Desfazer o mar em amor, cobrir o tempo na ternura amanhecida. Nada amanhece porque tem que ser, amanhece de amor. Por isso a inconsciência da vida. A vida se vê em mim, confio na inconsciência. O que posso fazer pelo amor? Nada. Apenas amar. A vontade é um desprazer voluntário de ser, é a timidez do dia perante a alma. A alma se faz dia e o dia na poesia da alma. Quer saber apenas de mim. Meu corpo são todos os corpos para compor Deus num amor humano. É assim que lembro de Deus como um de nós em igualdade de amor. Amor é feliz no estranho de amar: perder Deus para a morte é como me perder, morrer. Deus me dá a paz infinita de abraçá-lo com minha solidão. Ele me dá seu corpo, sua vida, sua história, seu adeus e a alegria sobre a memória de Deus quando nada mais é para lembrar. Vida vazia num Deus constante. É como me aparecer em Deus. Deus é a aceitação da vida. Deus é o destino na sua solidão. Ver é chegar perto do destino de Deus. Deus não supera a solidão. Deus nasceu da solidão de Jesus. Palavra por palavra, o desaparecer se torna respirar. Respirar é a pele no movimento, movimento de um Deus que é uma pele dentro da pele do coração. A impressão de um Deus que ajuda entre sol e brisa. A vida vai além do que é, uma superfície funda. É o nada de ver. Ver é não me absorver. Ficar é dizer que está com Deus. A paisagem são os dedos de Deus a se perder dentro de mim, nos meus cabelos de ondas, em voltas do mar. Sem os dedos de Deus, perco meu corpo, como dedos de Deus. Levanto-me de Deus e seguro suas mãos num sorrir que desanima, que me faz segurar as mãos de Deus e me esquecer em Deus.
