Blog da Liz de Sá Cavalcante

Tortura

Tortura-me sentindo-me. Penso que eu sou você, vida. Tenho poesias por me faltar um coração. A falta de coração me fez viver, ser feliz, isto é mais que ter coração. Não preciso de coração para amar. Não olho porque o olhar não é alma, é a imaginação. Tudo que vivo é sem ver. Nem o tempo sabe de mim, tenho vida sem ver. A ausência é ver. O viver é a ausência dolorosa de um adeus. O objetivo da mente é olhar a mente, mas a mente não é um olhar, é o sopro de compreender que nada é visível. O invisível é o olhar. Tudo é margem do olhar fantasma. O ver não existe. O que falta ao ver não é a vida. Falta ao ver definir o que é ver. Ainda sou como se como se dependesse de um raio de sol para ser, viver. É inacreditável emergir, morrer da falta da falta. Ninguém percebe minha falta. É o que queria que notassem em nome do amor. Sou  forte no que sou incapaz. Sofrer sem culpa é a razão de amar. O nascer do sofrer é a razão de viver, de não deixar o amor em paz. Amor não é cobiça, é se dar apenas em dormir e acordar, como uma flauta. Ajudo o sol a nascer na tua ausência. Sente o amor por si? Ele por si mesmo, torna relativo o ser. Expor a existência é não sofrer mais. Encaminho a existência ao raio de flores. O encanto é a falta do céu. O resistir das flores é catar o nada com mãos de resignação na alma das flores. Cresce nas minhas mãos, no que precisa nascer da minha alma e da alma das flores. E, assim, a flor será mais que um jardim. Nada atrapalha o não ver de ser imagem eterna, como se eu estivesse sonâmbula. É o último adeus na dança das flores, curtindo o não ver como vitória. Nunca vou olhar para o adeus, apenas respiro.