Blog da Liz de Sá Cavalcante

Vidros de tristeza

Vidro de tristeza, no sol do amanhã, que se fez hoje. O telhado da emoção não sustenta os vidros de tristezas: minha emoção fica no céu aberto. Espero pelo céu em céu aberto. Não acredito mais na ilusão da vida. Desvencilhei-me do nada, acredito num vidro de tristeza, verdadeiro nada, por onde ver a vida é me identificar com ela. O vidro da tristeza é vida infinita. Pela estrela, brilho mais do que o sol: um convite para viver pela perfeição do nada, que dá luz às imperfeições da vida, com o nada de um sorriso, que diz sim à vida. Vida, foste minha alegria. Nasci como poesia. Morri como poesia. O amor existe no fim do infinito, para nascer no fim do amor. Eu me importo, amo o fim do amor. Nele, o vidro da tristeza transparece a saudade que não consigo sentir. Céu, não tire as estrelas do meu pensamento. Vidros são tristezas que se despedaçam para que eu possa morrer em vidros de vida, sem o calor da alma. Os caminhos do amor são descaminhos. O silêncio é não sentir tristeza. O silêncio é invisível como o olhar: sonha olhar o nada. Ver é não conhecer.

Caleidoscópio da melancolia

Tenho saudades de mim, num silêncio de amor, onde vejo a minha luz, em labirintos profundos, onde não vou me perder, mesmo me negando. Quando vejo luz, tudo passa, como se fosse o ar indo embora, mas é meu respirar, tendo continuidade. Tento me libertar das luzes do nada, torná-la um saber eterno, com outras luzes. Sei mais da eternidade do que de mim. Tecer a vida do meu corpo, numa escuridão que não chega a escuridão de luz, colorido que assusta a alma: por isso, olho o colorido pela falta de mim.

O som do sol

O som do sol me despertou para a beleza, a raridade do nada, que afina o som do sol, com a vida que não possui. Possuir a vida é o nada sem som. O som do sol se confunde com a realidade de ouvir. A realidade de ouvir não é a realidade do som. Ouvir o sol é a ignorância da realidade.

O nada inconfessável

Como confessar ao nada que ele não existe para mim? O nada se faz mar. O nada tem vários significados: vida, morte, sonho, ausência, presença, mas nenhum satisfaz o nada. Alguns nadas entram dentro da alma apenas para sair. Alguns nadas não ficam, mas continuam na alma. Perdoe o nada, se ele não consegue ser o nada em suas vidas. Não vejo a vida, vejo o nada na vida. O silêncio destrói o nada. A alma nasce da alma, mas é livre apenas se nascer sua alma do mar. Da alma do mar: realidade infinita de ser. Essa realidade infinita, é como pensar pelo mar.

O céu do céu

A natureza do ser é distante do céu. Universo é a proximidade do ser com o céu. Tudo é feito de céu até o amor, não sabemos usar as coisas, como se elas fossem simples coisas. Não sei, por isso quero o que não sei, pois não faz parte de mim, faz parte da minha tristeza. A tristeza é feita do que falta ao ser: alma. Que alma eu daria a minha tristeza? O depois que é alma e espírito ao mesmo tempo. Sou feliz como o amor que me falta. O céu do céu é uma maneira de me afastar de tudo. Deus não está no céu, está em mim. O céu é a minha tristeza por existir. Existir é o céu do céu.

Toda a minha energia

Toda minha energia é o nada, não precisa ser triste lá fora. A mágoa é paz do espírito. A vida não merece o sol de cada dia. Vou recompondo a poesia no desmantelo das palavras. O tempo vive do não ser. Tempo são palavras que brotam como um amor eterno. Tudo que amo é esta falta, o amor é o não eu em mim. Pertenço-me no não eu, que também sou eu. Nada mais será eu sem o meu não ser.

Ir além do céu é o mar

Eu dou vida à vida. Vou descer o mar ao céu pela inessência do belo. Beleza não sobrevive ao interior. Achados, supor, são perdas. Perdas são o mar no céu. Não existe céu de palavras para representar o nada. Por isso, nada posso fazer pelas palavras, faço em palavras. O olhar do céu chega em poesias. Sonho, depois amo, como um mar de palavras, a acender o sol. Depois do sol, a vida. Vida, seremos fortes para sempre, nada nos destrói se nos destruir, seremos como esse céu, clandestinos, que são almas que não duram, e onde o corpo é eterno, feito de mar. O amor não é o mundo visível. O invisível é a essência do ser. Deixo a essência sair das palavras e chegar ao coração. A saudade é paixão do perdido pelo amor. Manter o perdido unido à vida é amor. Apenas o céu e as estrelas sabem como vivo: com meu coração no mar. Por isso, não quero ir além do céu, quero apenas ser o destino do mar, navegando do infinito da falta de mim.

Dormi na alma ainda sendo eu

A falta de ausência me fez dormir na alma. A alma cessa a ausência lhe sorrindo. E assim, a alma cessa a ausência. O sol dá presença, modifica a ausência em ausente. O sol é sem ausências. Não existe uma presença na outra, existe o amor. O sol recebe as ausências sem a presença do céu. Sente-se essencial para a ausência, no outro céu: o céu do infinito. O céu finito é autossuficiente, não precisa ser importante para a ausência para ser céu. O céu é o ser dormindo na alma.

Fragmentos da alma são estilhaços de chorar

Mãos vazias, deslizem na vida áspera, como sendo amor. A quietude do amor sacode o mar, expande o universo. Mãos vazias, curem a vida da morte com o seu vazio. Vazio, espere pela esperança, como se ela fosse tua alma. A única coisa que resta do vazio é a esperança: alma, que apareceu apenas no vazio de mim. Se eu tornar tudo abstrato, minha morte será apenas abstração da alma.

Céu de lágrimas

O sufocar sem ausências é a presença do céu de lágrimas, ou será céu em lágrimas. O céu de lágrimas é por onde a alma são lágrimas do céu. Tudo se encontra no céu. É muito monótono uma alma toda minha, sem poder dividi-la com outros. Para a minha alma, ser só é compartilhar amor com outros. Os outros a tornam só. A luz embriaga, entontece, sonha comigo, onde não há escuridão. Mas a escuridão não abandona a luz, mesmo na sua ausência. A esperança morre de luz. Pensei que iria morrer, estava feliz ao contemplar uma luz sem esperança. Feliz, pois as minhas poesias são eternidades para mim, para minha alma. Não preciso de esperança, preciso viver este algo a mais, que não está na vida, está numa morte de transcendência não existe. Posso ir além de tudo, não posso ir além do meu vazio, da minha existência, que existe mesmo sem a vida.