o não ouvir. O não é a permanência do ser. O nada retira a alma da alma, coloca-a no ser. O pensamento não existe: é a alma. A alma não se acostuma à permanência, se acostuma à dor. Dor é o alívio de existir. A existência não existe sem dor. Encerrar o mundo no existir é sem alma. |
Solidão sem solidãoA morte é consciência individual. Incluir a morte no coração é paz no céu. Encontrada pela morte, como se eu fosse meu olhar desaparecido a boiar de sangue. Sonho com o nada, acordada de alma. A morte viva é minha alma. A alma não sabe ser alma. Não sei ser eu – adivinho-me nos outros. Eu nos outros, minha separação de mim no outro. A vida não se decide, se é vida ou ser. Ser. Procuro me parecer com a vida, mas ela não deixa. Um céu de neve envolve minha tristeza. Desci da morte para o céu. O céu amadurecido em estrelas é levado pelo vento por esta solidão eterna. Tudo o que existe é a consciência sem ser, sem vida. Solidão sem solidão é o tempo nefasto. Acordar no nada é melhor que o tempo existir. Minha força é fraqueza da alma. A alma faz a vida acontecer sem ela. Há outro de mim em mim, que não quer sair de mim. A alma é a desrazão pura que a razão necessita. Solidão sem solidão é sem desrazão, sem razão. Tudo pode ser evitado na solidão, onde a solidão abandona o sem solidão. Ouvir é só ser. |
Obstruir a vidaA linguagem da vida obstruindo a linguagem divina em um sopro de luz. Esse sopro de luz obstrui a vida. Sou demais para a eternidade, pois não vivo a eternidade. O céu é uma eternidade vazia comparado a minha dor. O eterno não se faz eternidade, assim como o Sol desaparece e esqueço de ser feliz. A alegria é desabitada, só, como uma rolha no nascer. Nascer de mim é apenas espírito. Nascer é ser duas vezes, é dividir-me em duas de mim. Em mim foi fácil esquecer a alegria combatida com a morte. Tudo era sendo. Ninguém tem a minha morte. Ela é morte apenas do ser, não minha. Entre mim e ser há uma distância intransponível, na qual sinto meu ser sem a proximidade, sem ser só. Só é o que criei em mim, uma solidão duvidosa. O nada atravessa a minha solidão. O nada abraça a minha solidão, cobre meu corpo de amor. O silêncio é um abraço na alma. A falta do abraço é um corpo noutro corpo, mortos no abraço que nunca se deram. |