Blog da Liz de Sá Cavalcante

O saber da distância

Distante é o viver sem o vazio na morte. O universo é uma morte compartilhada e feliz. A alma sarou com o nada, no nada de si mesma. Céu é o nada multiplicado. A lembrança é sem o nada do ser. Enlouquecer é sofrer sem lágrimas, é manter o visível no amor. É sorrir para o nada, é despertar com o vento. Se o vento fosse o infinito, o infinito seria eterno. A eternidade do vento é de pele. Com o contato da minha pele, o vento se rasga, se torna a única existência: uma existência de vento. Não há como saber o que é próximo e distante: é o mesmo infinito, o mesmo ser em mim. O nada da consciência sabe mais do que a consciência. Lembrar do esquecer é dar voz à alma. Se lembrar e esquecer se misturarem, é porque morri. Morri da forma que eu deveria viver. O nada se encanta de alma. A vida do partir é o meu amor. Palavra por palavra me perdi por lembrar de mim. Ser ou não ser é o mesmo nada, carnal em mim. Sou carnal no nada de haver. O adeus é o pensamento, onde a despedida sou eu, em mim!

O fim do fim

O fim do fim é a alma, sendo a beleza da vida. Admiração, como se nada houvesse além da vida, nem mesmo o meu ser. O ser noutro ser cessa o fim. A palavra me devora, nada sobra de mim, apenas palavras.

Despertencimento

Despertencer o despertencimento. O despertencimento da alma é a morte. Sem alma tudo se pertence, como um sol no sol. O mar, evolução da terra, onde a saudade de viver é mar. A liberdade é um corpo vazio, no amor da vida pelo corpo. O corpo não tem lembrança, nem vida, é solto no ar. Agarro-o para morrer como um corpo apenas. Tudo continua e se foi ao mesmo tempo, isso é viver. A alma do tempo é a morte. Ser é morrer. Morri por ser eu, o silêncio da minha consciência. Quero ser o silêncio da vida, nunca o silêncio da minha consciência. Consciência é imaginação, é arte de não saber. Nada sei, sinto. Sinto tanto, que sinto o desmaiar da alma.

Recomeço do fim

A morte é fonte do ser, do ver no abismo. Me vesti das minhas cinzas, agora sei que tenho um corpo.

Apertando a alma

Nada em mim fica, nem na morte. Ficar é não aprofundar no vazio de mim, ficar apertando a alma, em busca de um vazio, profundo demais para sentir e morrer por ele. Queria ser humana como a vida, apesar de suas mortes. A vida se encontra vazia para salvar minha alma. Meu olhar condena minha alma, suspirando por ela. É constante não nascer, não ser. Assim, a alma ganha vida. Sem alma, respiro melhor. Não me sinto segura em respirar, é muita intimidade. Apertando a alma, pareço feliz, viva. É impressão, uma sensação apenas. Escorrego na morte. Preciso curtir a alma nessa carência de alma, onde nasce o nada. Aonde vou sem o nada? Não preciso de alma para amar. A ignorância da alma é céu.

O nada sem alma

O amor de um instante perdido é o nada sem alma, é viver. Nascer é ausência necessária da alma: se perde o nascer no amor sem fim. Que fim eu tenho neste nascer? Um fim de alma sem alma, o que importa é que sou eu neste fim, não o mereço. Não posso ter a alma, mas tenho a sua subjetividade, distante de mim, do que não é alma, é amor puro, é poesia. O nada sem alma é o batismo do infinito. A alma é o que resta da aflição. A imagem é a dor da alma. O invisível da alma é a sua imagem, que torna a alma diferente do que é. O nada vive da alma. Entre eu e o mundo, uma vírgula de aflição, de harmonia, de paz. A serenidade de morrer são vírgulas invisíveis, onde a única pausa é o reconhecimento de morrer, luz que não acende em mim. A fala é o amor eterno, que a escrita não alcança. O nada sem alma é a leitura da alma. Acidentes são almas a se estabilizar. Depois do sol vem a vida. Almas são uma clandestinidade necessária. Venha, mesmo sem alma, a gente inventa, pra se distrair, dessa mesmice essencial. A essência é monótona. Tento ser sua essência: não dá: sendo sua essência, seria feliz: não seria eu mesma. Essência é o perdido modificado. Torna-se sem as essências do perdido. Respirar é essência do perdido, como uma presença ausente. Respirar tira pedaços. Nunca mais os terei de volta: por isso, são pedaços, fragmentos. Por isso, são alma, a se desfazer de mim, para eu não morrer.

A imperfeição do mundo

Amargura não é triste, é devolver a vida à vida. Sem sua casca, a alma não existe. O sonhar da alma é ruim para mim. O corpo é a profundidade da alma. A alma é o que o corpo não sente. Sentir é não me perceber. O derradeiro fim é o começo do nada. O fim do nada é o ser.

Sem o infinito eu sou eu

Compreender não é uma necessidade, sou eu, sem o infinito. O infinito é o corpo da alma. O céu é a compreensão do mundo, do vazio. O mundo é um ser. A vida é algo pior do que a solidão, pois não mata como a solidão. Não me lembro do meu ser, me faz esquecer de mim. O infinito sem corpo é meu ser a afundar no meu corpo. O sonho sem freio é a tempestade da alma. Escondo meu ser numa alegria eterna. Para ser o bem, o bem não se divide, entre o ser e o mundo. O que me faz ser? A morte? O nada? O além?! A presença do ser nele mesmo é o colapso do ser.

Tudo é sonho

Nada existe: tudo é sonho. Sonho a desaparecer numa realidade inexistente, como um amor, que não está perdido. Deixo a reflexão pelo meu ser. Deixo-me num refletir além da vida, pura eternidade. O céu é a falta de lembrança no depois. O céu é uma lembrança sem depois, onde a lembrança do depois é lembrança do depois, é a alma. Sem alma o inesquecível se torna alma. O olhar é o esquecer da alma. Sem o som da alma, fico surda. O som da alma nunca será o som da vida. É visível a alma no seu som. O tempo lembra a alma. Vou longe na morte sem o infinito.

O sentimento do mundo

Queria ter o sentimento do mundo para dar a poesia. A eternidade fim do ser, começo de mim, na alteração da visão do mundo. O começo é o fim de muitas coisas essenciais. O ser é para o nada, não para a morte. Internalizar o nada, não é o nada: é o sentimento do mundo. Reconhecer é esquecer. Chorar não alivia a alma. Deixo o imperceptível ser o amor que percebo. Nada percebo sem o céu na vida. Nada se desfaz no perceber. No perceber é possível sonhar. Mas meu perceber não é sonhar. Sonhar é não perceber a vida. Sonhar com a vida, é perceber a vida no meu desaparecer, unido ao sol, a angústia, ao viver.