Blog da Liz de Sá Cavalcante

Sorrir

O sorrir desencontra a vida. E o sol é um sorrir. Sorrir triste nunca é luz. A minha luz vem da minha consciência. Minha luz existe na minha consciência. Como se eu pudesse ter uma alma a dançar, fazendo-me feliz e fazendo meu coração dançar nela. Com ela, o tempo não volta mais; minha alma não me deixa. É como um dia sem vida, em que sou minha vida e o meu adeus. O sonho de luz é aceitar o fim. A minha morte cessa num sonho. Não se pode maltratar sonho apenas por morrer. Delira e sofrer não trazem sonho de volta. Sonhei uma única vez, e era a minha morte, não era sonho.

Divisão

A tripurficação da alma é o vazio, mas sem alma não se divide. Os mortos se dividem em suas mortes. Por mais que demore, os mortos refazem suas vidas sem as viver. Existe defesa para os mortos: suas dores. Cada dor supera o amor num estado de vazio. Não adianta nem morrer.

A necessidade do eterno de ter um fim

Meu fim é tão essencial que para mim é tudo. O eterno quer o fim para ser lembrado. Eu quero o fim para ser esquecida no colo da minha dor. O fim sem alma não é o fim, é o espírito da vida: como a vida num último céu de esperança, que existe sem o nascer do sol, como um mundo que foi esquecido por tudo e lembrado pelo sol. A falta de esperança nasce da minha morte, mas minhas poesias estão vivas: são a única certeza para mim, que um dia eu vivi.

Diante de ti

Diante de ti já morri, e o tempo foi apenas um desabafo, uma maneira de esconder o seu desamor por mim, como uma sombra a me separar do sol, da vida, da esperança de conseguir apenas ser só.

Meu trabalho é a vida

Poesia é o meu coração que não vive mais. Era o meu trabalho. Agora, eu sou a memória da vida e sinto que eu era tudo que a vida era e tinha na minha vida. Sonhar é Deus ser mais que Deus. Agora, tenho apenas as palavras como companhia. Nunca as ouvi, as sinto no meu amor. Meu amor é Deus.

O que não se sonha se aprende

O sonhar é um desaprendizado para aprender a não ser mais eu. O contato com a alma é um não ser que me abraça como alma. É um abraço eterno de amor. É da alma que nasce o abraço. Sem o ar do abraço eu não vivo, não posso caminhar nem escrever. O meu vazio é o outro. O outro saindo de mim. É como tirar os pregos da alma. Sem sofrer existo, mas para ser morte, vida, o que eu quiser. O não sonhar é sensibilidade. Deus é a saudade de mim, é amor, me faz viver por mim, por Deus, pelo nada. Essência de Deus que me constrói, me eleva até Deus. Deus é só pela minha solidão. A tristeza salva uma vida.

Nenhuma perda nos teus erros nem em ti

Nenhuma perda nos teus erros nem em ti, essa é sua dor eterna. Por isso, nada existe de verdade para você. Quem me conhece sabe que não vivo sem amor. Sou feliz por ser eu. Reconheça-se.

Preciso deixar de amar

Se deixar de ser me fizesse deixar de amar, seria fácil. Não me isolo, prefiro perder o que sou e o que não sou. Sou mais livre do que o ar. Nunca me verei por mim, vejo mais além.

Amei mais do que a mim mesma

O que resta do amor? Os pássaros voando, as árvores balançando e os sonhos de cada dia tão inúteis quanto o sol, que não faz anoitecer. Deixar de amar é um ato de amor. O silêncio é um fim inacreditável. Às vezes, as palavras e o amor são desnecessários.

Suspirar

A vontade de escrever é sem fim. Sempre vou suspirar. A vida é um suspiro sem alma. Escrever é um suspiro sem alma. Suspiro como se estivesse escrevendo, como se estivesse viva.