Não vou me sentir morrer. Vou me sentir, você, meu outro eu. Tenho energia em morrer. Nada esfria a morte. Está quente. Dissolver em dor, o que não existe nem na existência. É a vida da alma buscando o real de outra vida. Assim, o ser entra em si só buscando seu outro eu, incansável. A morte é meu outro dia. E eu, o outro dia da morte. Vamos adiando o amor, o sentir e, unidas, a contemplar a vida, vi que nada somos. Morreremos do nada por medo de perder o amor. Sei que o teremos, não importa quando. Por enquanto, as sensações da vida se tornam meu amor. As pessoas se desconhecem. Vou amando. Não sei o que é ainda amar, mas, ao ver meus olhos noutros olhos, entendi: todo amor é possível. Ver o nada é amor. O respirar é amor. Eu no outro eu é o desperdício da alma no meu viver. Não admitir ser só, solidão, sem amor, é perder a voz. Voz para mim mesma. Não tenho voz no meu amor quanto mais para os outros. A morte se divide entre mim e a poesia. Nasci, mas nada mais existia, nem procuro que exista. Quem existiu como eu na distância da vida tem medo até de sonhar. O impenetrável é a carência da pele se rasgando para viver. Tudo que é impenetrável é o nascer da alma, é a purificação de tocar. Sentir o que me isola da vida. Deus nunca será minha vida. Após a morte, não há vida, não há solidão, apenas eu me perguntar se meu outro eu existiu um dia. Desanimada, me concentro em morrer. Tudo já se foi. Faz muito tempo e meus olhos ainda brilham, procuram ver algo. Quem sabe o amor?
