Blog da Liz de Sá Cavalcante

Translucidez (transparência)

Quando a realidade surge, a transparência é apenas o sol tentando amanhecer. A verdade é o nascer do sol em um sorriso, nada é mais verdadeiro do que isso. Quando o amanhecer for descoberto, ainda vai existir a verdade? Tento captar o amanhecer pelos meus sonhos. Sonhar é amanhecer, por isso nada amanhece em meus sonhos. Amanhecer pela vida é uma poesia que não está no amanhecer, está em mim. Eu sou meu amanhecer, com ou sem poesia. O significado da vida é a poesia. O silêncio é a pele da alma, a poesia é arrancar a pele da alma na ausência do silêncio. O silêncio é pele que não se rasga, não queima, não se isola do corpo. Deixar-me sem pele, apenas para possuir o corpo, é uma vida triste. Vida é pele. Mas o cheiro da vida impregna a alma, me faz voltar à realidade de morrer!

Injustificável

Quem abandona é abandonada pela vida, o pior abandono. A alma é essencial à vida, se a vida nascer da alma. O ser é o nada, o nada é o ser para a alma existir. A alma é tudo ou nada. Nada faria sem a extremidade da alma, tudo faço sem alma. Idealizo-me na alma. A alma sabe viver. Vivo só o que não sou. Não sou essa tristeza em céu aberto, inconsciente do amor, das promessas de alegria que fiz para mim. Nada sou sem amor. Meu amor vale a minha alegria, a minha alegria não vale o meu amor. Não vale a pena ser feliz apenas por amor, tenho que ser feliz por mim. Em mim, o amor é como flutuar no chão. Preocupo-me com meus sonhos. Agi como se os sonhos não existissem, dando lugar à saudade de ser. Se ser é inútil, tenho ao menos essa sau…

Minha alma são espumas do vento

Espumas do vento se misturam com as espumas da minha alma, transcende como o mar. Ir além de mim, do mar, para ver o mar, é me transformar no infinito. Apenas o infinito pode enterrar a morte. É quando o infinito deixa de ser eu e se torna vida. A vida se torna o infinito. O infinito que falta não está perdido, nem mesmo com a morte. O infinito separa o mundo real do mundo da ilusão. Eu não tenho a ilusão de desaparecer. Estou confinada e condenada a ser apenas eu. Não posso ser nem minha poesia, que nasceu de mim. Preciso saber quem sou sem mim. Falta emoção para o vento pousar seguro no céu. Vivo contra mim, contra minha insegurança apenas para chorar o nada de mim. O nada chora mais do que minha alma. Vida, seu mundo, meu mundo. O vazio sangra, não chora, o que devia dizer deixo a vida saber de mim. Nada posso fazer pela vida nem por mim, mas ainda posso amar. Amar a quem? Escuta meu sofrer. Preciso amar, me sentir amada. Nada vai te despertar. Minha morte é um sono infinito sem ausências, é saudade do que devíamos ser. O sono sente minha alma. Até mesmo o sono é distante de tudo, o sono é a vida. Estou alheia ao sono, à vida, mas estou alheia a mim, à vida. Mesmo no sono dormi, como uma semente sem terra para nascer. Pareço viva sem sono, o que perdi eram apenas sonhos que precisavam das minhas palavras para não ser perda. É inacreditável morrer. Morri, meus sonhos se tornaram meu corpo morto. Por isso, não se decompôs nem apodreceu. Meu corpo torna-se vida depois de morto. O silêncio torna-se canção, amor. O desespero calou a canção. O silêncio afundou em si, a canção tornou-se poesia. Então os abraços tornam-se eternos, sem sombra do passado, apenas silêncio e dor e o agora é morte, é confiança de um futuro.

Excesso de morte

O amor é pior sem morrer? A morte busca o amor, o ser busca o ser. Essa busca é pior que morrer. A busca é pior que morrer. A busca é um infinito particular, em busca da não destruição universal. Morrer é sem ilusões. A angústia é o infinito sem sofrer. O amanhecer é angústia eterna. Mesmo assim, amanheço. A vida deixa o amanhecer vazio, como se não houvesse a plenitude: esquecer do amanhecer. A realidade não é o vazio, a realidade é o que sou para mim. Se me imagino uma estrela, sou essa estrela, de onde nasce a solidão pela vida. O nascer da solidão é sonhar. Divido-me entre o sonho e a realidade, pareço não ser só, pareço ser a única entre a realidade e o sonho. Tanto o real como o sonho são poesias. O tempo é a falta do real e do sonho. O que vejo não é real nem sonho, mas existe na inexistência apenas o amor percebe a inexistência de um sonho, pode cessar o sonho. Mas o amor é inexistente, como se assim pudesse durar. O excesso de morte cessou. A inexistência surgiu a existência, abraçando seu nascimento: a morte.

Pungente (comovente)

A estrela comovente, mesmo sem brilho, sem amor. A estrela torna dispersa a dispersão, é apenas este instante que arde em mim. O desaparecer tem que vir de dentro de mim, como uma luz que nunca se apaga. Esse amor incondicional pela morte que existe é a única coisa que não é estranha para mim. Eu sou uma estranha para a morte, por ter intimidade com ela. Renunciar ao passado é renunciar a morte. A subjetividade é a morte.

Infortúnio (tristeza)

A morte é o espelho da alma, que danifica o ser que já apodreceu na falta de poesia, de sonho. Não sei em que estado ficou o sonho para ser sonhado. O sonho me dá medo. O céu não tem medo do mundo. Sonho com a eternidade. A decepção não se decepciona. A decepção não tem culpa. Traga-me o nada, como se fosse a minha ausência esse nada. Mergulho em mim pelo nada. O destino é contra a realidade num existir eterno sem plenitude. A imagem sem eternidade é vazia. Nesse momento, a eternidade não importa, tudo que quero é a imagem iluminando o meu olhar. Assim, mantenho a liberdade distante de mim por uma imagem. A imagem da morte cria novas imagens que embalam o céu e o faz esquecer as mortes, como se esquece alguém. Se o céu é esquecimento de Deus, imagine o que seja as lembranças de Deus. Deus, a infinitude das minhas lembranças. O separável de morrer se une à morte. O precipício não é o fim, não é amor. Tudo morre sem o fim.

A vida é injusta até quando é justa

O amor não pode morrer, o ser pode. Posso preparar alguém para a morte com a minha ausência. Essa ausência é amor. Vida está distante da presença: ausência de um sonho. A presença da vida é o fim de um sonho que se mantém distante do nada. O para si que sou sofre no nada sem mim. A morte pode ser o nada que se revela sem medo, sem receio. O nada tem medo da vida. O antes e o depois são apenas meu desejo de viver. O desejo de viver não adere ao antes ou depois. Se o antes e o depois existissem, existiria vida, mas não existiria o ser. O antes e o depois são uma vida que acontece apenas nela.

Alma nova

A saudade não pode me fazer viver, mas me dá alma nova. A morte me consumiu. A alma é tão nova, renascendo, não pode me fazer feliz, mas a alegria se dá a mim, sem motivo ou explicação. Alegria, se eu fosse feliz, e você estiver triste, você aceitaria eu ser sua alegria? Alegria, já necessitou de mim alguma vez? Necessitar de mim para a alegria ser feliz é como viver. Alma nova para a alegria, uma alma que faça parte da alegria de um adeus a mim. Sem retorno ao nada, me apropriei do adeus a mim. O mar desliza em mim como sendo a transparência de morrer, única verdade da morte, perdida ao meu redor. Morrendo, eu escuto melhor o mar. Eu o escuto ao me recolher de mim. O silêncio me vê por inteira, desacreditei do silêncio, sou apenas alma sem silêncio. Me recolhi na perda, ficando em mim? É fácil renunciar o que sou, o difícil é renunciar a perda de mim. Recolher o amor para não ficar só. Não posso modificar a vida, o amor, mas posso agir certo, isso me fará amar mais ainda. Escrevendo, percebo que amor é eterno no que diz. Eternidade é muda de amor. Não quero que as lembranças de amor, quero que a lembrança seja triste, como se nascesse agora, de mim, sendo o meu momento de me sentir só. Solidão é falta de desamparo de morrer, é olhar nos olhos de quem amo, e morrer por ficar sem ficar. O silêncio é a permanência de ficar. Há permanências sem ficar. A permanência de morrer pode nada durar. A duração de um instante, mesmo que não seja muito, é a morte. O tempo, isento da morte, torna-se apenas um único instante.

Admiração pelo nada

Admiro o nada quando tudo é tudo. Meu ser se apaga na luz do nada. Morri na falta do nada. O ser para o ser é a essência do nada. O nada morre pela presença do ser e, assim, encontra paz. Viver o nada em mim é mais do que a eternidade, é mais do que posso ser.

Visão de lugar nenhum (para pai)

Para que olhar? A visão de lugar nenhum é a vida que não se vê, apenas sinto como se visse. Vejo o lugar nenhum, sem a visão de lugar nenhum. Ver é querer sem poder ver. Se eu pudesse ver, a visão de lugar nenhum seria apenas este céu solitário para quem devo a minha vida, a minha solidão extremada. Ainda tenho você me sentindo só? A solidão não conseguiu impedir que eu te ame mais ainda. Não consigo estar em lugar nenhum, nem em mim, mas estou em você. Sonho mais com você do que te vejo, mas sempre te vejo em meus sonhos, onde está sempre comigo, em mim. Posso estar em nenhum lugar desde que seja ao teu lado. Meu amor por ti é mais do que qualquer lugar, é o meu mundo. Meu interior é você.