Blog da Liz de Sá Cavalcante

Mágoa

Meu amor, devo ao tempo quando o tempo se despede, fica a mágoa de ter existido, onde apenas o tempo devia existir. A existência não significa existir, é uma falta que não pode ser preenchida. Na sombra da mágoa, nas margens da mágoa, está o sol. Ficar um segundo é a única permanência da vida, que necessita ser feliz. A mágoa da permanência é ser só, como se toda permanência existisse apenas em mim. Por que a permanência de sorrir me faz chorar?! Sorrir, para a vida acabar logo, e a alegria de ontem ser a alegria de hoje. Não importa mais viver, importa que dure como falta, que é a impermanência da falta na presença isenta de morte. Na presença está a pior ausência, que torna o mundo, a vida de todos juntos, somos mais do que vida. No deserto da saudade, o sol é eterno. A eternidade do sol desaparece na eternidade de ser, e a eternidade fica sem sol, sem ser. O tempo se abandona ao relento, sem sol ou chuva, apenas o tempo como escassez do tempo, a companhia cessa o pensar. O respirar vive sem mim, como se fosse a curva da vida, na luz do sol. O sol não tem luz, é apenas o olhar que não tenho. Mágoa é a certeza da falta de um olhar que impeça a mágoa de olhar. A mágoa se vê sem mágoa. A lembrar da falta, me lembro da mágoa, do amor. Como dar um fim a uma poesia? A falta de poesia não cessa a poesia, o ser em mim, que não é por mim, pertence ao nada de outro ser. Se ao menos eu tivesse meu próprio nada. No meio do olhar se esconde a vida, onde o olhar se vê, no sol do amanhã. Tudo me faz sentir o não sentir. Mágoa, onde está o teu sentir? No céu? Nas estrelas? Ou sou eu que te faço sentir alegria, essa alegria por mim?

Perdida na alma

A consciência de ter alma é ficar perdida na alma. O ser pode sair de si, mas a alma, se sair de si, por pouco tempo que seja, morre. A alma é eterna no seu ficar. A eternidade é o olhar da alma, que se entrega ao que perdeu com amor. Se julga perdida a alma, ela é a terra, o ar, o mundo, o mar, a dúvida de amar. O ser não tem essência, é puro ser. A essência é vazia, é a morte.

O idealismo da consciência

Pensei que não viveria sem consciência de mim, nunca sou ou fui consciência de mim. O idealismo da consciência é Deus. A imaginação domina a vida, torna a consciência de Deus possível. Invadir o nada, pensando ser a consciência de Deus. Tudo isso é querer acreditar não apenas em Deus, mas acreditar na esperança de ser só, de deixar Deus em Deus. Minha fé é um abismo de luz, que me ilumina, torna tudo pela minha luz. Quando percebo a luz de Deus, vejo que sou escuridão. Vivo sem o meu ser, respiro o irrespirável: o meu ser!

Apreensão da alma

A apreensão da alma é não necessitar se preocupar em ser. O ser para o ser é a atenção da alma. Vivo a alma, como se fosse o resto de nós, que se encontrou sem alma. A alma é por onde desaprendi a viver vivendo. O real da alma é sua ausência sem alma. Até eu conseguir ter alma, já morri, antes de ter alma. A morte e a alma são a mesma coisa. A distância não é distante de mim, como alma, mas como distância, quem influi no real. O acalento do real é a distância. Ser só, na realidade, é a distância que não existe por dentro de mim. Se meu interior fosse essa distância, não seria tão distante de mim. Compreender não é ficar perto da alma, é me separar dela. Tudo que aprendi na alma é esquecido pelo sentir. Sentir é a alma dentro do nada. O nada me faz sentir-me eu. O nada, matéria do corpo. Eu, o que o tempo não separa. Por dentro em mim, compreendo o amor, exterior a mim, o ser se compreende, como um saltar de vida. Nada da vida é o chão. A espontaneidade da morte tem o direito de agir como quiser. É espontânea, como umas carícias de alma, amor. Eu não inventei a morte, já que ela existe, posso torná-la amor à vida. É preciso morrer às vezes, para sentir saudade de viver. A morte me impressiona, onde ela é simples, como olhar o sol, como correr na areia e sentir a brisa do tempo. Escrever é a parte que falta no morrer. Por que não posso morrer no que sinto? Como voltar à realidade depois de morrer? O sonhar é um começo da realidade, que é apenas o começo interminável do nada. Se preocupar com a alma, sem lhe dizer adeus, é conseguir amar o que falta na alma. Eu não tenho consciência, procuro pensar, o vazio cresce, a ausência é absoluta, como se eu pudesse pensar nessa ausência. A ausência é o pensar da alma, onde não necessito pensar na paz dessa ausência. A ausência do mar é o mar, a ausência do amor é amor, não sou ausência de mim, nem a ausência consigo ser. Há uma infinidade de ausências para não me sentir só, ou ficar na presença solitária do nada, como se fosse minha ausência. A ausência é a alma da alma. Não existe alma sem ausência. A alma nunca será presença de nada. Quem tem alma não precisa ter presença. O início é o fim da alma, posso confiar e aproveitar apenas essa ausência, como se tivesse no meio do nada. Por mais que eu queira necessitar da alma, é impossível, assim como é impossível ter o fim do sol dentro de mim.

A fala da escrita da vida

É triste abraçar sem a ausência de mim, se me abraçar é vazio, é vazio também abraçar alguém. A vida é um vazio sem fim, o amor é um vazio interminável, é melhor acabar, porque sofro de saudades. Mas não sinto saudades de ter sido um dia, vejo o vazio com esperança, amor. Amor que me consome, mesmo já tendo morrido. Por que não morri antes desse vazio infinito por dentro de mim? Não dá para falar da vida, muda de alma, de amor, vejo no silêncio uma paz contida no depois. Depois, tudo volta a ser, menos a normalidade da vida.

A morte é a única coisa que não está oculta na mente

Tudo foi oculto pela morte, menos o pensar, que pensa pela morte. Nada vai perturbar minha alma, enquanto eu viver. Ao morrer, perco o controle da alma, até esquecer que tive alma, pela presença do céu, de Deus. Tive lembranças da morte, inesquecíveis, raras, lembranças mais vivas que as da vida. A voz perdida no amor é sem morte, sem faltas. Tudo é presença na voz perdida do amor. Passei tanto tempo morrendo, que minha única razão é morrer. Não sei o quanto morri, mas sei pelo que vivi. Se tudo fosse apenas morte, tudo teria sentido, e a morte não seria assustadora, seria comum. A febre da morte é a minha pele, a saúde da morte é a minha alma. Criar a morte da morte é fragilizar a morte no que ela existe. As palavras consomem a morte, mas não pela fragilidade, pela força de morrer. Morrer é cada palavra não dita, não sentida. Devem existir palavras para morrer, senão a morte seria inútil.

Extremidade

Um ser dentro de outro ser é ausência absoluta. Mas, até a ausência absoluta não é ausência de tudo. O que é intocável na alma é o ser. Não há ser dentro de mim. É mais fácil morrer em ser, deixando o ser para a vida. Apenas meus sonhos te veem, como se eu tivesse alma. Me entregar ao nada, ser feliz, como se tudo fosse o nada. Lutar é não ter forças para reagir sem lutar. Sou frágil no que me fortalece. O amor não consegue imitar o ser. O ser é superior ao amor em suas ausências. São tantas ausências por viver, que o sol se destaca na imensidão do infinito. O sol, sem amor, sua luz não faz ver o amor, talvez o amor não possa ser visto como amor, o vejo como vida. Eu tentei acreditar na esperança, mesmo sendo falsa, ainda é esperança. O abismo é a esperança. Cair dentro da esperança é ser esquecida como esperança. Não há lembrança que dure como esperança. A esperança é o nada sem o sol. A realidade da alma é vazia, a plenitude é vazia, é apenas uma imagem que não se perde, mas nada significa para a vida.

O autêntico respirar

O autêntico respirar é tão leve, que não incomoda a vida em seus sonhos, o meu respirar é o que restou da vida. Nada será como antes, tudo será apenas um eterno respirar sem vida. Ver é qualquer coisa, ver se concretiza no seu significar, é como voltar a respirar, mas a respirar como alma. Respirar dá vida aos sonhos, dá vida à vida. A alma é um coração em busca do amor que se vê na alma, a alma se vê no amor. Mas um não vê um ao outro como diferentes, mas são diferentes, e amam da mesma maneira. Morte resguardada, como se fosse o infinito em cinzas. A morte é protegida mais do que o ser. Palavras seguem seu destino, sei que não vão me encontrar. Isto é sempre mais, é o infinito das palavras, onde perder é ter. Se não tenho com quem conversar, se não posso conversar, porque é imensa a minha solidão, as palavras conversam comigo, mostram que tudo que necessito é não me sentir só, pois as palavras são a melhor companhia. É pelas palavras que consigo amar, respirar, o autêntico respirar, como se o meu respirar fosse a eternidade das palavras em mim. Respiro, logo existo em palavras, onde a eternidade suspira por mim.

O prazer do esquecimento

Esquecer, lembrança eterna, dura uma vida. Esqueço o inesquecível. Não dá para ficar na lembrança que não me quer. Como lembrar de mim se fui esquecida até pelo esquecer? O mar é a lembrança do esquecimento. A falta de eternidade é a falta de sorrir, de olhar para o outro. O silêncio é uma forma de olhar sem distância. O fim do silêncio é uma eternidade vazia. O fim da morte é sem silêncio, tremula a morte, quer sair da sua voz. O fim é uma maneira de não calar, de não desistir. O fim nasceu morto, como uma morte interrompida pela distância do ser, do amor. Apoiar a morte, lhe dando um fim. O fim não merece a morte. Merece ter vida no que escrevo. Há tanto para escrever, nada para ser. Escrever é mais do que ser. A eternidade de esquecer é muito mais do que eu esperava ter. O silêncio é a concretização do nada, na perda do nada. Decorando a vida com o amor que sinto, afastando a perda do nada, como se fosse minha morte.

A ausência da ausência

A ausência da ausência não é a eternidade da presença, que não é a presença que a ausência quer ter. Chega de eternidade, onde não sou eu mesma, sou apenas fragmentos de eternidade que escapou da eternidade em sorrir.