Blog da Liz de Sá Cavalcante

Deixe-me ter pele

Minha pele não me deixa sentir, mas também não me deixa morrer. Deixe-me ter pele, que não seja nada. Essa pele, ela é apenas ter. Ter toma a pele como ar. A pele não respira, é ar. A pele se rasga pela vida para eu ser eu mesma. A vida é ninguém, mas me fez ser eu. Não sinto a solidão da vida. Apenas amo.

O Sol noturno

O Sol noturno é a alma. O viver sem escuridão do Sol noturno é eternidade. O tempo se diferencia do Sol. A alma e o Sol não podem ser o tempo sem alma, sem Sol. O Sol é a lembrança tardia misturada com o esquecimento tardio, por demorar. Não há esquecimento, nem lembrança, há apenas ser. O ser desconecta a vida vazia. Agora posso sentir a lembrança e o esquecimento, viver. Nunca mais os esquecerei, pois estão dentro de mim. A morte vive outra lembrança, outro esquecimento: o de morrer, que separa a morte lembrada da morte esquecida, esquecida na morte. Eu evito morrer. Quero me consolar na falta de lembrança, de esquecimento. A vida nasceu do esquecimento. O espelho do esquecimento é a alma. Quando o espelho se quebra, a alma morre por não ver seu esquecimento. O espelho recolhe seu olhar. Respirar faz eu me esquecer. A imagem me deixa incompleta. Não quero sonhar. Sonhar é a imagem do fim. Desligo-me da alma. Morri por ser boa. Melhor ainda é o fim como fala. Nada é o que persigo. O tempo persegue a si mesmo. O “em si” não é um ser. Nada supera o ser. Existem seres que se unem pelo amanhecer. Nada vi amanhecendo. Eu acredito sonhando. Onde está a morte? O céu, as estrelas simbolizam a morte. Não há como fazer estrelas. Destituí-me de mim. O pior disso é não poder mais escrever o sentir. Sentir é uma estrela que não brilha, é a estrela do nada como sendo a infinitude de Deus. Deus sem estrelas é o sentir que nunca chega. Quero que o meu corpo me ame como o desperdiçar de uma estrela. O tempo de uma estrela é a falta de céu. Nada fica entre estrelas. Procuro estrelas, mas elas são apenas compensações. A estrela é uma forma de esquecer meu corpo, morrer e viver. Sou morte, sou vida. O Deus das estrelas é o céu. Deixo a alma acesa. A alienação da vida é a estrela. Nada se é sem estrelas. Conto teus céus para as estrelas. O dormir é a eterna estrela que não sente como partiu. Escrevo para a morte sua resposta: é a estrela nas mãos de Deus. Deixo que nas unhas do amor desapareçam as estrelas em mim. Nunca esse desaparecer é por onde o corpo nasce. O corpo nasce pelas estrelas. Esse nascer, onde a alma esquece de viver por nascer. Morri emocionada, sem estrelas. Tudo é respeitado. É a consciência do não haver que torna a vida real. O desaparecer torna a estrela real e memória e esquecimento não precisam ser estrela. Tudo se sofre em estrelas. A minha ilusão de estrelas é porque a vida não cessou por causa da estrela. Eu sou a infinitude da estrela sem a compaixão pelo infinito. Infinito é o corpo da alma no fim do tremer das estrelas.

Consciência da morte

O ser da morte é o ser real no estranhamento do nada, que me faz soluçar vida. Eu me misturo com a vida. Não assimilo a consciência. Sonho ser a consciência de algo. Quando sinto a morte, tudo se dispersa, sem consciência. Consciência é um resgate de vida. Pensei não haver vida, consciência. A morte me fez ter consciência, vida. Não quero perdê-la, pois seria perder tudo em mim. Minha substância é a morte. Tudo na morte faz existir a realidade. A consciência é a morte eterna.

A origem do nada

O ser cessa o mundo no seu amor. O amor não é o nada, mas é a origem do vazio. O vazio estrelado de alma nunca esmorece. A tristeza é um poço no qual necessito cair, para erguer minha alma de amor. A alma é subentendida no meu amor, que exclama ser. Sem ser, sou muito mais eu. Terminar o ser é poesia. Cessar o ser, eu na poesia, é tristeza. Mas essa dor faz eu viver na poesia, como luz da poesia. Sem essa luz, a poesia seria escuridão.

Poesia eterna

O paraíso se desfaz em poesia eterna, sem a eternidade do agora. A vida é intramundana se não existir céu. Eu me inspiro no céu, no sonhar do céu para escrever. A ausência de escrever é uma luz vazia. Mesmo se eu não existisse, mesmo assim existiria.

O amanhecer poético em poesias

O amanhecer poético é um buraco no nada. Sem faltas, a poesia é incompleta, incompreendida. Poesia por poesia, resta eu. Na poesia sou quem me sente. O buraco é a aceitação do mundo como falta e negação a mim, para viver sem faltas. Posso negar a mim, mas não posso negar a alma, nem as faltas que fazem falta à alma. O destino é apenas pertencer às próprias faltas. A poesia dança suas faltas, flutua na escuridão como um resto de nada no amanhecer poético. E o amanhecer é mais limpo, verdadeiro no nada. O amanhecer é o partir do meu corpo no esvair do silêncio, como a alma, como a origem de tudo. Nada esqueço na alma. A perda é inesquecível. Torna a alma humana com o meu sorriso, que é mais, é sempre. A poesia é eterna na alma, sem suspiro, sem dor, sem a liberdade de sonhar, sem sonhar. Fica apenas o devaneio real de existir e para sempre cessa na existência, que não existe. Existir são só palavras.

O movimento da vida

Este desmoronar em mim são os movimentos da vida. O movimentar da vida sou eu. Nada conquista a vida. Os sonhos estagnam a vida. Céu de portas fechadas, almas abertas em um tempo curto. Nada há para eu ir para o céu. O céu veio até mim. Não fiz do céu o meu ser. O céu me fez céu. Céu é um estado da alma a se tornar estrela do amanhecer. O se fazer estrela é sem alma. Invento sonhos inexistentes. Sorrir aprofunda a alma, deixando-a desprotegida. A morte do corpo sobre a alma é a compaixão da alma. Há um lugar no mundo para a alma? No esquecimento de Deus ou será dentro de mim? O tempo é um silêncio próximo do nada.

A vida imita a arte

A morte é o único ser de um único mundo. A morte é um suspirar no infinito. A solidão da morte é o infinito da minha liberdade. Sou só por necessitar morrer, como se eu fosse de vidro e, por isso, seria indestrutível nos cacos de vidro, que se espalham, dando lugar ao meu ser. Ser para mim é isolar a imaginação da vida. A vida não merece a minha imaginação. O Sol esquenta o imaginar. Fico sem o olhar de Deus e apenas me imagino, sem me olhar. Meu olhar se esconde por dentro de mim. Afundei-me na minha superfície por pensar em ver com o olhar e não com a morte.

Uivando a dor

O interior é o desconhecido de mim. Tocar o desconhecido é ser íntima da minha alma, do meu adeus à vida. Nada é, assim o adeus não tem de quem se despedir. O adeus nunca é uma despedida, é o que construí pela força de um adeus. Eu jamais viveria sem adeus, continuação da vida. Não preciso saber de que são feitos o Sol, o céu, as estrelas. Talvez sejam feitos do meu amor, do meu afastamento de mim, que sozinha sou eu. Eu, sem solidão, por ser só. Uivando de dor, percebo que sou apenas o uivo que esqueceu de me fazer morrer. A luz das estrelas cessa com minha morte.