Blog da Liz de Sá Cavalcante

O que preciso ser para ser amor?

Quando cessa o amor, o diálogo infinito enche meus olhos de palavras contra a cegueira da vida. Nada restou do rosto sem adeus, restou apenas o contentamento infinito do fim. O amor, expressão que acaricia o rosto sem rosto. A falta do fim, no rosto da vida, é paz que se escuta, se sente. O fim da vida é o ser que esconde o tudo da vida.

A ausência do nada

A ausência do nada é o nada. A ausência se torna ausência sem o nada. A ausência é alma, é coragem, é não desistir de mim. Vivo melhor sem sol, sem ar. Ficando apenas o instante encontrado no tempo, é o sol, é o nascer do sol. A alma sobrevive ao sol sem o tempo. Quando o amor se entrega ao sol, na plenitude do florescer do nada. O amor, espera sem fim, que não espera a morte como sendo o infinito de mim.

Silêncio de vida

A alma não é o silêncio, não se reconhece no silêncio. Saber é uma ausência feliz, penetra na ausência da alma, como uma falta que absorve o silêncio sem alma. O amor rompe o silêncio, faz a alma entrar na vida. O amor não cessa a falta, mas dá um lugar para a falta. Faltas são vidas que não foram perdidas. Não há ser no meu ser, mas há amor no meu ser que fala mais do que o silêncio. Meus pensamentos não podem me fazer feliz. Quero ficar sem pensamentos, como sendo a minha alegria depois do mar, que é apenas saudade, sem olhar para o que passou. A alegria é o mar na imensidão do nada. Tudo que eu podia ser ficou no mar, sem faltas, sem ausências. Não olhar é não dizer adeus, para nada silenciar. Não olhar é me reconhecer como este olhar na falta de mim. A alma não resiste ao tempo sem o seu fim. O olhar se vê apenas no sonho. A realidade não vejo, pois ela já existe. Existe não como realidade, mas como eu a amar.

A negação sem relação com o nada

A negação é o contrário do nada. Negar o nada é tão impossível quanto amar. O nada ama abrindo o céu e desvendando as estrelas. A abertura do céu é o nada em meus olhos. Realiza-se a essência do meu olhar com a inessência do meu amor! A alma quer apenas a inessência das coisas sem amor. O amor é a inessência da inessência. A realidade diminui a existência na falta do nada. Deixar não fluir o acontecer, para que algo aconteça mais do que acontecer, isto é: sem acontecer. A falta de acontecimentos é a vida, mas ela não é monótona. Sinto-me diferente pelas mesmas coisas. Há diferença de um nada acontecer para outro nada acontecer. O amor é onde o nada acontece, iguala-se ao nada, onde não há vida nem eu em mim. A negação é o acontecer eterno que não acontece para a vida, mas acontece para mim e para o meu ser, que agora somos a mesma coisa, o mesmo acontecer.

O que me encanta

O que me encanta não floresce. Morrer é sorrir pela primeira vez. Morte, vai em paz, estou em paz sem sorrir, estou viva. Se vivi em vão, não percebi, percebi apenas minha ausência de sorrir. Sorri sem viver, e ainda assim sorri. O tempo, a vida sorri para o infinito. Eu somente procuro ficar ausente no sorrir eterno, e assim secar as lágrimas de Deus. Nada me encanta: o sol está lindo lá fora de mim. Escrever no meu corpo a poesia que não escrevi na alma. A morte, olhar adiante, prende a realidade no seu irreal. Desejar ser o que já sou é como ter a presença da alma em mim. Ter sede é alma que foi saciada. Como impedir a alma de amar como eu amo? Tem amor que é apenas alma. Como perdi a vida numa ilusão? O que a ilusão tem que a vida não tem? Pássaros no ar da alegria. Pássaros voam como alma. Nunca deslizei sem voar. A lembrança é uma ilusão: ilusão de reconhecimento.

A alma da inexatidão

A alma é o negativo do ser. O amor faz que tudo permaneça no nada da alma.

Iminente (que ameaça se concretizar)

A morte não acontece porque quer, acontece sem o acontecer. Tento mover o corpo sem o corpo, é a presença da alma, estagnada de tanto sentir. A alma dá vida ao meu corpo, que não existe mais.

A ausência pode ser boa

A ausência morrendo pela razão adormecida. A intensidade da vida tem medo da minha profundidade, mesmo ela sendo ausência. O ser é apenas entendimento de si. O outro não existe como compreensão, por isso, compreendo a vida. Minha compreensão não me compreende, mas eu a compreendo na minha ausência. Não há compreensão maior do que a ausência. Não tem amor pra todos, mas tem ausência para todos, que supera o amor. Na ausência se pode viver. Ser o que se é eternamente, sem nunca descobrir o amor. Às vezes sinto falta de amar, nem que seja em sonhos. Para que sonhar, amar, se posso ser ausente para amanhecer como o sol? Faço da minha solidão a compreensão da vida para que eu não exista mais.

O que somos nós e o que é o amor?

Vê, não somos nós, nem é amor, é saudade de um desconhecer na memória. Não vejo o real nem como sonhos. O sonho demonstra que não há realidade em ser. O tempo flui sem o tempo, assim, ele encontra sua realidade. Que nada infeste o amor, ou lhe dê outra alma. Não há alma para tocar o meu corpo, por isso, não sinto vazio, sinto a morte.

A alma é a única imagem da vida

Se meu ser tiver certeza que a imagem da alma não faltará no meu ser, estou pronta para morrer, mesmo sabendo que a imagem da alma não é a alma. A vida não merece a alma em que vive. O fim do fim é ter uma lágrima de alma dentro de mim. Lágrimas são luzes se abrindo na alma: é o último sol, amanhecer eterno na alma. Quem ilumina o amanhecer? A beleza do amanhecer ilumina o amanhecer, como se o amanhecer estivesse só dentro do sol.