Blog da Liz de Sá Cavalcante

A alma do depois

A alma do depois faz existir a alma do hoje. O sofrer sem alma é infinito. É onde cessa o depois, antes de ser um depois. O depois cessa, a vida não cessa. O antes da alma é o amanhecer, depois da alma, é escuridão. O tenho de ser é apenas um passado inexistente, como um agora, à procura de si mesmo, sem passado ou futuro, o agora não existe. Vivo o depois da alma como se fosse esse agora, e assim amo no nada, sobrevivo sabendo que o agora não virá. Como sou feita de agoras? Pela ausência do agora, que é o meu amor.

Insaciabilidade

O tempo sem alma não é vivido, mas é sentido como alma. Não há amor para o amor. Sem o passado tudo é vazio. Por isso, não vou entregar minha alma ao passado. Deixo ela ser o passado naturalmente. Se a alma é o passado, o que é o hoje? A insaciedade do passado ser o hoje é o amor desse hoje nascendo. O prazer de morrer é o passado vivo a me amar.

Corpo na alma

Para o corpo estar na alma, é preciso alegria, amor. A vida absorve o tempo sem o tempo. O único tempo é o corpo na alma. O corpo, sem alma, não é um corpo. Não nasci, estou entrevada dentro do meu corpo. Tua voz, dentro do meu corpo, é o silêncio a reconhecer o nada na minha fala. Escrever sou eu saindo de mim, desvendando o desconhecido de mim, mesmo sabendo que nunca o conhecerei, mesmo o tendo descoberto. A consciência do nada sou eu me abraçando, em vez de viver.

Resgatar a morte

Negar a morte, ter a alma de morte, para resgatar não a morte, mas as suas consequências. Lembrar das consequências da morte mata a morte. A morte não é consequência, é um fato. Não se pode matar a morte nem em ilusões. A alma tem ilusões de amor que define a realidade sem ilusões. O vento é uma lembrança da morte que sacode a natureza. É bom morrer enquanto há vida e existe amor. Ver, ouvir, é falta de alma. A alma da vida é o céu que tem os meus sonhos como eternos. Existir, assim como a minha emoção, me faz amanhecer. Não há barreiras entre mim e a vida, mas não consigo viver, talvez nunca consiga. Para mim, olhar o sol já é viver! A alma é a metade de mim, que fracassa no amor, pois ama de verdade. Dividir-me em alma é deixar o amor no consolo do vazio. Não existia o vazio no amor. Agora tudo somente existe pelo vazio. Resgatar a morte num vazio sem fim é acreditar num amor vazio. Será que todo amor é vazio? Porque é mais fácil amar na ilusão? Será a ilusão a verdade do amor que procuro? Quanta ilusão preciso ter para amar? A morte é um amor que não será resgatado pela morte, e sim pelo tempo. Nada ficou da alma, nem mesmo ficou o que ela ama. O vazio estagnou o fim na lembrança de amar. Lembrar é desejo de não morrer. A alma acredita na existência do vazio, como sendo o fim da dor. A dor precisa de um fim? Ela tem que ter um fim no pensar, para que eu sinta a dor, até pelo seu fim.

O que se diz pela vida?

Se minha alma, minha cor, se tornar visível, acreditarei que morri. O que se diz pela vida é esquecido numa fala de morte. A alegria desaparecida na visibilidade da alma tornou-se alma, tão invisível quanto o amor. Não dá para racionalizar a morte, ela vive no meu sentir. O exterior do ser é a vida, o interior do ser é a morte. Queria ter ao menos a ausência do seu amor. Deixaria toda minha alma, todo meu ser, na tua ausência. Mas a tua ausência é sem amor, sem ser, sem alma. Do abismo da fala nasce a realidade. Da realidade sem realidade, nasceu o amor. Sofri com a presença da alma. A ausência acabou com as faltas, mas deixou o vazio vivo, próximo. Melhor do que não amar, é amar ninguém, como se fosse alguém. A palavra fala sem mim, com o som da minha voz, no desapego do som do silêncio. A palavra fala com o meu coração, mas não tem o meu amor. Amar para lembrar e cada palavra, que é lembrança eterna no amor. Nada surgiu em palavras, é como se o comunicar, fosse um olhar distante da vida do olhar. Eu olhei para o meu olhar, fazendo-me olhar. Tornei meu olhar lúcido para sonhar o que se diz pela vida. O olhar expulsa toda lembrança que não se faça olhar. A morte é o olhar que falta em mim. Vou me fazendo ser, tornando-me imagem da morte, sem inexistência, apenas a morte. A morte sem a inexistência é como cultivar um jardim. Nada espera da inexistência, tudo idealizo na morte. O sonho é a inexistência da alma. Excluir a imagem do olhar é trazê-la para a visibilidade do amor.

A eternidade do nada

A vida que existe antes da vida é o real. É difícil ver o real como real, é como ter eu para mim no falar da paisagem. A paisagem esconde a vida na eternidade do nada, que é o seu momento de ser. Paisagens não são caminhos, são a perda dos caminhos. Quando eu sou, nada me resta, não posso nem me refletir no nada. Não me perdi no fim. O fim fez eu não perder, como se não houvesse céu. Não há como me separar do nada. O nascer do nada é o sol. A eternidade do nada é a esperança de uma vida. A vida se opõe entre mim e eu. A sorte de existir a eternidade do nada me faz viver!

Respire amor

Respire amor. Ele é o que se foi, sem nunca ser. O amor não tem fim quando acaba, é o vazio infinito, que absorve a culpa de existir. Tudo existe pela culpa de existir, essa culpa é o amor que sinto. Respiro amor, para que o amor seja o pulmão do mundo. A alma sai do infinito para a vida. A generosidade pode ser feliz, se pudermos acreditar. O respirar não chega à alma. O significado não é significação de nada. Para amar, esqueça o que pode significar o amor. O amor não precisa de significado, eu que preciso. As coisas ganham significado, existência, quando consigo respirar. As coisas, os momentos, como sendo meu único ar! A respiração não se repete no que sinto. A alma é tudo que deixo existir em mim. A alma é como um personagem, precisa de um texto para imaginar o que se é. Compartilhar a morte é trazer a vida de volta, num sorrir eterno. O sorrir é uma vida sem amor, que sonha com as lágrimas da emoção.

Superação

O que é impossível na alma é possível no ser. Se misturar alma e amor, não terei mais nada. A realidade do sonho é o amor. O ter sido ainda é a única superação do ser, ao som do nada, do silêncio. Superar é fracasso. Não tenho medo de perder a alma. Tenho medo de superá-la. O interior é finito, o exterior é infinito. Ser para a morte, nunca viver.

O silêncio de depois é a falta de morrer

A falta de morrer me entristece se muitos morrem, como eu irei viver? Minha identidade é morrer. A consciência não está na consciência. O sol é a consciência de Deus. A consciência me tem quando não a tenho. A falta do ser está dentro da imagem, por isso, a imagem nunca será consciência. A morte criando a imagem, a imagem criando a morte. A falta de criar é a vida.

O imaginar do imaginário

Tentei representar a vida na ausência de vida. A ausência de vida é vida em mim. Deixo meu corpo ser tocado na imaginação para desaparecer sem o imaginário, e eu aparecer pela imaginação. Vivi sonhos sem imaginação. Eles duram mais. Desvendar a vida no imaginário. O corpo, a vida, não resistem à imaginação. Eu quero morrer pela imaginação.