A morte faz eu me aproximar mais ainda da vida. A morte é luz que não se vê. Ver é ser capaz de morrer, esfriar para morrer, para dar calor à vida.
Martírio |
MartírioA morte faz eu me aproximar mais ainda da vida. A morte é luz que não se vê. Ver é ser capaz de morrer, esfriar para morrer, para dar calor à vida. |
O amor da vidaA morte é a única angústia que é um ser no amor da vida. Morrer para sentir angústia. Não sou mais um ser: sou angústia pura, apenas. Tudo isso, por isso morri. |
InjustificávelNada se justifica, nem em vida, nem em morte, nem em mim. Tudo se destrói na justificação, como se tudo fosse Sol, amor, nostalgia. O amor não pode ser Sol. Sol é a eternidade do amor. |
O silêncio sem silêncioO silêncio sem silêncio é ingratidão das palavras. As palavras sonham em silêncio o que não consigo sonhar. Tudo se resolve em sonhos. Morri nos meus sonhos, como se eu não me descobrisse só e me descobrisse feliz, inteira como um Sol sem luz. |
A grandiosidade do nadaAdmirar a morte torna o nada passivo, desconfiado. Nadando no meu amor, não me afogo. Não desafogo meu coração. Amo no afogar do destino. Não é desafogo, é meu corpo como destino. O amor cessa o destino, torna-o admirável de ausência. Não tenho destino, tenho ausências de amor. Ausência é viver intensamente de amor. Amor é agonia. É tanto amor a amar, que não dá tempo. Viver elimina o amor distante do tempo. Nada se pode fazer sem amor. Vida e morte são almas gêmeas que se confundem de amor. Não existe consciência, existe relação que se relaciona sem consciência. A consciência é amor, amor que existe até na inconsciência de morrer. Morrer não é a morte. |
O sentimento do mundoNada tem o sentimento do mundo. O mundo sem sentimento é fuga, é Universo. O tempo escraviza o Universo de tanto Sol. O mar é sem o Sol do Universo. O ser é o Sol de si mesmo, por isso converso com o Universo em poesias. |
Como sofrer, se posso ser feliz?O quietismo da morte não o deixa aprender o ser. Quietismo é força de aprender sem aprender. Para aprender o ser, a morte precisa esquecer o mundo, a vida. A morte me desperta, não para mim, mas para o despertar, para o mundo doente sem cura. Seu único auxílio é morrer. O imaginário não destrói a mente, porque é um ser da imaginação, mas nunca um ser imaginário. O ser imaginário é a única morte real, referência de vida. A última morte foi a primeira do ventre dentro de mim. A outra morte foi o corpo. A poesia não pode nascer de dentro de mim. Eu a transformo em mim. |
O desperdício do serO ser é a ignorância da morte. A morte é o telhado do mar. |
A leitura da vidaLeio a vida pela alma. A alma me faz ter vida. Tocar-me é necessitar tocar a morte, é deixar meu corpo na morte de alguém. Não sei ter corpo, não sei ter alma. Sei apenas tocar a morte. É como não haver renúncias, nem vida, nem morte. Há apenas a leitura da alma: o silêncio. O silêncio me toca. É como se houvesse um corpo de lágrimas em mim, por mim. O céu é um desejo, uma maneira de ficar perto do mundo. Longe do mundo é o meu nascer. E se o mundo for o meu nascer? O que significa nascer? Ser eu não é nascer. Nascer é a fraqueza do espírito em mim. A saudade de mim é a eternidade. |
ExtremidadeEu não cheguei a ser. Sou apenas o vazio sem mim. Eu me senti ser. Foi tanto sentir, amor, que não senti falta de ser. A falta de ser é uma vida única, rara. Ser é a impossibilidade de ser feliz. Mesmo sem amor, existia alegria, até eu ser. A vida é muito mais que viver, amar, ser feliz. É respirar sem pulmão, não sentir falta do corpo, da alma. Sinto falta apenas de continuar não sendo. |