Blog da Liz de Sá Cavalcante

A minha alma muda por mim

Minha alma me protege comigo em cinzas. É melhor ser cinzas. A angústia não sei de onde vem. As cinzas sou eu. Saudade é queimação eterna. Sendo cinzas, sou o ar de Deus. Não adianta dar um amor às cinzas. Cinzas não são morte. Cada alma se deixa em cinzas. O nada é sem cinzas. Se o nada não sabe o que é o fim, deixe-o sem cinzas. O fim é o silêncio que repercute nas cinzas. Mantém a minha alma, a minha tristeza em cinzas. O eterno em cinzas morrendo da falta de mim. Como o eterno sente falta de cinzas? O eterno é o fogo que apaga as cinzas com suas próprias cinzas. O desespero é falta de cinzas. Mas no meio de tantas, como o desespero sente falta de cinzas? São tantas cinzas em um mundo vivo. O renascer das cinzas é a solidão. Eu sou apenas cinzas. Queria me sentir só. Morri de amor.

Carência

O silêncio, carência de Deus. Sou feita do deserto da vida. Clareio o Sol. Rareia o Sol. Afasta-o do nada. O semblante virou água. O olhar ensina a viver. A luz afunda o olhar. Apalpando a vida, resgato meu olhar sem luz. A luz é o não saber da consciência. O céu é a falta de morrer. Nada me separa da distância das minhas mãos. Mãos que dão vida aos que não têm. Isso é poesia. A carência aumenta na poesia. Na poesia sequer sempre mais.

Na alma falto a mim mesma

O não existir não existe. A morte é existência, cessa o não existir no não existir. O não existir não desaparece no não existir. O desaparecer no não existir é a morte. A morte desaparece na morte, na luz do adeus. A luz do adeus é o respirar de viver. Respirar sem viver é transcender no nada, e assim esquecer o nada no nada. O nada é fino, não pode rasgar. O infinito é tão fino que é indestrutível. A imagem desaparece no olhar. O sono, ausência de Deus, onde tudo é mar. A vida é a inconsciência do nós como alma.

Universo de almas

O olhar é o fim do mundo, começo do ser no Universo da angústia. Sentir a dor é coragem para nascer e morrer. Construa sua ilusão de morrer, não a minha. A morte não é fria, é justa com o ser, mais do que com seu fim. O fim é a falta de anular o ser, por isso fica apenas o humano. O mundo não é humano. Nada constrói só, nem mesmo a solidão. Mas ainda se pode chorar só, não ser só como as estrelas, como as palavras. Posso ser só como sou. Nem as almas se contradizem em sua solidão, pois a solidão é íntima, particular. Estrela é consciência do nada. Sem mar, sem vida. Nada pode me tirar de dentro de mim, nem mesmo a morte. Sou metade eu, metade morte. Nada morre ou vive sem poesia. Ainda sei como uma poesia ama. Amo o que me separa de mim, sem morte ou dor. Permanecer é não durar. A morte dura, não permanece, não é uma presença. Rezar cessa minha alma, na minha presença. O mundo é perfeito só. Vivo por ser só dentro de mim. Carrego a morte no corpo. A morte é minha pele. A pele corrói a vida; a vida corrói a pele. Não sei ter pele. Feridas da alma são peles raras, que me devolvem o passado em peles. Peles escorregam do corpo, têm vida própria. Sonhos se agarram em vida. A vida é proibida em sonhos. O tempo passa, pessoas ficam. Não há consciência sem morte. A consciência faz nascer a morte. A morte não faz nascer a consciência. Velada, a morte é verdadeira. Sinto a essência da morte no meu corpo. Pele por pele, resta a morte. Morte é o sobreviver da pele.

Eu me desarmo

Eu me desarmo da morte, que me determina morrer. A morte é um tempo igual, sem erros perfeitos. A morte é perfeita. A violência é viver. Necessito ser perfeita. Abra os olhos, vida, para reagir a mim. Para eu ser invisível para morrer. O irreal é incompreensível. O real é compreensível até sendo irreal. É impossível viver no real. O real é alienação. Ressecou o mar de amor. O silêncio chega ao mar e o transforma em ondas de solidão, para cessar a dor. O mar encolhe o Sol. Ganhei resistência no enfraquecer do meu coração. Minha alma vive do meu coração, mas o coração envenena a alma de vida. Quando ser é ser não existe passado. Existe o ser como agora, na falta da minha presença. A alegria não sei lidar com ela. Alegria para mim é a solidão do outro em mim, onde me sinto menos só, em paz. Alguns nascem felizes, outros ficam com o tempo. Alguns nunca terão alegria, por isso sonham, transcendem e são eternos na dor.

O pensar não pode ser minha existência

O pensar é mais que a existência, é o que tenho dentro de mim. O Sol conduz a existência em palavras ensolaradas. O canto sem palavras é livre para ver o som no interior de mim. A existência é o meu interior. Falar só é universal. O outro é a tragédia em mim. Sem o outro, não há decepção. O mundo é o silêncio do outro. Meu ser não substitui outro ser. O mundo é a fala do Sol. A paz se foi e resta o coração a bater. O coração sem bater pela vida, a bater na morte, é um coração que não vive, é apenas poesia. A poesia nunca será um coração para alguém. Não sei o que fazer com o fim da solidão. É o fim da vida. O infinito é alguém que nunca vive. O ser não é para si. O ser é da alma. O nada enriquece a alma. Apenas ele sabe morrer. Morrer é ser eu mesma.

A voz da solidão

A voz cessa a voz da solidão. O martírio é o fim. Nada dá certo, nem no fim. O fim é um sorrir eterno. O nada do nada é liberar o ver para o ver eterno. O fim não é o ver eterno. O silêncio não vive, mas a paz de uma alucinação é apenas o silêncio da morte, é um grito de socorro. Nada se escuta na morte. O Sol esfria a alma. O silêncio mata a alma. A inexperiência da alma é o amor do espírito em mim. Assim, sou imortal no amor. Nada vi no amor. A incompetência da morte me faz morrer. Sempre me separo de mim. A alma impede o mundo de existir. O mundo é apenas almas. Confundo-me comigo mesma. Não sei se morri, se estou viva. Sei que flui o desespero como se algo deixado no mar me lembrasse meu corpo. O que aconteceu com meu corpo em mim? Em mim o corpo é uma viagem, um nada no abismo, onde posso ser o que quiser ser. Abismos são as possibilidades do mundo, para o mundo se excluir de si mesmo e incluir o ser como o fim do mundo. O que explode no silêncio acontece apenas no silêncio. Ele não conhece a alma, por isso tem um destino. Um destino sem destino, na margem do ser. Ver é o inessencial do ser, sem margens para o ser existir. A imagem é um sofrer eterno, onde me identifico com o nada. Nada é real. Tudo é culpa, morte, dor, desânimo, mesmo sem a vida. O esplendor do nada vive dentro das reconciliações com a morte. O ser é sem fim na morte. Aprendi a falar estrelas. Liberdade é ter Deus em vida e em morte. Nada falo de Deus. Eu o amo. Amar é silenciar. Silêncio é dar asas à imaginação, sem nenhuma liberdade de mexer meu corpo. Mas na imaginação meu corpo não é fragmento. Projetar meu corpo na vida. A alma é força mortal que me escraviza na morte. Apenas pela eternidade terei o controle do corpo, da alma, de mim, na imobilidade do Universo.

Determinação sem vida

A necessidade é o que o ser não precisa. Sentir a dor não é ter a dor. O amor está morto dentro de um amanhecer excluído do mundo. Toda a vida não é a dor existente em mim. Ela está fora da vida. O instante é apenas não ficar em mim, sem conseguir chorar. Nada é o meu chorar, por isso não estou vazia. A falta do vazio me fez morrer. Nada desaparece sem a falta vazia de mim. Morrer e viver é a subjetividade do ser. A concretude do ser é não viver, não morrer. A morte vem de dentro de mim para a vida. Vida é o que está fora de mim, está debilitado na vida de fora. A alegria vem e, partindo, fica em mim. O nada é feliz como uma alma vulnerável, desconectada de tudo, por isso não morre. Confio no que sinto. Tropeço em almas que fogem de mim e as encontro em um talvez de mim. As sensações afastam as almas com a ilusão de ficar. Preciso de almas para acalmar o meu amor. A alma é superior a mim. O amor é superior a tudo. Nada pode tornar o amor em amor. Temos uma ideia vaga, um pressentimento do que é o amor. É um mistério. Os dias se misturam solitários, deslizam no ar. Há diferença entre pensar e ser. O pensar é algo morto, nunca está pronto para a vida. O ser é mais essencial do que o pensar, é amor. Pensar, fim de mim mesma, em uma transcendência apenas de corpo, onde a alma é mais intensa do que o morrer.

Decepção de ser

Ser é vida, decepção. Presença é ter onde morrer, sem a presença da vida. Eu não posso ser presença. Sou apenas presença para não ser presença de nada. Minha presença me mata. Tenho alma sem presença, mas vou ficar bem. Nada me impede de morrer pela vida, pelo amor, ou de apenas morrer. É silencioso o não morrer. Nada digo em vida, pois a vida é surda. Perde-se mais em não ouvir do que em morrer. Escuto a vida sem ela me escutar, por isso sou feliz, porque sei que vou escutar a vida, mesmo morta. A vida nunca me deixará totalmente. Deixei a vida ao escutá-la. Eu escuto o nada. Eu me refiz com o nada. O nada foi meu adeus, meu adeus a mim. Eu tinha a mim e não percebia. Agora me percebo no meu adeus a mim, voltando a ser o que eu era: eu, sem vida. Apenas na alma não morri.

Vida da vida

A insignificância da alma é a vida da vida. Salva a morte do que tem de pior do que a morte: a minha tristeza de morrer. A morte é a reciprocidade de viver. A vida da vida, a alma é a tristeza do ser. A tristeza da vida é a plenitude. A tristeza é o significado da vida, quando nada mais tem um significado. O significado nada significa em mim. O significar isola o ser no seu pensar. O pensar nada significa, mas sem pensar não existo. Existir não me faz pensar. Pensar é ficar perto de mim.