Blog da Liz de Sá Cavalcante

Percepção da morte

A morte é a percepção da morte na neutralidade do viver. O ser simplifica a morte no ombro de Deus. O renascer da alma é o ser. Renascer é a paz de Deus. Nada é inseparável na minha angústia, onde os meus olhos falam. Como falar com alguém perto dos meus olhos? Olhar não são olhos, é de onde nasce os olhos. Demorar a falar para falar pela eternidade.

Podia ser alma

É minha voz na minha voz. É o juramento de escrever. Podia ser alma no falar, no escrever. É apenas eu que pego na caneta, esquecendo minhas mãos onde escrevi. Precisa de quantas canetas para falar de amor? Mesmo sem usar a caneta, ela é minha, pois a perdi como alma. Me conformei em ser feliz nas frágeis asas de uma borboleta de sonho e mágoa. Ser é dúvida ao que sonho. Reinvento-me sem mim. Ajudo a poesia mesmo sem escrever. Descrever o escrever é mais difícil que descrever o meu amor.

Me soltando dentro do ar

Sou eu, me solto, me aproprio de todos os ares, de todo amor. Me solto em palavras que nunca vi, nem compreendo. Mas a palavra é um parto que não se sente, apenas nasce. A palavra sabe mais de mim do que eu. O universo é uma palavra, é amor, é o nada. Deus se comunica sem palavras. Suas palavras são as pessoas. Nada pode ser escrito sem necessidade. O olhar não é escrito com palavras, é um vínculo silencioso. Para escrever, preciso perder algo precioso, talvez a mim mesma.

Existe o normal?

O descanso da alma e seu sono  é anormal. Seu sono é sua presença. Minha presença é morrer despertando. Existe o normal? O normal de ser normal é a diferença do ser. O que regula o ser é a morte, a única que não me condena. O meu ser me condena. A vida me condena por eu ser diferente. Quem é capaz de conciliar  o ser com o normal? A morte é a única coisa normal, benéfica, ajuda a evoluir o tempo e o meu ser. A vida é tão anormal que a vivemos e ela deixa de ser normal por mim. O que um dia foi a vida? Um descuido? Nem o silêncio quer a vida. Me comovo sem nada de comoção. Talvez seja o amor da alma por mim, ou, então, chegou o instante de eu morrer. Apenas um instante, nada demais.

Luz

A luz se espalha, acende o Sol e nunca está só em sua claridade, como um nascer de um novo céu, um céu de palavras. Cada céu tem um ser dentro de si. Me identifico com o nada, como uma mulher a desabrochar em mim, apenas na alma, nunca no corpo. O corpo é o ser e o nada. Eu sou ser e alma a transgredir o corpo no amor, tirando a pele sem a pele: isto é consciência.

Trocar de alma na pele

Trocar de alma na pele é transcendência da poesia. Deus é presença sem ser presença. No auge de sua morte, Jesus se deixa levar. Não sabe para onde vai a morte, se a morte tem um destino. Sinto, no destino, o ser. Sonho com a pele sem sabotar o corpo. O corpo acorda quando durmo. O ser é a indiferença da indiferença da alma a conduzir o universo no vazio. Eu saboreio até as palavras vazias, que são, também,  vida. O retrato da vida é esquecer na memória onde fica toda eternidade de esquecer. Essa eternidade é o auge de Deus. Tudo é o sempre na totalidade do nada que se abraça como se abraçasse a Deus. A falta de pele une meus pedaços para deixar-me no mar, lembrança eterna de mim, onde meu amor é tanto que silencio. Agora, o viver existe em mim como sendo a liberdade do mar. Gratidão de Deus em mim. Deus é a única pele que respira o meu ser sem pele.

Exterior

O espírito é o exterior do ser, a exaustão do amor. Ser só é morrer. O mundo é exterior a si mesmo, como se o interior impedisse o impedisse do mundo. O mundo não é o mundo, é a falta de Deus nas pessoas. O que nunca foi só nunca vive, e ainda morre sem a solidão que vivencia o meu espírito como se fosse seu. O ar sobe no espírito e evapora o espírito como se fosse meu fim. Não existe vida no fim, mas existe o recomeço. Recomeço sem vida, infinito do fim. A morte é o particular de cada um, é me expandir na morte, na profundidade de um abismo. Sofrer hoje para ser feliz. Mãos chegam perto do céu sem o corpo. O corpo impede o céu de viver as sobras do corpo. É a memória a vida do céu, onde cada ausência é o luto de viver. O corpo absorve o ser sem mãos. E as mãos inexistentes de Deus constroem o ser na alma. As mãos inexistentes de Deus são Deus. Amparo Deus no céu. Borrar o céu numa aquarela de cores e sorrir para o meu chorar na luz do amanhã.

O descanso no adeus

O Sol vive no descanso de um adeus. A vulnerabilidade do céu fez nascer a eternidade. Sentir é a falta que veio como se, além da falta, eu pudesse viver da falta de mim, da eternidade. O adeus descansa no inexistente do seu adeus. O adeus faz parte da vida, do céu, me ensina a amar. Longe ou perto, sou o mesmo ser. Nasci da morte? Não, do amor. Inexistência é um amor que não é contido. A vida é o eco da inexistência. A voz é um sonho sem existência, nem inexistência. Quando falo, tenho vida. Falar eterniza o amor. Nada explica uma inexistência ao ausente. A inexistência é plenitude no medo de ser feliz. A inexistência ausente é o clamor de Deus no alívio da vida. Nada justifica a presença, ela é o fim do amor. O fim da inexistência é a vida da inexistência num apelo de alma sem ser alma. Sofrer é não ter inexistência. A inexistência do céu é Deus a sofrer de céu. Prefiro a inexistência do que a alma, oscilações do vazio. Nada é mais inexistente que a morte. Viver ou morrer é a mesma coisa. Como faço para nem viver ou morrer? Simples: sendo eu. Ser eu é a definição de tudo que sinto. Sou eu por causa da inexistência, na saudade de mim sendo eu.

A solidão de não ser só

O sonho é a soma do vivido. O Sol diminui o sonho. Como vai haver uma brecha na solidão de não ser só? Não se preocupar com nada é essência da solidão no depois de ser. Depois de ser, sou uma pessoa. Nada nesta vida sabe como será o amanhã. Não suporto o nada do amanhecer. A perda é onde nascem as sensações que não foram descobertas em viver. Elas são a falta de ser a eternidade, moldura da vida. Nem o silêncio cala o nada. O que supus ser pela vida é apenas uma realidade morta por mim, pois não estou na vida para sofrer. O real de mim foge de mim, é o meu silêncio interior. Meu interior é o vazio de mim no mar da inconsciência que nunca ficou em mim, nem saiu de mim. A inconsciência se basta como o amanhecer a chorar. O impacto de morrer é não ter mais lágrimas. Mesmo assim sente a dor agonizante de viver. É como pousar em mim. A dor se sacrifica pelo nada como uma saudade não resolvida. A dor e o nada se amam em chamas. O desalento é a alma sacrificar não o ser, mas o entendimento de ser a história da vida é a decomposição muda da alma, que não termina na estranheza de ouvir. Ouvi minha imaginação no real de mim. A solidão de não ser só é a alma se debatendo. Não posso modificar o que imagino ser. Não sei onde sou eu. O raso em mim é poesia. Poeiras de poesias salvam minha pele do meu ser. Machuco a pele para me sentir. Ainda estou aprendendo a ser eu para as minhas poesias, O nada acolhe a eternidade que está ferida de alma por causa de um sorriso de amor. A solidão é a pele grudada no coração, nas minhas entranhas sem esperar pela vida.

Repulsa da morte

Morte é morte. Alguns não sentem a morte como morte, transcendem nela. Comemorar a vida a crepitar a náusea como se ela fosse uma fala. Experimento também o nada em mim. Vi que nada do nada ficou em mim. Rastejo no meu corpo, sinto a leveza de ser no meu corpo. As minhas pernas salpicam estrelas, tentam imitar o andar do céu. Descrevo o céu contando estrelas para ele se fazer em mim, com alma de estrelas. O céu é a glória de Deus. Tudo é céu para o céu. Como Deus pode  demonstrar amor pelo céu? A morte é maior que Deus. Deus não desiste da vida, das pessoas. Mas desistir não é morrer. O amor é o céu. O que é Deus? Para mim, é a esperança de ser eu em mim. Esperança é uma saudade infinita que não sei explicar: é como falar pela primeira vez. Martírio é ver além da fala, é esculpir meu ser na morte. No deslize das mãos, criaram vida, moldaram a vida em mim. Tenho dificuldades com meu corpo, não o sinto. O corpo me sente à deriva de mim. Fiz da esperança o asilo do meu amor. Sem carência, numa solidão que treme por mim e meu amor vibra. Cada tremor da solidão é a vida do ser recuperada na duração de ser só. Resisto a mim. Sonhos morrem por não serem só sobreviver vivendo por morrer, onde nada enterra minha dor no meu gemido. Para ser, é ver minha presença sem voz e sentir sua companhia tão distante, que confundo o amor com presença. Presença é aceitar o silêncio que a vida nos dá. Silêncio é mais que amor, é o haver sido, mas o corpo reage ao silêncio na eternidade. O silêncio se despedaça num abraço. Foi assim que percebi que sou só. Desaprendi a falar falando infinitamente, e o céu entrou na minha fala para eu lhe dizer adeus.