Blog da Liz de Sá Cavalcante

Nova vida

Ir não é partir de mim. É o fim do vazio no furo da vida. Ir é a volta de ir, dos que nunca foram. Buscar é nunca ir. A nervura é um pedaço das entranhas que torna o corpo estranho, sendo tarde para incorporar o estranho. E, assim, o vazio se torna real, concretiza o fim das palavras para a vida nascer. Sua incomunicabilidade é a minha proximidade comigo. A realidade, às vezes, falta até na ausência. Nada é real, mas a falta do real é real. Como semente plantada, como as raízes do nada. É fácil amar, difícil é continuar a amar. Mas o sonho me faz amar. Se mistura. Acredito num sol dentro do mar. Acredito que há uma nova vida. Vidas e vidas são o refazer da eternidade. Nova vida são vozes inesquecíveis. Conheço o som, a falta do som, mas não conheço essa nova Liz. Cada Liz é a incompreensão das palavras. Querem ser faladas apenas em mim. Se o sonho fosse a fala, a vida seria melhor, mas seria finita numa linha que entrelaça, que se revela, anuncia minha morte. Carrega-me como um vulcão. Deixo o fogo ser a minha pele: presença admitida por Deus. Deus sabe que a existência nunca será vivida no ser, como vive nas árvores, no abismo. Como quem vivem em águas, ilusões. Nada se derrama na ilusão de ser. Refaço-me no sol, no céu, na tua estrela, Deus, que é como se fosse única. Mas há muito adeus para pouca estrela. E, desses vários adeuses, percebi que o amanhecer é raro, íntimo, pessoal. Cada adeus é a busca do meu amor, de viver. Arrependo-me de ver o encanto crescer e eu diminuir no encanto da pele. Tudo vem da pele, em pele, entremear a pele no silêncio que fala. A ausência é vida. Não existe amor no ser. Ser é a profundidade do amor.