Atuar na mente que existo é uma forma de reagir, de negar a negação. Sentir-me num céu onde tudo é escuridão, abafando o sentir. Saudade não é sentir, é uma maneira de ser além do ser. Se meu corpo nada me diz, tenho que conviver com isso. Escuto o corpo e a alma do outro na mudez da minha, de mim. Em mim, cada silêncio é diferente do outro, tem um amor novo. O silêncio surpreende, me toca, lê, esclarece a visão. Não existe tempo, existe ser. O ser no tempo é um ser, é o que se passou no tempo. Esperar é a vida da lucidez do meu corpo. Abate-se sobre mim. O estranho no corpo é a impiedade por eu viver. O corpo me assume, mesmo eu nada vivendo. A letargia do corpo é meu ânimo, me desato. Olhar para o tempo é o suficiente para viver. A palavra é a luz de uma fissura. Recupero a palavra no não sentido. O esconder não se esconde. Ama até o que esconde. O céu é a imagem da alma na poesia. Falar como céu é eternidade da ausência. Eu sou a eternidade da minha ausência. O que se foi desaparece sem o céu. Contigo me orgulho num passado de morte. Fica comigo, tristeza. Se entrar no meu mundo não sairá mais. Vou correndo sem passado, sem continuidade: foi o mais perto que cheguei de mim. Sinto-me livre, correr sem chegar no pensamento. O pensar para. Eu não consigo parar. É viver o defeito de ser. O que amo é ruptura de Deus com a vida. Deus agiu certo. Habito-me em toda pele, mesmo sendo só. O embrutecer da morte é Deus. Todo abandono é lembrança que não devia ter. Quero ter a mim como uma rosa esmagada de morte para não partir o meu coração.
