Blog da Liz de Sá Cavalcante

A mudez da fala

Até muda, falo. Falo pela minha mudez, pelo silêncio que não vem. É triste falar com a fala. É triste falar em sonhos. Fisicamente, no corpo, não há fala, mas o meu corpo e a minha pele deveriam conversar comigo. Fico a contar sonhos no silêncio do amor. Quando a fala canta, nada tem a dizer de si mesma. O céu confunde a fala; a fala confunde o céu. Nada é dom; a sobrevivência é um dom. A mudez da fala é o coração vivo, em tempestades de lágrimas, de mim, no mundo de estrelas, onde sorrio como se falasse minha ausência, como se minhas poesias me ouvissem. O que poderia ainda escrever, sendo eu mesma construída em poesia? A fala é a falta do encanto. Desaprendi a ser eu, como uma mudez sem fala. Quem sabe um dia? Mas quando?