Blog da Liz de Sá Cavalcante

Quando

Quando a tristeza fizer amanhecer, há esperança o céu, é a tristeza da vida. A vida domina a alma. Vê, faz tudo desaparecer. A lembrança é ver com alguém a vida. É ver só, em mim. A lembrança é uma vida que não se vê. Ver é lembrar do nada. Morrer é um ver pleno de si. Não há como acreditar no ver, por isso, as coisas existem. Existir não faz parte das coisas. Alma seca, de sombra e de luz. O passado, luz do futuro, é devagar que se morre: na certeza do nada. O amanhecer me separa do real, tem uma realidade apenas sua. O esforço para a realidade não se tornar sonho, chama-se vida, chama-se de viver. Aparecer fora da morte não cessa a inexistência. Aparecer na morte é a transparência do ser, da morte, tem um adeus que não se dá a ninguém. O adeus é ele mesmo, não é o que fazemos dele, ou o que fazemos de nós. A lembrança é um adeus, que não sobrevive ao tempo de ser. Ser é o real contra o mundo. O adeus na lembrança do tempo é o ser.

O nada sem o tempo

Vivo o nada no aparecer. O que é sincero no aparecer sem o nada? É sincero o nada no aparecer. Sem o tempo, o aparecer se divide em antes e depois, entre presença e ausência, entre nós e eu. O nada sem o tempo torna a eternidade vazia. A vida ama no nada do tempo, na presença da eternidade. A eternidade é uma loucura santa. O tempo do nada é a presença do nada, sem a presença da vida. O nada vive sem sol, sem ar, mas não vive sem vida. A presença é o tempo de cada um. A ausência é o tempo de todos. Nada se modifica, apenas se constrói, fica um pouco mais. Tempo, tempo, tempo, nas asas da ilusão, na dureza da vida, no não tempo, foste a poesia que escolhi, não a escrevi, está dentro de mim. O tempo emocional é o tempo de Deus, que se torna meu único tempo, único amor, único ar.

O silêncio do silêncio

Hálito de sangue a beber minha morte no meu corpo. Beber minha morte no meu corpo, sem deixar o ar da realidade evocar o céu. Alma de vidro que não se despedaça no silêncio. Tudo declina no silêncio. Dei tudo de mim para o nada. Tudo surge sem cinzas, numa existência. Não é o nada que vejo nas cinzas da minha alma, é o meu corpo, a minha liberdade que não se protege no corpo. Expor a alma ao mundo, num universo particular. O corpo é a eternidade viva. O corpo da alma é a morte. Tudo que foi perdido é encontrado como morte. As palavras emudecem a alma. Agindo pela perda, como se fosse a perda da solidão. Nada se pode tirar do amanhecer. A falta de mim é o amanhecer por mim.

Divisão de ausências

Dividir o nada em vidas faz crescer minhas ausências, como um sol que cresce dentro de mim. Crescer o sol, a banhar o céu, é de uma força infinita. Sem forças, o céu se faz vida, se torna céu. Nada é sem céu. Retratos do céu sem o céu no meu olhar. O céu é a foto de Deus. Deus é a minha visibilidade. Nada se constrói na vida, na morte, tenho que construir quem sou. Tudo se diz na alma. A alma não se diz alma: diz amor. O perdido foi encontrado na alma. Alma é o inencontrável no ser. Sem o ser não há vida, sem Deus não há amor. Pele em flores, a desnudar a fé.

Essência

Esquecer a essência é ser eterna na essência para a essência. Dentro de mim, a entrega do nada à vida. Dentro de mim a vida acontece. Tudo sonho no acontecer. O acontecer é o que foi perdido em mim por surgir. O nada é um lugar para o mundo. A essência desvenda o mundo, a vida. Estrelas voam na vida sem céu, sem paredes de sonhos. Meu olhar, em estrelas áridas, se banha de luz. Luz de estrelas no meu amor. Reconhecer as estrelas no meu reconhecimento é ter alegria eterna. Quando o reconhecer não traz alegria, é porque vi meu interior a me amar no silêncio das flores. A alma concretiza o silêncio das flores. A subjetividade são flores. A paz do nada é o sol no céu, a minha paz é viver.

Um fio de luz

A vida, para existir, precisa de um fio de luz a penetrar a escuridão. O intervalo entre um ser e outro é a vida. O ser não está dentro da vida, está dentro de si. Por não ter alma, morri tanto, que estou viva. A alma me une à realidade do existir, como um encanto de luz. Nenhuma luz tem em si a realidade de existir. Existir, enquanto a ausência é luz, essa ausência me faz viver em um nascer eterno. A lembrança de nascer é a ausência, esquecer que nasci um dia é morrer, o tempo deixa de cuidar de si, se dedica à morte. Morrer é fazer de si a pergunta que apenas a vida responde, não pra mim, para o tempo. E assim o tempo se foi, em respostas transparentes como mágoa, como a solidão do mar, que é o desejo de partir no tempo que se foi. O tempo não era lembrado quando existia. Sinto o tempo na falta do tempo. O depois é sem o tempo, não é vazio. Vazio é amar só, sem poder fugir em estrelas que nunca fogem de mim. Eu fui uma estrela para a poesia, longe do tempo, para ser o tempo.

A flor encarnada em flor encarnada (fez-se corpo, carne)

Flor encarnada fez-se corpo, carne, na minha morte. Aboliu a tristeza, a solidão da Terra, onde a plantaram. Colher flores, para ter um jardim, é desmaiar na tristeza infinita, de ter ou não ter as coisas da vida. É efêmero, não dura nada. Por isso cuido das coisas da vida. Para que um dia eu permaneça, mesmo sem nada. Dei tanto, terminei só. Tão só, pareço não viver. Deixa eu permanecer só, como uma estrela a desaparecer do céu.

Imperdoável

Sonhos fazem meus olhos abrir em flores. É imperdoável não me ver como sou: adulta. O meu olhar foge da realidade, pela luz do saber. O adeus sobrevive à vida de amor. O amor não sobrevive ao adeus, não sobrevive a mim. Tenho a cor do adeus e a consciência como permanência, emprestada da vida. A permanência se separa da vida, quer apenas é permanecer. Tudo é vazio, cansativo, sem a permanência: ela é que faz eu fugir da minha cor, da minha poesia, do meu ser. Meu ser não é permanência, mas é permanência do meu ser.

Aspiro a vida

Alma vazia na plenitude da presença. Aspiro vida como quem mantém o ar aceso, como uma vela apagada pela penumbra da vela. Escrever é acender a vela em mim. A perda continua, sepulta o sol em nuvens douradas de aflição. O tempo, memória sem adeus, é despedida sem o ser, por isso, não é um adeus. Apenas o ser é um adeus. Um adeus inútil à vida. Ao longo da vida, o adeus se arrasta no céu para não sentir o adeus do ser. Para sentir é preciso olhar o céu, sem pedaços de mim. É preciso sentir a morte, como algo natural. Assim, vou deixar de sentir o sentir, cuidar dos pedaços de mim. Escrever estilhaça os pedaços. Eu sou o abismo de mim. Sofra para que eu sinta meus pedaços. A vida é um fio que se rompe, como se fossem minhas mãos. O abismo das minhas mãos cessa meu corpo. O amor tem mãos de sonhos. Mãos nunca tocadas sonham mais, vivem mais, além do ser, além da potência da vida, da energia das mãos. Mãos possuem meu corpo, unem o corpo a mim. O som das mãos me tira da solidão como se a poesia fosse eterna. Poesias são a falta das minhas mãos com o som das mãos que são apenas som, vulto da imagem de um corpo. Corpo são apenas mãos. Mãos preparam a vida para a vida. Aspiro a vida como se o ar importasse. O ar é onde a vida desaparece. Sem o ar a vida é apenas ar. Minha consciência não é consciência de mim, é consciência de poesia. Consciência, te ter foi minha única consciência, tua ausência é minha inconsciência. Consciência é água, mata a sede, a sacia. O fim da consciência é a vida.

Destruição

Fora de mim, não morri. A falta da minha morte é destruição. A destruição da falta de eu morrer não me deixa viver.