Blog da Liz de Sá Cavalcante

A falta e o faltado

Na falta do faltado, a minha presença se faz presença, como se existisse apenas um raio de sol — um sol a desaparecer nas asas do céu — e eu a brilhar só na minha escuridão. O sonho eterniza o nada. O vazio me faz viver. Deixo minha dor no sonho, e o sonho sonha com a minha dor, e assim existe Deus. Sofrer é consolo; alma é estar viva. Nada mais aparece nos meus sonhos. Agora posso viver. Só o que sou. Não sei se isso é viver, mas agora tenho a aparência dos meus sonhos. Engrandeço a dor na falta de dor, como uma sombra recolhida, que é o tempo até o recolhimento ser presença de Deus sem amanhecer. O amanhã devia ser Deus. Viver sem amanhã, num Deus que existe num fio de luz onde eu desapareço para aparecer na poesia, para sentir tudo e nada. Existe apenas o nada. O universo é um nada de alma. Estive em mim no nada, no vazio: ganhar, perder é a morte. Em mim, no nada, no vazio, criei o nada e o vazio como estátua da morte — nunca estar só e morrer de uma solidão poética na luz de um adeus.