Blog da Liz de Sá Cavalcante

Fatalidade

Pobres versos, meus versos não transcendem, voam sem asas, sem ser livres. Restos de mim se tornaram solidão, sem poesia, por isso são poesia. Tudo se diz num adeus. O adeus me escuta sem solidão. Não dou esperança ao adeus de ser o seu adeus. A solidão da alma é a minha falta de adeus. O adeus de um sonho ainda me faz sonhar pelo seu adeus. Não há adeus sem sonho. Tudo floresce sem a esperança. A alma é tão pequena, frágil, que nunca se perderá. Dou conta da esperança de ter alma, mas não dou conta da alma. No sonho, a alma é o universo. Ouvir minha voz me ajuda a viver, é como um silêncio infinito de voz, que precisa nascer, como o mundo e a vida nasceram. Nasci da minha voz, emprestada da vida, da dor. A dor é inalcançável, não há sofrer em falar. Por isso, eu falo. Mesmo que ninguém escute, eu me escuto.

O nada do nada

A lembrança surge da alma. Mas a alma não é uma lembrança, é um acalento sem alma. Vou movendo a vida com minhas mãos de alma. Descobri a alegria de ser a vida que sonhei, quis para mim uma vida feliz, a alegria nem sempre é possível. Cultivar a alegria em alguém é como ser feliz. Há alegrias que não cabem dentro da alma, já são alma. Há alma para todos. Caber feito alma não me aproxima da alma. A alma é a estátua da vida. O sonho é um espaço em branco, que nunca será preenchido. O meu ser nunca será sonho. A falta é a força de sonhar sem amor. Devolve-me tua dor, teu ser, como perda de mim.

Amor solitário (para pai)

Sonhar é amar, todos juntos, num único amor. Amor solitário deixa o sonho vazio, por isto o sonho deixou de sonhar, para esquecer o vazio de um sonho. Esquecer para amar o esquecimento, como uma saída para o sonho. Quero morrer por amor. Deixei meu amor viver por um sonho. Mas o sonho não vive por amor. Amo alguém acordada, deixa meus sonhos na escuridão; para mim, sonhar é te amar. Meu amor é solitário sem ti. Teu amor é multidão. O mundo é teu amor!

O nada é falta de amor

Sem o nada, o amor perde o significado. O continuar é a lembrança de viver sem viver. Ter lembrança é uma agressão, para o outro e para mim. Não sei o que vai acontecer com minhas lembranças, vou para onde elas estão. Se elas não estiverem em parte alguma, vou continuar procurando por elas, como quem se lembra do mar. O mar é o prazer de lembrar e reviver. Respirar machuca a alma, como se eu estivesse sorrindo.

Revelações

Revelações é o esquecer o vazio, mesmo assim não viver. A revelação do vazio é a falta de mim. Tudo que é revelado na falta da presença, como um suspirar eterno, prolonga a noite, pois ainda é dia. Suspirar é a fala a se expressar sem adeus. A fala do mundo não é muda, não quer que eu a escute, quer que eu olhe para as estrelas com a minha fala de estrelas. Tentei caminhar sem estrelas, perdi-me. Estrelas salpicam o nada como se fosse o céu. A alma não fica no céu, é eterna no ser, na vida e na morte. Há esperança de morrer sem estrelas. Suspiro a fé da esperança por não amar.

O silêncio é o olhar do nada

A poesia me ensina a escrever nela, com o meu olhar do nada. O esquecer me faz esquecer uma morte que não é minha, é do esquecimento. Esqueci o que podia esquecer: eu mesma. Eu, num esquecer maior do que eu, do que a morte, a vida: é o esquecer de não morrer, pior que morrer. Morri, pois não há distância entre o real e o sonho. Distanciei-me por sonhar. Sonhar é me separar da alma, junto dela. A alma já estava separada de mim, por que me separei dela? Há separação na separação? Separar é ter alma, ter amor. Unir é falta de alma, de convivência. Fiz da alma poesia. Amar é liberdade, que me faz saber quem sou, antes mesmo de ser. Sou mais do que um ser, sou amor! A obscuridade do ser é o tempo, que me faz não ser. As estrelas são o meu coração tentando amar, onde já amo. Apenas as estrelas podem se despedir morrendo como se fossem o céu. Nada pode ser o brilho das estrelas, nem mesmo o céu. Há estrelas no meu confinamento emocional. Há estrelas sem estrelas. A ausência das estrelas sou eu a desmaiar estrelas. O nada tem um olhar todo para si mesmo. Acredito na força do olhar, que sempre verei estrelas. A lua, despida de mim, dos meus olhos, faz-me sonhar com o sol. O sol é a saudade essencial de se viver. O silêncio é o olhar do nada, onde não morri.

O adeus da procura

A morte vai surgir do chorar da alma. A vida sem a morte é vazia. As mortes não se querem, não há como repartir a morte, não me despedindo da morte, pois ela é o adeus da procura. Não vejo o ver das coisas, vejo o ver do olhar. Sem a morte, fico apenas nesse adeus.

O ser do espírito humano

Feliz, posso sofrer, morrer, se não por mim, pelo ser do espírito humano. Escrever despenteia o vento no sol. Escrever é o mistério da vida. Escrevo sem descobrir minha alma. Saudade é uma maneira de esquecer. Tudo se esquece na solidão. Saudade é ser só. Solidão de alma é morrer. Morrer como um lamento sem alma. A alma, coragem de enfrentar a vida. Não há alma que confunda o chorar com ausências. O chorar é falta de ausência, a ausência renasce sem mortes. Sentir ausência sem morte é imaginar sentir sem sentir nada. A ausência não chora, flutua. É mais fácil deixar de amar, de viver, do que deixar a ausência. A ausência é o meu espírito tomando conta da minha presença, que não pode ser a presença de alguém. É a minha presença na ausência, onde sempre será a vida do amanhã.

Da vida ao nada

Como perdi a vida no nada? Tenho que agarrar algo, nem que seja o nada, que não é morrer, é a intimidade comigo mesma. Enquanto existir o nada, não morrerei jamais. Vivo do nada de mim, não quero desperdiçar nem uma gota de mim. Morri sem o nada, no infinito. O que pode ser mais triste? Ser eu!

Radiante e sem luz

Estou radiante, e sem luz dentro de mim. Há luzes que são o universo a pousar na vida. O nada é diferente de pensar. Amar é próximo de se morrer. É difícil ler sem ter palavras para sentir. Não há procura sem se entregar à alma. Alma não conhece o sentimento de vida, mas conhece o meu amor, quando a vida entra em mim. Penetrar em mim não é a vida entrando em mim, e sim saindo de mim. A alma é a solidão em que vivo. Mas a vida deixou de ser alma, eu deixei de ser eu pela alma. Não sei nada da vida, concentro-me no nada. Nunca poderei tornar a vida um nada. De que adianta viver se eu e todos que amo vamos morrer? Para que serve o olhar se é apenas para ver o que não devia ver? Devia ver a falta do olhar como uma morte que se repete dentro de mim? De que adianta a morte se eu posso vê-la sem o olhar? O significado de olhar é a morte, mesmo que, pela morte, tudo veja. Ver é apenas perceber, que, se tudo é morte, nada está perdido.