Blog da Liz de Sá Cavalcante

A falta da falta

Evitar a vida sem a falta da falta. Me desabo na morte para sentir meu corpo, para chorar por mim. Encontro forças no chorar, assim como o mar colide com as pedras, a vida, colide com a morte, o céu com o mundo. Para que a distância, se estou distante, sem distância? Acima de Deus tem a morte. Acima da morte tem o céu.

Mãos vazias

É melhor não ter mãos que ter as mãos vazias. Tuas mãos escapam das minhas, como um sonho. Como uma distância impenetrável, cessa na morte, onde não importa mais. Minhas mãos, sua dedicação à vida. Mãos vazias para me enterrar dentro de mim. Faço das minhas mãos meu único sol, única vida. Quem tem mãos tem tudo. Posso me devolver à vida pelas minhas mãos.

Estilhaços da alma

Pelos pedaços ainda sou um ser. Ver pelos teus olhos me despedaça. Ainda sei ver com meus olhos: é quando minha alma são estilhaços, sombra da dúvida da vida. O universo não tem o meu universo. Na tua paz eu tenho paz. Mãos da paz do corpo, escreve o corpo com alma. A alma se escreve no corpo. Sonhe comigo no ar do amor. Não sei o que é alma, e o que é corpo. O que não gritar de amor é o corpo. Corpo e alma têm a mesma existência. Não têm o mesmo céu. Para deixar de ser, tenho que amar.

O começo é o fim da alma

A alma quer amar só, sem o ser. Para o ser, a alma é um paliativo. A alma é uma vida sem vida tudo na vida é alma. O fim é o tudo na vida absoluto da vida. O sol rompe com a vida ensolarada: é como partir do fim. O mar se banha de sol. A fala e o sol são maneiras de comunicar o amanhecer, no morrer eterno: não há eternidade, nem vida no silêncio. A morte, autônoma por viver no fim de si mesma, é consciência de vida. A vida é a eternidade do amor. O ser, fim do amor. As palavras são amor. Tudo que desaparece no silêncio voa no imaginar. Voar na realidade é transcender no sonho. Quero voar sem meu corpo, sem minha alma, quero ser esse voar no finito de mim.

O olhar da mente

O olhar da mente, eternidade da morte. O olhar da mente traduz a insensibilidade de ser, na sensibilidade do ser. O ar produz realidades sem o respirar. Respirar é o infinito da fala. Nada é comunicável sem o infinito. O olhar da mente é visível no amor, na morte: é da morte. Para nascer do olhar da mente, o nascer se faz morrer. O corpo morre, deixando-me ser morta no olhar da mente. Não há um olhar para o ser. Ser pelo ser é o olhar faltante, é o ser. O ser escuta o olhar, começo do fim do olhar, atrai mortes irreais. Um pedaço do olhar ainda é real na vivência perdida em almas. Olhar por trás do olhar é não morrer. Há lembranças do olhar que são almas no olhar. A aflição é uma lembrança no olhar.

Aparecer

O aparecer é uma ausência sem alegrias. O céu contempla o aparecer. O aparecer ausente é a falta de nascer uma lágrima que não nasceu. A morte me fez ver, sem o inesquecível de mim: foi uma libertação. Minha alma, na liberdade do nada, não me deixa ver. O mar se fez canção. Ondas que se repetem no meu pensamento. Como luz, amor que sempre retorna no mar do meu olhar. A morte desperta o olhar na recordação sentida, ouvida sem o silêncio do nada. Inspirada a recordação a morrer em silêncio, sem o silêncio de ouvir.

Alma efêmera (curta duração)

A alma se dirige a um nada diferente de tudo já sentido. Não é um nada do nada, é um nada de morte. Se eu procuro a alma, encontro a mim, se eu procuro a mim, encontro a alma. Esse desencontro é a falta de mortes em mim. Tinha tantas mortes, agora nenhuma. Falta Deus na morte: perda do céu. O céu, Deus, é vida. Deus em Deus, é meu ser na vida. A distância de Deus é o ser.

A evanescência do nada (desaparecer)

O desaparecer do nada é luz na escuridão. A escuridão é o amanhecer interior, um pouco de mim na morte que sou. Multiplicar o nada sem mortes é raro. Sentir é me dividir no que sinto, para o outro existir. Morrer é um dom. É natural viver por viver apenas. Escrever é meu corpo, minha alma, minha poesia. A principal vida sem faltas é a alma no adeus. Adeus, sem o adeus do nada. O nada é uma forma da alma agradecer ser feliz. O nada é o que eu sonhar. O amor não tem essência. A morte é catarse na alma. O desaparecer do nada, é sem catarse, é poder reparar na morte. É subtrair meu ser no nada. Sem me diminuir.

Morte aprisionada

O ser domina a morte com pensamentos divinos, num sopro de morte. Apenas o ficar sente a ausência sem o corpo. Ficar é ausência do ficar, não de ser: isso é permanecer, mesmo sem presença, na presença do outro. Duas presenças são a falta de um único ser: eu não estou na presença. Não sou ausência: sou a subjetividade do nada no coração de alguém. A destruição da alma não é o amor, é algo maior: é a sensação de amar. É tanta pele no meio do nada, o ser se desfez em pele. O som do nada me inspira além do silêncio, além do retorno ao nada. Eu não acredito no ficar apenas para retornar. Retornar de onde nunca estive. A insegurança do mar é o sol, é a vida. Afastar a tristeza com a consciência me deixa ainda mais triste. O nada substitui o vento, a sede, a fome, substitui até o próprio nada, mas não substitui a morte, como a sede, a fome de morrer, no ventre da solidão. Recuperei minha alma por causa da solidão. Sem a solidão não há o nascer da alma, na alma. Perco os sentidos, mas ainda sinto a alma. Não posso morrer, se eu sinto a alma. A morte está aprisionada no meu ser, por amá-la, como amo a alma. Enfim, não tenho mais medo da solidão: ela é pedaço da minha alma, onde me despedaço inteira, porque as palavras necessitam de mim para viver, sendo poesias, mas elas vivem apenas se tiverem a minha solidão em mim.

Como saber como e quando cessa a vida?

O esquecer é rude por isso não maltrata. A vida é inesquecível na morte como página em branco: não precisa ser escrita. O desânimo é um estado de alma, onde me sinto morta. Posso me enganar da vida, pela consciência que não habito. Estar não é ter consciência. Consciência é ausência. A vida cessa numa poesia infinita, substitui a vida. Não há cessar na consciência. O corpo é amor infinito numa vida finita. O nada vê meus olhos. A distância é a sensação que tenho olhos, corpo, mas nem a proximidade, me torna eu. Na vida, sou eu, sem o meu corpo, meus olhos, sem a sombra da minha ausência: torna tudo possível, até eu morrer por ter um corpo, olhos para ver. Nada auxilia minha inexistência. Ver o bom como ruim é o nada interiorizado em mim. O interior é ruim na alma. Meu interior é a morte. A morte é a visão do mundo. Toda sensação é igual ao morrer. Sensação é alma, é a espera infinita do vazio. O que é no fim de si mesmo. O fim não é o ser. O ser é o ser do ser de outro ser. Ser é pele, ser é sacrifício. Ser é a intuição vazia do nada na ausência do não ser. Ver não capta o visível. Nada na transparência do ser. A vida morre sem ausência, perda, lembrança, mas sofre ao morrer. Meu olhar fundo de tanta morte me vê morrer no fundo de si mesmo. É tocante o céu a me esperar. O tempo do céu não é o tempo de Deus. Deus é sem o tempo. O esquecer é união da alma com a plenitude, onde o corpo é excluído na alma frágil, e a alma forte recebe o corpo. Substituir o corpo pela falta de sonhar pelo nada, pelo amor, é me abandonar sem alma: na alma da ilusão. Me deixo no nada do corpo que me falta. A justiça de Deus é a morte.