Blog da Liz de Sá Cavalcante

Útero

O útero seco é amor. O amor, a verdade. Útero mata, não há de nascer. Há a glória de morrer quando o engano de ser se torna certeza. É morrer. O que nasce e é imortal é a escuridão que desafunda o corpo da luz. Nem a morte é eterna. Sorrir é o fim. Fim sou eu em ti. Fim é o luto da saudade. Tudo é eternamente vivo pela ausência. Não é pela ausência do corpo, alma de mim, do nada. É como saber viver na desigualdade de ser mais do que da vida. E a vida brilhar, ser mais que eu em seu amor. Morrer é alívio, é cavar o corpo da alma. O inesquecível é uma forma de esquecer para tudo ser inesquecível. Orgulho é viver. A alegria é a falta de vontade. Eu não decidi ser, mas sou entre parênteses. Nada salva a alma dos passos do silêncio. O vulto do nada é meu ser nos meus passos. O agora é a alma do passado. O coração trincado no chão. Sonhos evitam devaneios. Ser é um devaneio infinito. Flores expandem a vida nos meus olhos. Último adeus é o primeiro adeus. Não há sombra no adeus. O adeus é um corpo que não morre, morre na dor. A alegria é o espírito de Deus. Ressuscitar a morte no desejo de ser feliz. O  amor não espera nascer o ser. Ele o ama antes de nascer. O útero é o nada de costas para não sentir o desnascer. Sinto o desnascer no amanhecer. Sonhar é nascer em tudo. Sou um instrumento da morte no amor. Chorar o riso que ninguém chora. O ventre da morte chora o riso.