Viver aos poucos, na estrutura do nada, até cessar a dor, que parecia infinita como o Sol a se mover dentro de mim. Movimento-me pelo Sol e pelo nada. Sinto o sabor do céu na alma. Vou morrer na alma. O encanto de morrer é a morte. Os que já morreram sabem a morte que têm e tornam a morte sagrada, no seu reconhecimento dos seus mortos, da luz que medita por mim. Nada se é sem morte. Nascemos com a morte, por isso podemos amar. É privilégio viver e morrer. Mesmo sem eu aceitar a luz, é o tempo de viver e morrer, em um sonho sem luz. Vida e sonho se misturam. O Sol navega pensamentos de mar. O mar, sombra da morte, amor, acolhimento, perfeição de tão primitivo. Se o mar nada levar de mim, torna-se sal. Sofrer sem o mar partir é sorrir para Deus. O céu é responsabilidade humana. O teu céu diminui o meu céu, sem esperar o teu céu. Na alma, o tempo para. Nada influi a alma. O amor não ama como eu. O que era para ser amor não é. Amor nunca se sente. A ilusão de amar é ser. O Sol corrói o amor na minha ilusão de amar. Amar, não amar, sendo eu mesma. Mas a luz disfarça que eu vivo. Viver é a luz que tem consciência de sua luz. Minha luz é o sentimento do mundo. Não estou nela. Ela está em mim. Uma maneira de encarar a consciência é perdê-la conscientemente. Nada perco na inconsciência. Ela se perde só, como se acabasse de nascer. Perda é a razão na desrazão de viver. O silêncio é natural se for de alma. Nada se contenta com o nada. O nada sobrevive ao nada. Não há nada que substitua o substituir sem o Sol do infinito. O infinito é morrer antes de morrer, é procurar em mim o vazio da morte, sofrendo em mim. Esse sofrer me ressuscita como se me visse sofrer. O que vê a alma, o sofrer não vê. Ver não é certeza, é incerteza. Ver-me é esquecer quem sou. A vida que eu posso ter depende de um olhar que morre no ver. Olhar é sonho; ver é realidade. O meu ser assombra a morte. Sem vê-la, respiro para me ver viva. Respirar me faz morrer. Mesmo assim, não deixo de respirar, pois é única poesia que fez sentido na minha vida. Deixe-me respirar e me sentirei viva. Isto é amor sem ser. No entanto, eu deixei algo a mais do que meu amor: a minha existência.
