A infidelidade da alma não me faz fiel, é mais fácil morrer que ser fiel à alma. Não sei como não morri. Acho que foi pela necessidade da poesia em mim.
Fidelidade |
FidelidadeA infidelidade da alma não me faz fiel, é mais fácil morrer que ser fiel à alma. Não sei como não morri. Acho que foi pela necessidade da poesia em mim. |
ExclusãoFicar afasta o meu ser. Fico com as palavras e o mundo inteiro em mim. O resto apenas fica. |
TranseViver isola o ser como a alma no transe do amor. Almas gêmeas são o fim de Deus. Ficam perdidas entre o ser e o nada. O que atravessa a alma é o espírito como fim da morte. Ninguém julga o espírito, nem a imortalidade, mas julgam Deus por seu amor. Ficou apenas Deus e o seu amor, e a eternidade se foi. |
NeveEu posso formar uma morte, nunca uma personalidade. Corações de areia derretem no mar como uma lembrança do corpo, que abastece o Sol na neve, e isso me deixa leve. São poesias. Poesias são como rezas. O ser no pensar não é ele mesmo, é apenas um pensamento, sem essência, o pior da morte em mim. Conversar com a morte é solidão. Nada é melhor do que a solidão dos meus olhos, sem ver, sentir, sem saber o que escrevo. Escrever não é triste, é lutar contra a solidão, os sonhos. É encontrar a realidade de viver. A morte é o que pertence à outra morte, sem o destino. Arrancar a morte de mim é me arrancar de mim. Luz não é esperança. Luz é o ser. Ser é luz, é a vida de outro ser, que deixa o ser sem luz. Se a luz é sempre clandestina, a escuridão é de todos, totalidade da vida. Arranho o céu de tanto amor. Real é o que resta do ser ao morrer. Sempre resta algo, até do que não existe. O que existe é escuridão, sempre neve sem a poesia, que tornou tudo real, e agora é apenas um passado sem saudade, sem sofrer. Mais estranho que a escuridão |
Comunicando pelo abismoAs palavras e a fala se comunicam e nascem por um abismo. São carícias da alma. É maravilhoso, extraordinário viver num abismo e catar, procurar algo como se fosse a vida. O mar pode levar a vida. O importante é saber que houve uma vida. Podem passar séculos. Não a conheci, mas já a amo. |
O que continua sem ser eternoA ausência continua sem a eternidade. É sua eternidade ausente. Presença é o que restou da ausência. Parecer é falta de ausência, onde nada diminui o olhar vazio sem dor, numa memória que nunca diz adeus. Memória faz viver o nada que não se vive em mim. Sonhos aperfeiçoam o nada. Aprende a nada dizer, nem pelo infinito. O infinito são sobras da vida. |
Apenas o céu tem fimTudo é aparência de ser, nada existe, existe apenas o céu que também acabou no amor de Deus. O esmorecer esmorece. Só não há nada que possa ser triste ou feliz. Tudo foi um sonho eterno. |
O outroTer o outro, fazer-me outro me conclui. A abstinência de mim é ter a mim. Nada me conforma com a realidade. Real é não poder ver. Ver é sem o ser. Nenhuma forma de ser ameniza o real de ser. O ser é a lembrança de Deus no real de mim. Não consigo sentir o real de mim. Talvez o real seja não sentir. Não sentir é minha voz a sofrer por amor. Viver sem o sofrer é não viver. Nada esqueço do não ser em mim. Esqueço do meu ser em mim como uma sombra do infinito. Me apego ao meu não ser. Dependo dele. Nada falta à falta. A maldade, a tristeza, a pele é a tristeza que corrói, me mata, me defendendo de mim. Ser triste é morrer sem morrer. |
FaltaO ser nunca é uma falta. Morre antes da falta, como eternidade de Deus. Viver como se nada fosse antes do morrer. Se eu não tornar a falta uma ausência de esperança, nem o céu vai querer o céu e a poesia será inútil. Quando o frio acaba, não adianta morrer. |
Sedução da morteA morte é a vida em único ser. Ser que não dorme sem a morte, numa alma absoluta, num ser absoluto ao redor do nada. Sem ilusões, fantasias, onde a única ilusão é o silêncio no fim do ser. É quando mais se precisa falar. |